"Remember, remember, the fifth of november"
V
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"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'"
Jean-Jacques Rosseau
Jean-Jacques Rosseau
Hoje, em nosso blog, comemoramos o "3° Dia Mundial da Consciência Anarquista". Uma boa descrição sobre o que é o movimento e porque estabelecemos esta data você encontra no post especial da data no ano passado. Neste ano vamos refletir um pouco sobre algumas vertentes que inpiram o movimento libertário e as motivações por trás destas ideias.
Leon Tolstói, escritor russo anarquista, traz em seus textos uma ideia simples: se para fazer o mal os homens conseguem se unir de modo tão eficiente que muitas vezes os males nem são descobertos, por que não utilizar o mesmo modus operandis para promover o bem? Ou seja, se os homens se unem para cometer crimes perfeitos, esquemas complexos de corrupção, máfias e gangues, ataques violentos em massa, bastaria entender e utilizar esta mesma concepção para organizar ações de paz objetivando um bem social maior (o que traria, consequentemente, a vitória sobre a injustiça do existir).
O conceito filosófico da Tabula Rasa, elaborado por John Locke e base de todo o empirismo, diz que os seres são como folhas em branco, ou seja, sem conhecimento de nada. Toda a sua formação se dá com a experiência no mundo. Aqui não há inclinação para o bem ou para o mal, mas apenas o nada absoluto, que converte em algo durante a trajetória experimental durante a vida. Nesta linha temos a possibilidade de uma inspiração coletiva benéfica, uma vez que corrigindo a ética e o meio que leva o homem a cometer atos maléficos ele passaria a ser bom. Se cientificamente há descobertas que invalidam a Tabula Rasa, a influência que o conceito tem em políticas governamentais, educacionais e sociais são inquestionáveis.
Com isto em vista, voltamos a proposta de Tolstói. O escritor russo foi profundamente inspirado por Jean-Jacques Rousseau, empirista francês influenciado pela Tabula Rasa de Locke, que trazia consigo a ideia de uma liberdade natural dada no momento em que viemos ao mundo. Se o homem nasce como uma folha em branco, então naturalmente ele é livre. Seu condicionamento, sua escravidão e seus tormentos tem origem na sociedade mundana. Logo, se o homem torna-se um produto do seu meio, o meio é responsável por modelar o seu comportamento.
Com este pensamento Rosseau conclui que se todos os problemas tem origem no nosso meio social, provavelmente estes problemas não existiam numa época anterior a constituição da sociedade, nos tempos em que ainda éramos selvagens. Neste caso, aqui surge o conceito de bom selvagem. Os direitos civis não devem prevalecer sobre os direitos naturais, que nos são dados por fazermos parte do mundo. O homem precede a sociedade e não o contrário. Enquanto o homem existe sem a sociedade, a sociedade não existe sem o homem.
Porém existe uma instituição invisível, transparente aos olhos, porém não as sensações, que insiste em nos escravizar. Eu chamo este sistema de hiper-real e a entidade por trás de todo o esquema se chama máquina. Basicamente o sistema, que um dia foi controlado pelos homens, hoje tem vida própria e nos controla. Somos escravos de um sistema que virou o jogo e que criou dependências que faz com que sejamos intrinsecamente ligados a ele.
O movimento libertário prega o desligamento deste sistema. Pede a saída deste mundo condicionado. Como Tolstói disse, a ideia é bem simples: ao invés de construirmos uma máquina que gere padrões do mal, por que não construirmos uma que gere padrões do bem? Por que não objetivarmos uma utopia consciente, onde a proximidade com a natureza, com o bom selvagem, se faz necessária para a convivência harmônica entre as espécies?
Cientificamente, há explicações convergentes com a teoria evolucionista, onde uma vez que o ser humano é produto da evolução de milhares de anos, há características comportamentais do animal que éramos no principio até os dias de hoje. Entre estas características temos o instinto de sobrevivência individual sobrepondo ao coletivo, assim como as realizações prioritárias das satisfações e dos prazeres, o que denota uma propriedade egoísta. Há alguns anos, uma pesquisa foi publicada para demonstrar que o ser do sexo masculino era orientado ao sexo forçado, não consensual. Ou seja, sem os ensinamentos sociais que vem desde o berço e sem a recriminação psicológica proveniente deste padrão de moral, o homem, talvez, fosse um animal estuprador nato.
Se os cientistas estiverem corretos e o nosso desvio comportamental estiver mais relacionado a genética do que ao âmbito social, talvez seja necessário criar um ponto de meio termo para ambas as partes. Seria necessário que uma ação de bem coletivo que trouxesse consigo uma ganho individual, o que satisfaria a nossa parte animal e traria benefícios gerais. Talvez a solução fosse a reconstrução da moral, uma legislação de direitos civis que não entrasse em oposição aos direitos naturais, entre os quais a tão almejada liberdade. Enquanto os anarquistas acreditam na possibilidade de isolar uma sociedade libertária das demais - e assim conviverem em pequenas sociedades cuja bandeira da liberdade é o estandarte maior - eu acredito que uma mudança drástica virá somente quando este nosso atual sistema, regido pela máquina, suicidar-se em sua própria ganância.
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Cristo, Fantoches e a Santa da Uniban
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Uma figura que seria lembrada posteriormente caminhava por entre multidões de agressores que bravamente urravam insultos motivados por um ódio coletivo que beirava a histeria. Por que estavam ali, não sabiam, por que se aglomeravam em torno daquele ser, não sabiam, por que xingavam, também não sabiam. Apenas acompanhavam, como num efeito dominó, uma cólera desenfreada sem nexo nem coerência. Eles apenas queriam fazer parte daquilo. Ponto.
Enquanto isto a vítima daquelas ofensas não entendia as motivações que lhe levavam direto ao seu Calvário. A incompreensão de um comportamento desvairado de massa fez com que ela fosse crucificada mediante ao seu próprio mundo.
Este episódio poderia fazer menção à Jesus Cristo ou mesmo às bruxas de Salém, porém se trata do martírio de um espírito que passeava por estas bandas e acabou violentada por uma série de demônios que se disfarçavam de bons moços. Estamos falando da nova sensação do YouTube, do novo objeto de consumo viral, se trata da estudante da Uniban ABC, que foi hostilizada por toda uma nação de estudantes da universidade somente por aparecer com uma vestimenta que expunha partes do seu corpo.
A maior parte das pessoas que comentaram este assunto com opiniões que condenam o comportamento agressivo dos estudantes (sim, existem opiniões que os apoiam) são focadas na hipocrisia de uma neossociedade moralista, o que de fato não somos - ou melhor, não queremos ser: o respeito a diferença é parte integrante da evolução espiritual do mundo, embora saibamos que a coisa não é bem assim (vide católicos x evangélicos, carecas x emos, corinthianos x são paulinos, piquet x briatori, muçulmanos x o mundo e outros conflitos).
A minha análise, entretanto, não é centrada na hipocrisia social, mas nos comportamentos massificados e na transferência de opinião. Li em algum lugar o que iniciou a transformação de uma universidade num centro de formação de berserks. Basicamente a garota disse que não era a primeira vez que ela havia ido para a universidade com aquela roupa, e nas outras vezes não teve nenhum problema, nem mesmo nas ruas. Mesmo naquele dia, a garota afirmou que foi de ônibus para o seu curso e não houve hostilização de ninguém no percurso. Ao chegar na universidade, entre uma roda de amigas, elas começaram a elogia-la, porém alguns meninos que estavam ao lado se exaltaram e começaram a passar um pouco dos limites. Em instantes, outros grupos passaram a ofender a garota, que de sensual passou a ser vista como meretriz, e logo toda a universidade participava da agressão verbal.
Se a garota não houvesse se trancado em sua sala de aula, uma tragédia maior poderia ocorrer. Para isto, bastaria que apenas uma pessoa desse um leve tapa na garota. Isto acenderia o estopim e outras pessoas imediatamente participariam de um espancamento coletivo e sem razão de ser. Não é a primeira e nem a ultima vez que isto acontece. Basta apenas que um líder de um grupo de dois tome a iniciativa para que os outros passem a imitá-lo.
O efeito dominó foi comprovado por diversos experimentos sociais. Se você estiver caminhando pela rua e ao dobrar a esquina você se chocar com um batalhão de pessoas correndo no sentido contrário, você não hesitará um segundo em acompanhá-las. Outra experiência se dá quando uma voz de autoridade expõe uma ordem: você a cumpre sem questionar. Uma experiência britânica no documentário "Animal Farm" mostrou uma pessoa que se vestia como policial ordenasse que as pessoas não pisassem num determinado quadrado na rua, e as pessoas, claro, não questionaram nem a autoridade e nem o motivo da ordem: simplesmente desviaram do quadrado.
Isto mostra que somos seres condicionados por um primeiro movimento que desencadeia numa série de comportamentos repetidos, ainda que não questionados. No efeito dominó, basta que um inicie uma ação que desencadeie em excitação que aumente a adrenalina. A probabilidade de atingir o todo aumenta com a adesão de alguns poucos adeptos. No caso da garota da Uniban, bastou que um ou dois demonstrassem um comportamento abusado, que todos os outros foram contagiados e seduzidos a fazerem parte daquilo. Este protótipo de marionete denota o perigo de trazer a liberdade para aqueles que não sabem o que fazer com ela. Hobbes tinha razão ao afirmar que caso o poder do homem não seja transferido para uma figura soberana, não ficará pedra sobre pedra no mundo.
No que concerna ao meu pessimismo em relação ao homem, uma possível solução para que as pessoas não corram risco de vida seria resguardar a sua privacidade somente para si. Não mencionem suas crenças ou suas preferências mediante ao público, pois a nossa parte animal mais maquiavélica pode sobrepor a razão - que muito nos faz falta em situações de autocontrole. Claro está que isto não é uma solução, mas uma precaução por vivermos numa selva de animais.
Há centenas de exemplos de condicionamento por transferência de opinião, principalmente se pegarmos o campo das religiões. Excluindo da crítica o autêntico religioso, que é aquele que estuda a doutrina acirradamente e que conhece bem aquilo que crê, existe milhares de pessoas que fazem parte do ciclo religioso apenas por modismo, por pressão social, por cultura de massa ou por exigência de sua família. Estas pessoas apenas querem fazer parte daquele grupo e absorvem as opiniões da crença sem analisá-las. A meu ver um bom religioso é um religioso crítico. Como consequência destes grupos de 'fé', temos na história alguns graves casos de suicídios coletivos, motivados por um líder religioso como caminho para a salvação eterna.
Ainda há o condicionamento de consumo, onde objetos movem multidões histéricas para que sejam consumidos, vide lançamento de eletrônicos. Também temos o condicionamento da opinião pública, conduzidos pelas mídias de acesso geral. Por fim, eu não poderia deixar de citar o nazismo, o maior episódio de histeria coletiva. Uma loucura praticamente sem explicação quando relacionamos a barbárie empregada neste movimento maior.
Se alguém afirmar que o episódio do nazismo em muito difere ao da garota da Uniban, recomendo que vocês procurem se informar a respeito da experiência do professor Ron Jones, cujo relato inspirou o filme alemão Die Welle, que condicionou toda uma classe de modo a demonstrar como mesmo um movimento tão radical como o nazista poderia voltar mesmo nos dias de hoje.
O ser humano é fraco e pede para que alguém tome decisões por si. Se livrar de grande parte do tormento das escolhas é um desejo implícito no íntimo de cada um. Porém executar ordens sem analisá-las e questioná-las geralmente tem impactos negativos em ambas as partes: após a adrenalina baixar, o que fica é o arrependimento e a vergonha - isto quando a culpa não é transferida para o líder como válvula de escape de uma boa consciência quanto ao seu papel no mundo. Por isto seja crítico, pense e não deixe que o seu pensamento seja conduzido. A luta desta caverna é contra o pensamento fabricado, então faça parte de uma fábrica de ideias.
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A imagem acima já diz muita coisa e embora talvez você não esteja entendo a gravidade da tragédia, explicarei a seguir. O Yahoo GeoCities foi um dos primeiros provedores a hospedar gratuitamente páginas na internet.
Numa época em que não haviam blogs e onde a internet era algo para poucos - além de muito cara, a solução era criar grupos, como "Yahoo Groups" e o "Meu Grupo", utilizar o ICQ ou o Mirc, entrar nas salas de bate papo da UOL, ou criar páginas estáticas para passar nossa mensagem.
Eu cheguei a me aventurar nesta ultima alternativa e criei duas páginas, sendo a mais conhecida chamada "A Nova Sociedade dos Poetas Mortos", onde eu e mais uma galera publicávamos poesias e alguns contos, algo muito legal mesmo. Inclusive recentemente uma das pessoas que participavam deste projeto postou um comentário neste mesmo blog.
Pois esta caverna hospedava grande parte das imagens utilizadas em seu layout neste serviço do Yahoo GeoCities. Porém o Yahoo fechou o serviço e eu fiquei a ver nuvens. O resultado é este que você que acessa a página visualiza: tudo deformado. A maior parte das imagens perderam a referência, agora terei que refazer o layout.
Portanto peço paciência e que continuem com o blog através do feed ou acompanhando-me pelo Twitter. Em breve teremos surpresas. Prometo trazer um layout bem bacana para este blog. E, como lembrança, fica uma imagem deste blog já deformado.
Este post é uma adaptação de uma troca de e-mails que tive sobre agnosticismo com uma leitora do blog. Como foi uma conversa produtiva, decidi compartilhar os pontos principais nesta caverna.
De fato, você provavelmente não encontrará consenso absoluto entre os agnósticos a respeito do tema por diversos motivos, mas particularmente não acho isto ruim. Não há consenso por que não há uma teoria muito específica, tão pouco uma documentação concisa, mesmo por que utilizar a denotação "agnóstico" para definir uma posição religiosa é algo muito recente - o termo ganhou projeção somente a partir de 1860.
Sendo assim ainda há muita coisa para escrever a respeito, inclusive na identificação de agnósticos puros - se é que isto possa ser feito, uma vez que aqueles que se dizem agnósticos pendem para o ateísmo ou para a religiosidade, dificilmente se mantém neutros nesta questão.
Entretanto acredito que esta confusão nas diferentes leituras é algo bom e produtivo na teoria do conhecimento, pois abre discussões muito profundas, o que pode levar o próprio ser a explorar o seu íntimo num processo de autoconhecimento maravilhoso. E é deste autoconhecimento que provém diversas opiniões, cada qual com sua experiência exterior (no mundo) e interior (dentro de si). São pessoas diferentes, logo diferentes verdades.
O que faz com que o agnosticismo tenha diversas vertentes é que em momento algum ele preocupou-se em se tornar uma seita organizada, tão pouco uma religião ou crença. Ao contrário, esta posição evidencia a dúvida, que a partir de si nos leva a uma posição analítica e crítica em relação a própria existência. Afinal, será que é possível tomar um lado? É possível dizer se somos criaturas de uma entidade divina ou criação um acidente físico? Felizmente, isto não é possível. Assim como precisar qual é o momento que surge a consciência no ser humano. São questões sem respostas.
A meu ver, aceitar que há questões insolúveis é aceitar as nossas limitações perante o mundo. De fato, o homem não é maior que o universo, portanto deve aceitar a sua finitude. Para mim isto traz uma série de benefícios, pois a partir do momento que deixamos de tentar responder questões que não há respostas, deixamos de nos afligir e sofrer em demasia - uma vez que grande parte do sofrimento humano reside em tentar justificar a sua própria existência.
Uma vez li uma boa definição que separa os agnósticos dos demais:
O religioso tem fé que há uma entidade divina por trás do plano material.
O ateu tem fé que não há divindade por trás do plano.
O agnóstico simplesmente não tem fé.
O agnosticismo tem mais há ver com uma experiência de libertação do que com religião. Ao se desprender de assuntos improdutivos, nos preocupamos em aproveitar as coisas mais simples, onde com certeza reside a vida. Paralelamente, damos maior importância ao nosso papel perante o mundo, uma vez que nos sentimos inteiramente responsáveis por ele.
Todos estes desencontros se devem ao fato que o agnosticismo é algo proveniente de cada um. Ele não é uma teoria a ser seguida, não o encontraremos em templos e nem em manuais que ensinam como ser um bom agnóstico. O agnóstico não afirma ou nega, ele simples duvida e ignora, afinal mais importante do que teorizar a vida é vive-la intensamente.
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Na presente data chegamos, uma vez mais, em mais um ciclo completo! Pois é, caros amigos, hoje este blog completa dois anos de existência. Não irei utilizar deste espaço comemorativo para agradecer o pessoal que de vez em quando dá uma passada por aqui, e não por que eu não quero, mas por que fiz isto faz poucas semanas...
Bem, ainda assim continuo tentado, então lá vai: ode a vocês, amigos desconhecidos! Um brinde especial para todos nós! Minha promessa é que este blog continuará sem dar notícias, como sempre! Continuará focado em análises, em sistemas complexos, em hiper-realidades, em desconstrução do homem e em possibilidades da vida. Enfim, continuaremos com mais do mesmo, com maior ou menor freqüência, espero que para sempre.
Prometo também que finalizarei os trabalhos que estão em aberto, mesmo que não seja tão para breve assim. Às vezes alguns acontecimentos precedem em prioridade quanto às coisas mais prazerosas da vida. É o tal sacrifício que às vezes precisamos fazer para que as coisas fiquem bem, futuramente. É o famoso “um passo para trás para que possamos dar dois para frente”.
Portanto, fico por aqui com a despedida do ano dois e, consequentemente, a partir de amanhã iniciaremos o ano 3. Peço, encarecidamente, que continuem escondidos comigo nesta caverna! Até breve!
Este post faz parte da iniciativa Blog Action Day 2009 onde neste ano o tema a ser discorrido é “Mudanças Climáticas” (Alterações Climáticas).
Sobre o tema, basta dizer que por Mudanças Climáticas entendemos como uma preocupação ambiental dada, principalmente, em consequencia da elevação da temperatura em nosso globo terrestre, seja por ações naturais externas ou derivadas da mudança comportamental e sociológica oriundas de um desenvolvimento econômico desigual e, conseqüente, hiperconsumo das massas.
Se por um lado existe um corrente que diz o aquecimento global é inevitável por fazer parte de um processo natural, do outro lado temos quem pense exatamente o contrário. De fato, num mundo regido pelo Deus-Dinheiro, o que mais vemos por aí são cientistas que trabalham para grandes indústrias com o único intuito de corroborar dentro da ciência estas atividades injustas para o desenvolvimento do meio ambiente – e para isto vale até mesmo divulgar relatórios falsos e pesquisas que pouco acrescentam à real dimensão do problema.
Neste contexto observem que há um duelo entre verdades e mentiras que colocam as massas em dúvida sobre o que acreditar. Se as verdades podem ser simuladas e distorcidas, assim como as mentiras possuem teor de verdade, eis que evidenciamos, uma vez mais, o universo hiper-real. O que é inegável, porém, é que convivemos dentro de um sistema onde o aparente dita os caminhos e onde as políticas de consumo são diretrizes máximas de uma sociedade de capital.
Independente da “crença” na origem das mudanças climáticas, que por única e exclusiva manobra da máquina não é um consenso científico, não precisa ser gênio e nem cientista para saber que o nosso estilo de vida é responsável por contribuir – e talvez numa larga proporção – com o aquecimento do planeta. Para isto basta nos valer da energia elétrica.
Toda a eletricidade provém de uma fonte térmica, e isto não necessita de conhecimento técnico nem científico, basta ver que todos os aparelhos que são ligados na tomada produzem calor, assim como os chuveiros elétricos. Além disto, nossos veículos emitem gases que aquecem a superfície do planeta. Tudo isto para desenvolver a economia a qualquer custo e oferecer-nos, a preços exorbitantes, um conforto que não tem razão em ser, a não ser o objetivo final, que é enriquecer monetariamente o sistema.
A pergunta que fica é: a quê custo? Os humanos condicionados pela máquina ignoram os problemas em pró de um universo tecnológico de hiperconsumo e as maravilhas produzidas por ele, sendo que os objetos que antigamente nem pairavam em nossa imaginação já estão disponíveis em nossa Disneylandia virtual. Neste caso, a vida reside neste paraíso ou fora dele?
O cerne básico da resposta é que todos aqueles que vão à qualquer parque de diversão estão lá com o único intuito de se distraírem do cotidiano. Sabem, entretanto, que a vida continua fora daquele espaço – essencialmente sabem que ali é um local de escape e bem-estar que age em contraposição ao sofrimento de viver em um sistema baseado em exploração de recursos (humanos ou naturais).
O que acontece quando a sua vida cotidiana começa a ter a propriedade de se tornar um parque de diversão? O ser humano, obviamente, pede por fazer parte disto. Isto inclui carros confortáveis, celulares hi-techs, televisores imensos, internet móvel e outros “bens” e apetrechos de distração. Nisto tudo a política, sob o discurso já batido de desenvolvimento econômico, ignora totalmente as ações prejudiciais a própria natureza, sendo que os recursos, visto que a terra não é infinita, deverão se esgotar, caso o processo continue nesta mesma batida.
Neste universo hiper-real, não temos certeza se realmente nossas atitudes tão inocentes poderão beneficiar a natureza, portanto não trocamos o nosso conforto pela longevidade do planeta, uma vez que inconscientemente somos egoístas para se preocupar com a existência após a nossa morte.
Esta conscientização é o grande problema a ser resolvido. Se as pessoas começarem a tomar conta que o poder está em suas mãos, elas podem reverter o quadro. Mas só que a luz não é para todos. Como dito na alegoria da caverna de Platão, ainda que alguns vejam a verdade, simplesmente a massa ignora os fatos, diante da alteração de seu cotidiano.
Sabemos que um grande malefício para as mudanças climáticas está na forma como passamos a usar o solo. A natureza não agüenta tanta agressão. Simplesmente criamos centenas de zonas urbanas apenas para melhor acomodar as pessoas, o que, de fato, não seria algo tão ruim, desde que fosse de forma planejada. Antes existia uma zona rural que foi substituída por zona urbana constituída por inúmeras casas, o que já representa uma mudança brusca no uso do solo. Porém hoje temos as casas substituídas por inúmeros prédios, o que traz problemas de estrutura e organização, além de novos problemas socioambientais, como acúmulo de lixos e concentração de veículos.
Minha visão pode ser pessimista, mas justamente por não depositar a minha fé no homem, acredito que as coisas só caminharão para um desfecho positivo após colocarmos tudo à beira do fim. Isto significa que só após a queda voltaremos a nos reerguer da forma correta. Isto provavelmente irá acontecer quando os recursos começarem a se esgotar de modo que as empresas comecem a perder dinheiro – e talvez seja tarde demais para tentar voltar atrás, porém este é o risco que eles assumiram por si mesmos.
Lógico que há uma série de entidades filantrópicas, ONGs e ativistas ambientais que lutam para que haja uma política forte que restrinja as empresas a fazerem o que bem entendem com os recursos naturais e uma fiscalização eficiente nas práticas ilícitas, assim como cumprimento das leis ambientais. Eles fazem um trabalho árduo e precisam ser apoiados.
Todavia, a ignorância do homem aliada ao autossustento do sistema construído pela máquina não me deixa muito otimista para que mudanças emergenciais – tão necessárias – sejam tomadas de imediato. Acredito, porém, que sempre haverá um belo de um discurso retórico que visem adotar medidas para o inalcançável amanhã.
Vamos aguardar a conferência das mudanças climáticas organizadas pelo ONU, em Copenhagen (Dinamarca), neste final do ano, e vamos ver o que acontece neste ano de 2010. Mas pelo sim ou pelo não o fato é que grande parte das medidas poderiam ser tomadas por nós, que em parte somos responsáveis pela situação como um todo.
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Opinião Agnóstica: Ensino Religioso
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009
No dia 26 de Agosto deste ano a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de decreto legislativo 1736/2009, que basicamente propõe a volta do ensino religioso, de modo facultativo, no período de formação fundamental (que compreende de 1ª à 4ª série do 1º grau – antigamente chamado de primário). Com isto, o projeto foi enviado para o Senado votar e, caso seja aprovado, pode ser que tenhamos esta disciplina na grade muito em breve.
Obviamente este evento gerou uma série de opiniões, algumas solidárias, outras envenenadas contra esta decisão, que em momento algum solicitou a opinião pública, sendo tomada apenas para preservar um acordo entre o governo e a Santa Sé – que representa a Igreja Católica.
Nem preciso dizer que o acordo fere a constituição, que nos dá direito a um Estado Laico (art. 19, I) e a proibição de distinção de indivíduos, dada razões ideológicas, crendices ou culto (art. 5, caput e art.19, III). Isto por si só já é motivo de sobra para os mais ferrenhos debates acerca do tema, afinal de um lado está a Igreja – neste caso uma ação proveniente do catolicismo – e do outro lado estão outras crendices que se unem a descrentes brasileiros.
Como minha opinião foi solicitada, visto que a pessoa não conhecia uma opinião agnóstica a respeito deste assunto, faço valer este texto para que possamos, de forma mais sintética, analisar o seguinte duelo (independente de crença, visto que a Igreja Católica publicamente declara que o ensino religioso não é pró-catolicismo, e sim a favor de um ensino baseado numa ou mais crenças): Religião x Liberdade.
Não é demais lembrar que esta opinião não é única e reflete apenas um dos ramos do que tal decisão implica. Outros textos são muito válidos e podem complementar a leitura, principalmente aqueles que analisam o corpo jurídico, os reais interesses da Igreja e toda a política em torno deste projeto de decreto legislativo.
Tentarei responder de forma satisfatória aquilo que foi questionado: agnóstico, você é contra ou você é a favor do ensino religioso? Esta questão engloba uma série de fatores e está carregada de sentimentos históricos, principalmente quando retomamos uma época onde a Igreja constituía o topo da influência política no mundo. Ainda assim precisamos de cuidado para sermos coerentes em nossa resposta e neutralizarmos os nossos pulsantes nervos que estão para estourar. É preciso conter o grito na garganta.
Depois de refletir por um período a minha resposta é: sim, eu sou a favor do retorno do ensino religioso. Antes que pensem que eu tenho uma tendência religiosa em minha veia agnóstica, irei explicar o porquê de minha decisão.
Meu argumento está intrinsecamente ligado com a questão moral do homem. De certa maneira não podemos negar que as massas convivem num período que podemos chamar de crise da moral, onde a alienação perante as coisas e o condicionamento perante as mídias, assim como o chamado dos objetos, que possuem identidade própria num universo hiper-real, nos passam uma enganosa impressão que somos ilimitados. Este argumento surge com outro que diz que podemos fazer o que bem entender.
Há um conceito antigo que desenvolvi chamado humandróide, que nada mais é do que este homem interligado a culturas cibernéticas e multimídias, onde milhões de informações são processadas de modo subumano, impossíveis de serem analisadas e digeridas, o que faz com que nos tornemos seres automáticos e pré-programados como andróides, dependentes, inclusive, de bens tecnológicos – os chamados gadgets.
Portanto, temos uma crise de moral, onde fazemos sem saber por que fazemos, apenas seguimos o sistema – que é autossustentável e perfeito em si mesmo. Aqui, tudo é permitido. A sociedade do “Admirável Mundo Novo” de Huxley já nem parece ser tão absurda assim. As gangues do “Laranja Mecânica” de Burgess já nem são tão fantasiosas. Cada dia parece que nos aproximamos mais desta sociedade robótica antes vista somente nos livros de ficção científica.
Dostoévski, em seu “Os Irmãos Karamázov”, já lançava a seguinte reflexão: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Ou seja, quanto mais nos distanciamos de princípios morais (neste caso podemos colocar Deus como uma entidade que representa um princípio de moral), mais estamos propícios a acreditar que podemos fazer o que bem entendemos de forma egoísta e egocêntrica.
É inegável que qualquer religião possui um código moral que visa direcionar os seus membros numa direção que propicia harmonia e bem-estar, mesmo que isto represente controle sobre o nosso modo de pensar e, consequentemente, de agir. E isto, em parte, resolve o problema da crise da moral e projeta, ainda que de modo sinuoso, uma perspectiva de vida social melhor que a atual.
Alguns deverão pensar que se atualmente vivemos num sistema condicionador, por que deveríamos trocar por outro sistema condicionador. Primeiro que não estamos tratando de uma mudança de sistema político e nem pretendemos colocar a igreja novamente no poder. O assunto está ligado exclusivamente à formação de crianças. Não necessariamente estas crianças serão devotas religiosas, mas certamente aprenderão valores básicos de convivência social (como respeito, fraternidade, amizade e perdão) através de um código moral baseado numa hipótese de mundo superior.
Nosso sistema de ensino já provou ser ineficiente para educar crianças, principalmente por que elas mesmas se encontram num período de influência modista. Já é consenso científico que a educação estrutural não vem de casa, e sim do ciclo de amigos, principalmente nesta fase elementar do aprendizado. Então é preciso que as escolas retomem uma disciplina moral, por mais que utilizem da autoridade de uma figura superiora que não pode ser provada (nem a existência e nem a inexistência), visto que ela parece ser mais temida do que homens armados.
Depois deste período fundamental, as crianças passam a formar raciocínios mais complexos e podem chegar à conclusão que Deus existe ou não existe, porém alguns valores já estarão lapidados e com certeza isto lhes ajudarão a serem pessoas melhores (independente de crença). Claro que, dê certa maneira, isto fere o direito de liberdade das pessoas, mas me digam, caros amigos, o que uma criança sabe de liberdade?
Será que é justo permitir que elas façam escolhas tão complexas em tão pouca idade? Se os pais souberem o que querem para seus filhos, basta que matriculem eles em escolas que defendam os seus interesses (uma vez que o projeto votado é facultativo), na religião que melhor lhes atenda – se é que estes pais desejam uma religião para os seus filhos. O que não podem é pensar que seus filhos merecem ser livres, pois a liberdade está mais para desgraça do que para um prêmio.
Pegue existencialistas, como Jean-Paul Sartre, e veja o que eles pensam sobre a liberdade. Só para resumir, assim como dizia o pensador espanhol Ortega-y-Gasset, infelizmente todos estamos condenados a fazer escolhas assim que nascemos. Mesmo que não fazemos nada optamos por isto. Fazer escolhas é um processo penoso, visto que cada esquina leva a uma rua diferente. Por isto mesmo o ser humano tem uma predisposição em deixar que os outros escolham por si, pois isto o isenta de muitas responsabilidades.
Hobbes, filósofo inglês, dizia que se o homem conquistasse sua tão almejada liberdade, não ficaria pedra sobre pedra, por isto era importante transferir o nosso poder de decisão para outra pessoa – neste caso o rei. Isto por que o homem não sabe o que fazer com a liberdade. Em vias de fatos, ninguém é livre e nenhum pensamento é livre de influência, visto que ele não se constrói do nada.
Então qual seria o grande mal em fornecermos uma educação religiosa para nossas crianças? Quando vejo opiniões adversas centradas na moral, vejo que a maioria está carregada de ódio e sentimentos negativos, porém, racionalmente falando, vislumbro que o resultado pode ser obtido. Todavia da forma como se encontra sabemos que o ensino não está bem. Nossas crianças cada vez mais são malvadas e desrespeitosas. Então qual seria o risco da mudança? Ferir uma ética fraca, um direito que não temos numa sociedade que não respeita os nossos pontos-de-vista?
Pois eu prefiro o risco da mudança a manter as coisas como estão. Certamente eu optaria por matricular os meus filhos numa escola religiosa ao invés de uma que ignore totalmente o assunto e deixam os alunos a sua própria mercê e concepção de mundo, criando uma verdadeira torre de babel.
Portanto eu, agnóstico, a favor de uma direção comum e social, sou solidário a uma disciplina de educação moral, e se a única opção for à religiosa, que seja, pois acredito que será melhor para o bem estar de uma sociedade moralmente consciente e respeitosa.
Obviamente este evento gerou uma série de opiniões, algumas solidárias, outras envenenadas contra esta decisão, que em momento algum solicitou a opinião pública, sendo tomada apenas para preservar um acordo entre o governo e a Santa Sé – que representa a Igreja Católica.
Nem preciso dizer que o acordo fere a constituição, que nos dá direito a um Estado Laico (art. 19, I) e a proibição de distinção de indivíduos, dada razões ideológicas, crendices ou culto (art. 5, caput e art.19, III). Isto por si só já é motivo de sobra para os mais ferrenhos debates acerca do tema, afinal de um lado está a Igreja – neste caso uma ação proveniente do catolicismo – e do outro lado estão outras crendices que se unem a descrentes brasileiros.
Como minha opinião foi solicitada, visto que a pessoa não conhecia uma opinião agnóstica a respeito deste assunto, faço valer este texto para que possamos, de forma mais sintética, analisar o seguinte duelo (independente de crença, visto que a Igreja Católica publicamente declara que o ensino religioso não é pró-catolicismo, e sim a favor de um ensino baseado numa ou mais crenças): Religião x Liberdade.
Não é demais lembrar que esta opinião não é única e reflete apenas um dos ramos do que tal decisão implica. Outros textos são muito válidos e podem complementar a leitura, principalmente aqueles que analisam o corpo jurídico, os reais interesses da Igreja e toda a política em torno deste projeto de decreto legislativo.
Tentarei responder de forma satisfatória aquilo que foi questionado: agnóstico, você é contra ou você é a favor do ensino religioso? Esta questão engloba uma série de fatores e está carregada de sentimentos históricos, principalmente quando retomamos uma época onde a Igreja constituía o topo da influência política no mundo. Ainda assim precisamos de cuidado para sermos coerentes em nossa resposta e neutralizarmos os nossos pulsantes nervos que estão para estourar. É preciso conter o grito na garganta.
Depois de refletir por um período a minha resposta é: sim, eu sou a favor do retorno do ensino religioso. Antes que pensem que eu tenho uma tendência religiosa em minha veia agnóstica, irei explicar o porquê de minha decisão.
Meu argumento está intrinsecamente ligado com a questão moral do homem. De certa maneira não podemos negar que as massas convivem num período que podemos chamar de crise da moral, onde a alienação perante as coisas e o condicionamento perante as mídias, assim como o chamado dos objetos, que possuem identidade própria num universo hiper-real, nos passam uma enganosa impressão que somos ilimitados. Este argumento surge com outro que diz que podemos fazer o que bem entender.
Há um conceito antigo que desenvolvi chamado humandróide, que nada mais é do que este homem interligado a culturas cibernéticas e multimídias, onde milhões de informações são processadas de modo subumano, impossíveis de serem analisadas e digeridas, o que faz com que nos tornemos seres automáticos e pré-programados como andróides, dependentes, inclusive, de bens tecnológicos – os chamados gadgets.
Portanto, temos uma crise de moral, onde fazemos sem saber por que fazemos, apenas seguimos o sistema – que é autossustentável e perfeito em si mesmo. Aqui, tudo é permitido. A sociedade do “Admirável Mundo Novo” de Huxley já nem parece ser tão absurda assim. As gangues do “Laranja Mecânica” de Burgess já nem são tão fantasiosas. Cada dia parece que nos aproximamos mais desta sociedade robótica antes vista somente nos livros de ficção científica.
Dostoévski, em seu “Os Irmãos Karamázov”, já lançava a seguinte reflexão: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Ou seja, quanto mais nos distanciamos de princípios morais (neste caso podemos colocar Deus como uma entidade que representa um princípio de moral), mais estamos propícios a acreditar que podemos fazer o que bem entendemos de forma egoísta e egocêntrica.
É inegável que qualquer religião possui um código moral que visa direcionar os seus membros numa direção que propicia harmonia e bem-estar, mesmo que isto represente controle sobre o nosso modo de pensar e, consequentemente, de agir. E isto, em parte, resolve o problema da crise da moral e projeta, ainda que de modo sinuoso, uma perspectiva de vida social melhor que a atual.
Alguns deverão pensar que se atualmente vivemos num sistema condicionador, por que deveríamos trocar por outro sistema condicionador. Primeiro que não estamos tratando de uma mudança de sistema político e nem pretendemos colocar a igreja novamente no poder. O assunto está ligado exclusivamente à formação de crianças. Não necessariamente estas crianças serão devotas religiosas, mas certamente aprenderão valores básicos de convivência social (como respeito, fraternidade, amizade e perdão) através de um código moral baseado numa hipótese de mundo superior.
Nosso sistema de ensino já provou ser ineficiente para educar crianças, principalmente por que elas mesmas se encontram num período de influência modista. Já é consenso científico que a educação estrutural não vem de casa, e sim do ciclo de amigos, principalmente nesta fase elementar do aprendizado. Então é preciso que as escolas retomem uma disciplina moral, por mais que utilizem da autoridade de uma figura superiora que não pode ser provada (nem a existência e nem a inexistência), visto que ela parece ser mais temida do que homens armados.
Depois deste período fundamental, as crianças passam a formar raciocínios mais complexos e podem chegar à conclusão que Deus existe ou não existe, porém alguns valores já estarão lapidados e com certeza isto lhes ajudarão a serem pessoas melhores (independente de crença). Claro que, dê certa maneira, isto fere o direito de liberdade das pessoas, mas me digam, caros amigos, o que uma criança sabe de liberdade?
Será que é justo permitir que elas façam escolhas tão complexas em tão pouca idade? Se os pais souberem o que querem para seus filhos, basta que matriculem eles em escolas que defendam os seus interesses (uma vez que o projeto votado é facultativo), na religião que melhor lhes atenda – se é que estes pais desejam uma religião para os seus filhos. O que não podem é pensar que seus filhos merecem ser livres, pois a liberdade está mais para desgraça do que para um prêmio.
Pegue existencialistas, como Jean-Paul Sartre, e veja o que eles pensam sobre a liberdade. Só para resumir, assim como dizia o pensador espanhol Ortega-y-Gasset, infelizmente todos estamos condenados a fazer escolhas assim que nascemos. Mesmo que não fazemos nada optamos por isto. Fazer escolhas é um processo penoso, visto que cada esquina leva a uma rua diferente. Por isto mesmo o ser humano tem uma predisposição em deixar que os outros escolham por si, pois isto o isenta de muitas responsabilidades.
Hobbes, filósofo inglês, dizia que se o homem conquistasse sua tão almejada liberdade, não ficaria pedra sobre pedra, por isto era importante transferir o nosso poder de decisão para outra pessoa – neste caso o rei. Isto por que o homem não sabe o que fazer com a liberdade. Em vias de fatos, ninguém é livre e nenhum pensamento é livre de influência, visto que ele não se constrói do nada.
Então qual seria o grande mal em fornecermos uma educação religiosa para nossas crianças? Quando vejo opiniões adversas centradas na moral, vejo que a maioria está carregada de ódio e sentimentos negativos, porém, racionalmente falando, vislumbro que o resultado pode ser obtido. Todavia da forma como se encontra sabemos que o ensino não está bem. Nossas crianças cada vez mais são malvadas e desrespeitosas. Então qual seria o risco da mudança? Ferir uma ética fraca, um direito que não temos numa sociedade que não respeita os nossos pontos-de-vista?
Pois eu prefiro o risco da mudança a manter as coisas como estão. Certamente eu optaria por matricular os meus filhos numa escola religiosa ao invés de uma que ignore totalmente o assunto e deixam os alunos a sua própria mercê e concepção de mundo, criando uma verdadeira torre de babel.
Portanto eu, agnóstico, a favor de uma direção comum e social, sou solidário a uma disciplina de educação moral, e se a única opção for à religiosa, que seja, pois acredito que será melhor para o bem estar de uma sociedade moralmente consciente e respeitosa.
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