Gênesis de Robert Crumb

Veronika Decide Morrer

Sobre Interpretações

Nada é Certo, Tudo é Possível

Rousseau, Tolstói e o Movimento Libertário

quinta-feira, 5 de novembro de 2009



"Remember, remember, the fifth of november"
V


"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'"
Jean-Jacques Rosseau


Hoje, em nosso blog, comemoramos o "3° Dia Mundial da Consciência Anarquista". Uma boa descrição sobre o que é o movimento e porque estabelecemos esta data você encontra no post especial da data no ano passado. Neste ano vamos refletir um pouco sobre algumas vertentes que inpiram o movimento libertário e as motivações por trás destas ideias.

Leon Tolstói, escritor russo anarquista, traz em seus textos uma ideia simples: se para fazer o mal os homens conseguem se unir de modo tão eficiente que muitas vezes os males nem são descobertos, por que não utilizar o mesmo modus operandis para promover o bem? Ou seja, se os homens se unem para cometer crimes perfeitos, esquemas complexos de corrupção, máfias e gangues, ataques violentos em massa, bastaria entender e utilizar esta mesma concepção para organizar ações de paz objetivando um bem social maior (o que traria, consequentemente, a vitória sobre a injustiça do existir).

O conceito filosófico da Tabula Rasa, elaborado por John Locke e base de todo o empirismo, diz que os seres são como folhas em branco, ou seja, sem conhecimento de nada. Toda a sua formação se dá com a experiência no mundo. Aqui não há inclinação para o bem ou para o mal, mas apenas o nada absoluto, que converte em algo durante a trajetória experimental durante a vida. Nesta linha temos a possibilidade de uma inspiração coletiva benéfica, uma vez que corrigindo a ética e o meio que leva o homem a cometer atos maléficos ele passaria a ser bom. Se cientificamente há descobertas que invalidam a Tabula Rasa, a influência que o conceito tem em políticas governamentais, educacionais e sociais são inquestionáveis.

Com isto em vista, voltamos a proposta de Tolstói. O escritor russo foi profundamente inspirado por Jean-Jacques Rousseau, empirista francês influenciado pela Tabula Rasa de Locke, que trazia consigo a ideia de uma liberdade natural dada no momento em que viemos ao mundo. Se o homem nasce como uma folha em branco, então naturalmente ele é livre. Seu condicionamento, sua escravidão e seus tormentos tem origem na sociedade mundana. Logo, se o homem torna-se um produto do seu meio, o meio é responsável por modelar o seu comportamento.

Com este pensamento Rosseau conclui que se todos os problemas tem origem no nosso meio social, provavelmente estes problemas não existiam numa época anterior a constituição da sociedade, nos tempos em que ainda éramos selvagens. Neste caso, aqui surge o conceito de bom selvagem. Os direitos civis não devem prevalecer sobre os direitos naturais, que nos são dados por fazermos parte do mundo. O homem precede a sociedade e não o contrário. Enquanto o homem existe sem a sociedade, a sociedade não existe sem o homem.

Porém existe uma instituição invisível, transparente aos olhos, porém não as sensações, que insiste em nos escravizar. Eu chamo este sistema de hiper-real e a entidade por trás de todo o esquema se chama máquina. Basicamente o sistema, que um dia foi controlado pelos homens, hoje tem vida própria e nos controla. Somos escravos de um sistema que virou o jogo e que criou dependências que faz com que sejamos intrinsecamente ligados a ele.

O movimento libertário prega o desligamento deste sistema. Pede a saída deste mundo condicionado. Como Tolstói disse, a ideia é bem simples: ao invés de construirmos uma máquina que gere padrões do mal, por que não construirmos uma que gere padrões do bem? Por que não objetivarmos uma utopia consciente, onde a proximidade com a natureza, com o bom selvagem, se faz necessária para a convivência harmônica entre as espécies?

Cientificamente, há explicações convergentes com a teoria evolucionista, onde uma vez que o ser humano é produto da evolução de milhares de anos, há características comportamentais do animal que éramos no principio até os dias de hoje. Entre estas características temos o instinto de sobrevivência individual sobrepondo ao coletivo, assim como as realizações prioritárias das satisfações e dos prazeres, o que denota uma propriedade egoísta. Há alguns anos, uma pesquisa foi publicada para demonstrar que o ser do sexo masculino era orientado ao sexo forçado, não consensual. Ou seja, sem os ensinamentos sociais que vem desde o berço e sem a recriminação psicológica proveniente deste padrão de moral, o homem, talvez, fosse um animal estuprador nato.

Se os cientistas estiverem corretos e o nosso desvio comportamental estiver mais relacionado a genética do que ao âmbito social, talvez seja necessário criar um ponto de meio termo para ambas as partes. Seria necessário que uma ação de bem coletivo que trouxesse consigo uma ganho individual, o que satisfaria a nossa parte animal e traria benefícios gerais. Talvez a solução fosse a reconstrução da moral, uma legislação de direitos civis que não entrasse em oposição aos direitos naturais, entre os quais a tão almejada liberdade. Enquanto os anarquistas acreditam na possibilidade de isolar uma sociedade libertária das demais - e assim conviverem em pequenas sociedades cuja bandeira da liberdade é o estandarte maior - eu acredito que uma mudança drástica virá somente quando este nosso atual sistema, regido pela máquina, suicidar-se em sua própria ganância.

Cristo, Fantoches e a Santa da Uniban

quarta-feira, 4 de novembro de 2009



Uma figura que seria lembrada posteriormente caminhava por entre multidões de agressores que bravamente urravam insultos motivados por um ódio coletivo que beirava a histeria. Por que estavam ali, não sabiam, por que se aglomeravam em torno daquele ser, não sabiam, por que xingavam, também não sabiam. Apenas acompanhavam, como num efeito dominó, uma cólera desenfreada sem nexo nem coerência. Eles apenas queriam fazer parte daquilo. Ponto.

Enquanto isto a vítima daquelas ofensas não entendia as motivações que lhe levavam direto ao seu Calvário. A incompreensão de um comportamento desvairado de massa fez com que ela fosse crucificada mediante ao seu próprio mundo.

Este episódio poderia fazer menção à Jesus Cristo ou mesmo às bruxas de Salém, porém se trata do martírio de um espírito que passeava por estas bandas e acabou violentada por uma série de demônios que se disfarçavam de bons moços. Estamos falando da nova sensação do YouTube, do novo objeto de consumo viral, se trata da estudante da Uniban ABC, que foi hostilizada por toda uma nação de estudantes da universidade somente por aparecer com uma vestimenta que expunha partes do seu corpo.

A maior parte das pessoas que comentaram este assunto com opiniões que condenam o comportamento agressivo dos estudantes (sim, existem opiniões que os apoiam) são focadas na hipocrisia de uma neossociedade moralista, o que de fato não somos - ou melhor, não queremos ser: o respeito a diferença é parte integrante da evolução espiritual do mundo, embora saibamos que a coisa não é bem assim (vide católicos x evangélicos, carecas x emos, corinthianos x são paulinos, piquet x briatori, muçulmanos x o mundo e outros conflitos).

A minha análise, entretanto, não é centrada na hipocrisia social, mas nos comportamentos massificados e na transferência de opinião. Li em algum lugar o que iniciou a transformação de uma universidade num centro de formação de berserks. Basicamente a garota disse que não era a primeira vez que ela havia ido para a universidade com aquela roupa, e nas outras vezes não teve nenhum problema, nem mesmo nas ruas. Mesmo naquele dia, a garota afirmou que foi de ônibus para o seu curso e não houve hostilização de ninguém no percurso. Ao chegar na universidade, entre uma roda de amigas, elas começaram a elogia-la, porém alguns meninos que estavam ao lado se exaltaram e começaram a passar um pouco dos limites. Em instantes, outros grupos passaram a ofender a garota, que de sensual passou a ser vista como meretriz, e logo toda a universidade participava da agressão verbal.

Se a garota não houvesse se trancado em sua sala de aula, uma tragédia maior poderia ocorrer. Para isto, bastaria que apenas uma pessoa desse um leve tapa na garota. Isto acenderia o estopim e outras pessoas imediatamente participariam de um espancamento coletivo e sem razão de ser. Não é a primeira e nem a ultima vez que isto acontece. Basta apenas que um líder de um grupo de dois tome a iniciativa para que os outros passem a imitá-lo.

O efeito dominó foi comprovado por diversos experimentos sociais. Se você estiver caminhando pela rua e ao dobrar a esquina você se chocar com um batalhão de pessoas correndo no sentido contrário, você não hesitará um segundo em acompanhá-las. Outra experiência se dá quando uma voz de autoridade expõe uma ordem: você a cumpre sem questionar. Uma experiência britânica no documentário "Animal Farm" mostrou uma pessoa que se vestia como policial ordenasse que as pessoas não pisassem num determinado quadrado na rua, e as pessoas, claro, não questionaram nem a autoridade e nem o motivo da ordem: simplesmente desviaram do quadrado.

Isto mostra que somos seres condicionados por um primeiro movimento que desencadeia numa série de comportamentos repetidos, ainda que não questionados. No efeito dominó, basta que um inicie uma ação que desencadeie em excitação que aumente a adrenalina. A probabilidade de atingir o todo aumenta com a adesão de alguns poucos adeptos. No caso da garota da Uniban, bastou que um ou dois demonstrassem um comportamento abusado, que todos os outros foram contagiados e seduzidos a fazerem parte daquilo. Este protótipo de marionete denota o perigo de trazer a liberdade para aqueles que não sabem o que fazer com ela. Hobbes tinha razão ao afirmar que caso o poder do homem não seja transferido para uma figura soberana, não ficará pedra sobre pedra no mundo.

No que concerna ao meu pessimismo em relação ao homem, uma possível solução para que as pessoas não corram risco de vida seria resguardar a sua privacidade somente para si. Não mencionem suas crenças ou suas preferências mediante ao público, pois a nossa parte animal mais maquiavélica pode sobrepor a razão - que muito nos faz falta em situações de autocontrole. Claro está que isto não é uma solução, mas uma precaução por vivermos numa selva de animais.

Há centenas de exemplos de condicionamento por transferência de opinião, principalmente se pegarmos o campo das religiões. Excluindo da crítica o autêntico religioso, que é aquele que estuda a doutrina acirradamente e que conhece bem aquilo que crê, existe milhares de pessoas que fazem parte do ciclo religioso apenas por modismo, por pressão social, por cultura de massa ou por exigência de sua família. Estas pessoas apenas querem fazer parte daquele grupo e absorvem as opiniões da crença sem analisá-las. A meu ver um bom religioso é um religioso crítico. Como consequência destes grupos de 'fé', temos na história alguns graves casos de suicídios coletivos, motivados por um líder religioso como caminho para a salvação eterna.

Ainda há o condicionamento de consumo, onde objetos movem multidões histéricas para que sejam consumidos, vide lançamento de eletrônicos. Também temos o condicionamento da opinião pública, conduzidos pelas mídias de acesso geral. Por fim, eu não poderia deixar de citar o nazismo, o maior episódio de histeria coletiva. Uma loucura praticamente sem explicação quando relacionamos a barbárie empregada neste movimento maior.

Se alguém afirmar que o episódio do nazismo em muito difere ao da garota da Uniban, recomendo que vocês procurem se informar a respeito da experiência do professor Ron Jones, cujo relato inspirou o filme alemão Die Welle, que condicionou toda uma classe de modo a demonstrar como mesmo um movimento tão radical como o nazista poderia voltar mesmo nos dias de hoje.

O ser humano é fraco e pede para que alguém tome decisões por si. Se livrar de grande parte do tormento das escolhas é um desejo implícito no íntimo de cada um. Porém executar ordens sem analisá-las e questioná-las geralmente tem impactos negativos em ambas as partes: após a adrenalina baixar, o que fica é o arrependimento e a vergonha - isto quando a culpa não é transferida para o líder como válvula de escape de uma boa consciência quanto ao seu papel no mundo. Por isto seja crítico, pense e não deixe que o seu pensamento seja conduzido. A luta desta caverna é contra o pensamento fabricado, então faça parte de uma fábrica de ideias.