Gênesis de Robert Crumb

Game Over

Sobre Interpretações

Nada é Certo, Tudo é Possível

Bullet With Butterfly Wings

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Demasiadamente estranha pode ser a linha da existência. Afinal, para quê existimos? Para formular alguma resposta viável precisaríamos considerar outros mistérios precedentes a este. Temos, porém, elementos que nos fazem acreditar que a existência não possue significação em si mesma. Neste caso, existir é um mero acidente e viver é o grande desafio.

Durante a vida, somos explorados pelo simples fato de existir. De fato, o condicionamento das pessoas em aceitar tal condição é outro mistério tão grande quanto o divino, visto que o mundo é como um vampiro que suga a nossa energia, nos cansa e nos enfraquece. Se há algo de oculto no mundo é esta força que age por trás do sistema que te impulsiona para uma batalha dolorida e desgastante, onde nada recebemos por tanta dor que sentimos quando pensamos em nós mesmos.

Quando surgem sonhos, somos iludidos a acreditar que tudo é possível sem antes analisarmos os perigos por trás da ousadia de querer seguir adiante. Nossos desejos, na verdade, são apenas artefatos para alimentar a sede do Deus-Dinheiro: quanto mais nos frustamos, mais desejamos. Quanto mais desejamos, mais gastamos. Quanto mais gastamos, mais corroemos nossa alma.

Apesar de sabermos o quão é difícil manter uma posição contrária ao sistema opressor, continuamos a seguir por esta linha. Afinal, mesmo que só traga sofrimento é o nosso único resquício de autenticidade - a última parcela humana dentro de nós. Por isto não podemos nos cansar, somos soldados solitários e esperamos que a humanidade abra os olhos para aquilo que acontece ao redor. Para isto a minha contenda é escrever na esperança que leiam. Ao ler, espero que aqueles que não enxergam passem a enxergar.

Porém sei o quão difícil é esta guerra, pois apesar de gritarmos, protestarmos e escrevermos, apesar de tanta paixão que desprendemos nesta causa, somos como ratos trancados numa gaiola. As pessoas pararam de acreditar e aceitaram que estão condenadas. Afinal aceitar o que não se pode mudar pode ser um alívio enquanto houver vida. Porém esta vida é vida-morta ao vivermos como mortos-vivos. Enquanto não me ouvirem, continuaremos engaiolados.

Quando deixaram de acreditar arrancaram minhas armas e aqui me encontro nú, escrevendo palavras que nem sequer sei se um dia serão lidas por alguém. Sou ou não sou mesmo como um animal, ao falar num idioma que ninguém consegue compreender? Ao menos finjam e me aceitem como sou! Claro que minha voz agride os ouvidos de quem quer escutar, porém peço para me aceitarem por apenas mais alguns instantes, pois em breve não estarei mais com vocês, afinal não suporto dividir o meu palanque com tão impuros espíritos.

Com esta atitude pobre o que você pretende para a sua vida e a dos seus filhos? Você realmente está satisfeito com o que acontece? Pois eu quero mudar desesperadamente este nosso percurso! Não dá mais para continuar assim... O que você ganha por se sentir exatamente assim? Sei que as coisas não vão bem, então porque não mudar?

Bem que gostaria de ser o escolhido. Com toda a minha visão, certamente seria eleito o novo salvador, afinal Jesus com suas ideias foi tão aplaudido antes, imagina eu? Imagine a quantidade de seguidores que iria adquirir se minhas palavras pudessem expandir para o mundo? Afinal o próprio filho de Deus não foi o único? Ao menos para você eu sei que ele foi. Então confie em mim e deixe me neste frio e gelado velho trabalho.

Smashing Pumpkins, Bullet With Butterfly Wings

The world is a vampire, sent to drain
O mundo é um vampiro, enviado pra sugar
Secret destroyers, hold you up to the flames
Destruídores furtivos, te fazem enfrentar as chamas
And what do I get for my pain?
E o quê que ganho, pela minha dor?
Betrayed desires, and a piece of the game
Desejos traídos, e as moedas do negócio

Even though I know - I suppose Ill show
Apesar de saber – acredito que continuarei
All my cool and cold-like old job
Neste meu frio e gelado velho trabalho

Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado
Then someone will say what is lost can never be saved
E alguem dirá que o que está perdido não se pode recuperar
Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado

Now Im naked, nothing but an animal
Agora estou nu, nada mais que um animal
But can you fake it, for just one more show?
Mas dá pra você fingir, pra apenas mais um show?
And what do you want, I want to change
E o que você prentende? Eu quero mudar
And what have you got when you feel the same
E o que você recebe por se sentir o mesmo?

Tell me Im the only one
Diga-me que sou o único
Tell me theres no other one
Diga-me que não há outro alguem
Jesus was an only son
Jesus era filho único
Tell me Im the chosen one
Diga-me que eu sou o escolhido
Jesus was an only son... for you
Jesus era filho único...pra você

Sobre a Família No Retrato em Preto-e-Branco

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quem acompanha os meus textos deve saber que sempre menciono um conceito que é coração de como a nossa sociedade caminha á rápidos passos em direção à uma distopia digna dos livros de ficção científica do século XX - a saber George Orwell, Anthony Burgess, Aldous Huxley, Philip K. Dick, Douglas Adams e Isaac Asimov.

Este conceito eu chamei de máquina por uma razão bem simples: é o mecanismo que faz as coisas girarem em pró de sua própria vontade e que controla o nosso estado oriundo ao condicionamento global. Em palavras mais genéricas, a máquina é a responsável por gerar padrões de comportamento, moral, ética e pensamento.

Nestes modelos gerados pela máquina encontramos aquilo que eu chamo de hiper-real (que nada mais é do que algo que está para além do real, de modo que vivemos em cima de cascas sem jamais conhecermos o que está por baixo - devido a perca de referêncial).

Num exemplo típico de hiper-realidade temos a família tradicional como parte das regras do jogo a qual participamos enquanto seres integrados a vida inautêntica. Pois é da família que falaremos neste artigo.

A família, em grande parte, é o primeiro sistema opressor a qual entramos em contato mesmo antes de nascer. Este sistema é fundamental para implantar em nossa raiz alguns anestésicos que nos impossibilitam de ingressar numa vida onde a não-aceitação seja uma virtude valorizada.

O terreno perigoso inicia-se assim que é anunciada a gestação da criança em relação ao nome que será dado. Aqui há uma primeira batalha: a familia se esgota para saber qual nome será dado ao bebê que ainda nem chegou ao seu presídio. Um misticismo enigmático ilusório são os ingredientes para que o nome mais adequado seja selecionado.

Assim, mesmo antes de nascer, somos dotados de um signo que não é nosso. Logo se estabelece um contrato virtual de propriedade - que se extende por toda a existência - firmado com mais vigor na escolha do nome, que nada mais é do que a primeira marca que a nossa família estampa em nossa alma. Assim que nascemos temos um contrato não mais virtual, porém físico - chamado de certidão de nascimento.

Neste documento temos o nome de nossos pais como proprietários e o nosso nome - que não escolhemos - como objeto adquirido. Metaforicamente podemos dizer que nosso nome é uma espécie de marca queimada na pele e que a certidão é o certificado de aquisição. Aliados, os dois signos irão legitimar o que venho dizendo. Ou seja, antes de nascer nossa liberdade já foi aniquilada.

A relação de egoísmo e egocentrismo na família pode ser evidenciada nos pronomes possessivos a qual nos referimos ao chamar os nossos entes: 'meu' pai, 'minha' mãe, 'meu' irmão, 'minha' tia, 'meu' filho, 'minha' prima, 'meu' avô. Somos donos virtuais de todos eles. Cada um protagonista de sua história, o resto são meros coadjuvantes.

Por esta relação que é criada desde cedo, cada membro da família se considera o mais importante e com a maior quantidade de razão e bom-senso, geralmente dotado com a única verdade a respeito dos demais. Como numa empresa, ele se considera uma espécie de chefe onde gerenciar os demais se torna algo mais importante do que gerenciar-se a si mesmo.

Por isto estamos tão preocupados com os problemas dos outros e nos fazemos de vítimas (afinal não temos tempo para pensar em nós mesmos de tão ocupados que estamos com os demais - ainda que cada um se julgue apto a cuidar de si mesmo).

Ainda na infância, temos uma representa ínfima do que nos espera fora dali: a figura autoritária do patrocinador financeiro (numa família tradicional, quase sempre é o pai), a educação para nos adequarmos ao padrão da família - que é um retrato em preto-e-branco do que o universo espera de uma boa família, o castigo que nos aguarda caso não estejamos de acordo com o planejado, a pressão por seguirmos aquilo que foi estipulado para nós como meta, a decepção caso não consigamos atingir com satisfação todos os objetivos.

Aos poucos nossa inocência (liberdade?) será assassinada e perderemos o referencial do quê poderíamos ter sido, pois o que resta naquele corpo são vestígios da família e do mundo exterior (que nada mais é do que uma família gigantesca num contexto macro - por isto chamada 'sociedade').

Ao crescermos seremos donos de nossa própria família. Após aceitar as barbáries cometidas conosco, já não nos importamos de apenas obedecer. Logo isto não dói mais. Então quando nos tornamos pais, acreditamos alienadamente que a nossa educação foi a melhor e que devemos dar a mesma dose para os nossos filhos. É a nossa sádica e inconsciente vingança. É a nossa vez de aproveitarmos para descontar o que fizeram conosco.

É a nossa chance de ajudarmos a máquina a fabricar cidadões iguais a nós, seres iguais a todo mundo.

Sobre Escolhas e Riscos

sábado, 16 de maio de 2009


A existência é misteriosamente excitante e magnífica. Desde o princípio estamos certo de algo: sobre o início (o nascimento) e sobre o fim (a morte). Nestes dois estágios, não há distinção de credo, cor, naturalidade, orientação política e/ou sexual: todos nascemos pelados, todos morremos sozinhos.

No mais, o início e o fim não estão relacionados diretamente. O elo que conecta um estado ao outro é o que chamamos de vida. É na vida que ocorrem as experiências responsáveis por formar o nosso núcleo central que possibilitam a convivência em sociedade. Aqui sim temos influência direta no meio, principalmente no que se refere à cultura e à política.

Entretanto há exceções a regra. Nossa vida é composta por um sem número de ramificações e caminhos que devemos seguir. De fato, existir é escolher. Sartre e Ortega y Gasset já discorreram o quão penosos é para o homem ter que enfrentar um oceano de decisões. Portanto algumas ele simplesmente ignoram e permitem que o meio escolha por ele. É o chamado 'efeito dominó'.

No 'efeito dominó', apenas aceitamos a decisão da maioria. A decisão da maioria provém de um líder, que decide o que é melhor para si e a maioria simplesmente aceita. Seja por indiferença, seja por falta de vontade, ou seja, por dor, tomar decisões é algo estressante e consome o ser. Porém não fazer nada também é uma escolha.

Entre tantas escolhas que temos que optar para um mesmo problema encontramos, ao menos, duas: uma que reside no caminho do bem e outra que reside no caminho do mal. As duas muitas vezes se confundem, pois um caminho pode representar o bem para uma pessoal e o mal para diversas outras (como quando alguém se favorece deslealmente em relação aos demais) ou vice-versa (como no caso do sacrifício de um para um benefício maior).

Todavia há escolhas que não nos confundem. Sabemos exatamente o que elas representam a para onde pode nos levar. Entra, em cena, o bom senso para nos guiar. Porém há pessoas que não utilizam do bom senso. Optam por agir pela simples emoção em pró de um risco assumido. Às vezes se dão bem, outras vezes nem tanto. Se o risco vale a pena irá depender da experiência de cada um e o quanto está em jogo. Como num carteado, você pode ficar rico ou pobre numa jogada que envolve altos valores. Simplesmente será obrigado a confiar na própria sorte: aqui não se trata de predestinação, somente de jogar a moeda e ver qual lado sorri para você.

Sendo racionais, é possível estabelecermos metas em nossas escolhas. Por exemplo: Você tem um caminho A e um caminho B que te levam para o caminho Z. Enquanto o A te leva diretamente para lá, o caminho B tem alguns obstáculos e pode lhe levar, arbitrariamente, a dois fatos: o fato C (que você deseja muito) e o fato D (que você quer evitar a qualquer custo). Se a tua sorte te arremessar para o fato C, você chegará ao caminho Z e será recompensado pelo seu objeto de desejo. Se o fato D se consumar, você jamais chegará ao Z e terá que trilhar o caminho Y, que será extremamente penoso e dolorido.


Calcular o risco é algo extremamente difícil, mas uma simples questão pode ajudar: o fato C é mais importante do o caminho Z? Outra pergunta: se ocorrer o fato D, você estaria disposto a percorrer o caminho Y? Se a resposta para as duas questões for 'não' é simples: fique com o caminho A.

Há pessoas que irão falar que viver é arriscar, mas isto não é essencialmente verdade. Viver é cumprir metas e surpreender-se com o imprevisível. Arriscar-se naquilo que você pode prever, em muitos casos, pode ser tolice. Em outros casos realmente vale a pena, pois o risco com a perca é menor do que o benefício com os ganhos. Ou seja, a vida não se restringe à avaliar riscos. Situações sim estão sujeitas à arriscar-se. Tudo, entretanto, é uma questão de escolhas.

Trilhar o caminho do bem pode parecer pacato, numa realidade onde ousadia é a palavra da moda, porém a vida simples sempre será a mais benéfica: a história esta aí para provar isto. Ser sofisticado, muitas vezes, representa um ciclo constante de frustrações e decepções. Outra: arriscar vicia. Quem arrisca uma vez só para quando perde tudo. Ousar também tem o seu preço. Às vezes você ganha, as vezes você perde, porém somente você, com sua bagagem, poderá saber se os seus riscos são justificáveis por um bem maior.

É Claro que Você é Trouxa!

sexta-feira, 15 de maio de 2009


No ano passado eu publiquei um post manifestando o trauma irreversível originado numa central de relacionamento com a Telefônica (através de call center). Depois deste dia, passei a evitar qualquer contato através do telefone (não atendo o meu telefone de casa, também deixo o número da empresa indisponível - só falo através do telefone celular, e ainda assim utilizo software para permitir somente ligações de quem está em minha agenda de contatos).

Enfim, prometi que não iria mais me desgastar com estas empresas caça-níqueis, porém recentemente eu não pude evitar... De certa maneira, este post é uma espécie de "teletrauma 2: o retorno", porém a mídia enlouquecedora não reside mais somente no call center: fui atingido por e-mail, pessoalmente e por chat. Desta vez, entretanto, a causadora da moléstia não é mais a espanhola Telefônica, porém também está no ramo de telefonia: a provedora de serviços de telefonia móvel Claro.

Este texto pode parecer ilógico quanto a proposta do blog, porém eu preciso desabafar, desesperadamente eu quero desabafar. Porém estão todos ocupados, restam apenas as malditas palavras (desculpem-me pelo tom - é apenas o 'eu' reprimido a beira de um colapso)! Quero apenas contar a história e deixar evidente o meu manifesto contra estas empresas que estão apenas preocupadas em arrancar o nosso dinheiro, sem prestar um atendimento de qualidade.

O meu entrave com a Claro começa no dia 07/03/2009. Com medo dos call centers, me dirigi diretamente à uma loja num shopping do Grande ABC com dois objetivos:
  1. Aproveitar o benefício da tão falada portabilidade e trazer o celular de minha namorada (da operadora italiana Tim) para a base Claro. 
  2. Migrar o meu plano para um outro onde eu e ela poderíamos falar gratuitamente por muitos minutos. Simples, não? Precisei apenas de poucas palavras para demonstrar-lhes o meu pedido, ou seja, não é nada muito complicado, porém vejam só a bola de neve que me enfiei.
Após esperar cerca de 20 minutos numa fila de uma pessoa (sim, apenas uma pessoa estava em minha frente e ainda assim tive que esperar todo este tempo), fui atendido por um garoto cujo nome não irei mencionar. Disse exatamente o que pretendia fazer e ele já me trouxe dois novos aparelhos que sairiam, em tese, gratuitamente na migração do meu plano.

Depois de explicar algumas funcionalidades do aparelho, o atendente foi alterar o plano no sistema e observou que eu não tinha pontuação suficiente para ganhar os aparelhos. Este foi o primeiro desencontro de informações, mas tudo bem, eu não queria os aparelhos, somente a alteração do plano.

Então ele deu continuidade ao atendimento. Enquanto aguardava a efetivação do sistema, aguardei em torno de 40 minutos. Passado este tempo, o atendente disse que a Claro se ia demorar mais um pouco, caso eu quisesse voltar mais tarde eu já estaria com o meu novo plano. Enfim, fui comer alguma coisa no shopping center e voltei após quase 2 horas. O atendente nem estava mais lá e tive que aguardar em torno de mais 10 minutos para ele aparecer. Perguntei se estava tudo certo e ele disse que não tinha conseguido efetuar o plano pelo sistema e que iria tentar por telefone, num canal direto entre as lojas Claros e a central, e que aí daria tudo certo.

Ele ligou na minha frente, passou diversos dados da loja, além dos meus dados, e depois de aguardar muito tempo a ligação caiu. O próprio atendente estava revoltado. Ligou novamente, teve que passar os dados novamente, porém adivinhe o que aconteceu? A linha caiu novamente. Ainda houve uma terceira tentativa, e após mais algum tempo a ligação caiu novamente! Depois de aproximadamente 1 hora ou mais, disse que tentaria fazer a migração num outro dia, o atendente se desculpou e explicou que o sistema da Claro estava fora do ar e por telefone as ligações estavam caindo, não sabia o porquê.

Fiquei bravo pelo tempo perdido, mas jamais poderia me abater novamente, já me basta os eventos ocorridos pelo episódio conhecido como "Disque 0800-Teletrauma"!

Voltei, então, no dia 09/03/2009 numa outra loja da Claro, num shopping center na cidade de São Paulo. Tive que pegar uma senha e aguardar por cerca de 1 hora e 10 minutos para ser atendido! Revoltante! Ali comecei a ficar trêmulo novamente. Nada conseguia diminuir a minha raiva, então comecei a bater o pé ansiosamente no chão. Quando finalmente chegou a minha vez, solicitei novamente os dois serviços e antes que o atendente consultasse qualquer sistema já me informou de pronto que não seria possível realizar a portabilidade. Para isto, a minha namorada deveria estar junto e estar com seus documentos originais em mãos, inclusive o comprovante de residência. Indaguei porque já não haviam dito isto na primeira vez e o atendente ficou em silêncio e depois me perguntou se tinha mais alguma coisa em que ele pudesse me ajudar. Então reclamei um pouco do tempo perdido e ele disse que, para adiantar, poderia efetivar a migração do plano. Depois era só portar o número da minha namorada e pedir para incluir no plano. Resolvi aceitar.

Então adquiri um pacote cujo único benefício seria falar entre as duas linhas, porém ainda precisava adicionar a outra. O atendente me disse que portar o número era rápido. Bastavam apenas três dias úteis. Confiei nele e fui embora.

Passado uma semana, fui numa loja Claro com minha namorada. Cheguei na loja as 19:15h. Após as 20:00h eles fecharam a porta e somente as 20:20h eles me atenderam. Disse que queria portar o número Tim para a Claro e adicionar no meu novo pacote. A atendente me informou, em primeiro lugar, que o sistema estava fora para efetivar a portabilidade. Pode isto, caros leitores? Que absurdo! Então me questionou se a linha da Tim estava em meu nome e eu disse que não! Aí a atendente Claro disse que a primeira coisa era ir à Tim transferir a linha para o meu nome, senão eles não poderiam fazer nada.

Então questionei que era a terceira vez que estava indo à loja e ninguém havia mencionado isto. Mas então ela enfatizou que era um procedimento obrigatório. Depois me questionou se a linha era PRÉ ou PÓS-Pago e eu informei que gostaria de portar de PRÉ para PÓS para aproveitar o meu plano (se ela tivesse ouvido minha solicitação no início saberia disto, mas estou certo que ela só pensava em ir embora logo). Então ela me disse que a portabilidade de celulares PRÉ-Pagos estavam suspensas! Sim, caros amigos, em 10 minutos ela destruiu tudo o que havia planejado e colocado por água abaixo todo o tempo que eu perdi. Disse, então, que a Claro havia errado em alterar o meu plano sabendo da minha necessidade, então eu gostaria de voltar com o meu plano anterior e deixar tudo isto para lá.

Então ela disse aquilo que eu temia: aí você terá que ligar no Call Center...

Caraca, se eu estava numa loja gigante da Claro, porque deveria ligar no Call Center? A resposta é simples: má vontade.

Na segunda-feira escrevi um e-mail reclamando sobre o ocorrido, afinal parece que a Claro oferece treinamentos diferentes em seus diversos pólos de atendimento, afinal em cada lugar que eu vou parece que estou em empresas diferentes. Veja o e-mail abaixo:
"Recentemente, com a portabilidade, decidi trocar meu plano X por um Y. A ideia era incluir um número TIM, pré-pago, não está em meu nome, para este plano. Fui até uma loja, no shopping Plaza Sul em São Paulo, e o atendente mencionou que era necessário que a proprietária do celular estivesse na loja com seus documentos para fazer a portabilidade, mas que ele iria adiantar a migração do plano e depois era só trazer ela numa loja para realizar a portabilidade - disse que a linha seria transferida para o meu nome.

Uns 10 dias depois fui até outra loja da Claro com a pessoa que precisaria portar o número e foi dito que não seria possível porque o aparelho precisaria estar em meu nome. Disse que teria que ir até a operadora dela e transferir o número para mim para somente depois realizar este procedimento. Depois que a atendente soube que o número que eu queria portar e adicionar no meu plano era pré-pago, me disse que a Claro suspendeu a portabilidade de pré! Então como fico? “Neste caso, quero voltar com o meu plano anterior e estornar a diferença.”

Veja a resposta da Claro:
"Prezado Sr. Evandro,

Em atenção ao seu e-mail, informamos que conforme contato telefônico realizado na data do dia 27/03/2009 às 09h44, pelo número xx xxxxxxxx, confirmamos a conclusão do atendimento.

Esclarecemos que a informação passada na loja, não procede. Atualmente a Portabilidade está ocorrendo normalmente, sem nenhuma restrição.

Salientamos que a linha que será portada, deverá estar em seu nome. Depois que sua linha estiver com o seu CPF na outra operadora, poderemos agendar sua portabilidade.

Desta forma, orientamos que nos retorne este e-mail, com os seguintes dados:
- Número da linha que será portada
- Nome Completo
- CPF
- RG
- 2 Telefones para contato.

Tão logo estes dados sejam recebidos, sua solicitação será encaminhada para analise do departamento correspondente. Contamos com sua compreensão e aguardamos o envio dos dados para melhor atende-lo.

Compreendemos o motivo de sua insatisfação e temos ciência de que ocorreram alguns erros em seu atendimento, e por esse motivo encaminharemos seu e-mail para conhecimento do departamento correspondente a fim de realizarmos melhorias, evitando assim o atendimento ora recebido.

Salientamos que a sua manifestação é muito importante em um momento em que buscamos sempre a qualidade e o diferencial da Claro.

Sua mensagem foi registrada sob o número de protocolo: 2009XXXXXXXX.

Agradecemos seu contato e ficamos à disposição para esclarecermos eventuais dúvidas."
Então fui até a loja TIM, com minha namorada, e transferi a linha para o meu nome. Logo na sequência retornei o e-mail, conforme instruído pela Claro. Logo na sequência recebi a seguinte mensagem confirmando o andamento da solicitação de portabilidade:
"Prezado Sr. Evandro,

Em atenção ao seu e-mail, informamos que foi registrado na data de hoje, dia 04/04/2009, o protocolo número 2009XXXXXXXX, o qual direciona sua solicitação de portabilidade da linha XX XXXXXXXX.

Número do bilhete - XXXXXX
Data da efetivação - dia 08/04/2009 às 08h.

Esclarecemos que será necessário se dirigir a uma de nossas Lojas Claro caso queira adquirir Chip + Aparelho para a Portabilidade , ou apenas o Chip.

Necessitando de outros esclarecimentos, permanecemos à sua disposição, por este canal, ou poderá obter atendimento imediato pela nossa central de atendimento, ligando para o número 1052 de qualquer telefone ou se preferir no site www.claro.com.br > na opção Fale Conosco > Atendimento Online."
Então aguardei um tempo e nada. Entrava no site da Claro e dizia que a portabilidade estava em andamento. Eis que recebo o seguinte e-mail da Claro:

"Prezado (sic! Prezado?) Sr. Evandro,

Em atenção ao seu e-mail, primeiramente gostaríamos pedimos desculpas por qualquer transtorno ocasionado e informamos que esta não é a postura que determinamos como ideal para nosso representantes.

Informamos que para todos os meios de comunicação direta disponibilizados pela Claro existe uma equipe treinada e capacitada para responder ou realizar contato com nossos usuários, jamais esquecendo o compromisso que temos com cada Cliente.

Esclarecemos que a solicitação de portabilidade poderá ser realizada através do seguintes canais:
#www.claro.com.br;
#Atendimento 1052;
#Televendas;
#Consultor Claro Empresas (para Pessoa Jurídica);
#Lojas Próprias;
#Agentes Autorizados.

Salientamos que através deste atendimento não é possível realizar a portabilidade. Reiteramos nosso pedido de desculpas pela divergência de informações e solicitamos dirigir-se até uma de nossas lojas para continuidade do atendimento."
Então resolvi trancar todos os meus medos numa gaveta e ligar para o temido Call Center. Depois de passar pela assombrosa URA com suas milhares de opções (e após relembrar algumas feridas que estavam cicatrizadas), consegui falar com uma atendente que me disse que teria que realizar a portabilidade na própria loja, pois eles precisavam pré-ativar o chip (seja lá o que isto for).

Primeiro que esta informação contradiz o e-mail anterior, que dizia que "a solicitação de portabilidade poderá ser realizada através do seguintes canais: (...) #Atendimento 1052;". Mentira! Quer dizer, alguém estava mentindo! Ou dá ou não dá para realizar a portabilidade por telefone! O que faço com duas informações divergentes proveniente da mesma empresa?

Resolvi ligar para o setor de reclamações para registrar toda a minha indignação. Expliquei exatamente tudo como está neste post. Adivinhe o que a atendente me disse? Vou lhe transferir para o setor de portabilidade. Então disse que não queria falar com mais ninguém, pois já havia falado com este setor ainda há pouco. Disse que gostaria, apenas, que alguma providência fosse tomada. Ainda assim ela me transferiu para o maldito setor e eu desisti.

Depois de quase um mês voltei a uma loja Claro com o intuito de enfrentar, novamente, a árdua tarefa de portar um número. Cheguei na loja e peguei minha senha de atendimento: o número era 97. O painel indicava que estava na 68. Previsão de espera: entre 2 e 3 horas. Fui embora.

Já é o terceiro mês que pago o plano que eu troquei sem aproveitar o benefício maior.

Porém o que me motivou a escrever este post foi outra coisa - a famosa gota d'água: no final do mês passado chegou uma conta com o dobro do valor que deveria ser cobrado! Acreditam? Então mandei mais um e-mail para a Claro, que me retornou com um número de protocolo dizendo que o meu caso seria analisado. Depois de quase 15 dias, comecei a receber avisos de cortes de serviço por falta de pagamento.

É o fim, caros amigos... Fui consultar o protocolo no site da Claro e estava lá, em letras garrafais: CONCLUÍDO. Como concluído? Não obtive nenhum retorno da empresa, como eles podem afirmar que o meu caso estava concluído? Além disto, estava sendo cobrado! Resolvi tentar um novo contato, através de chat. Tive que esperar uns 40 minutos na fila, porém tive um diagnóstico: erro de bilhetagem. Enfim, me enviaram um boleto com o valor correto e eu paguei.

Como pode, pessoal? E se eu não tivesse falado nada e pagasse, como ficaria? Cuidado com suas contas, pois elas estão sujeitas ao erro! Além disto, ainda não consegui fazer a portabilidade do meu número TIM para a Claro. Tentarei novamente neste final de semana. Deixa eu vestir minha armadura e me preparar para a próxima batalha!

A Morte de Ivan Ilitch

sábado, 9 de maio de 2009

"O homem pode viver 100 anos na cidade sem perceber que já está morto há muito tempo" - Léon Tolstói

Este conto - talvez o mais conhecido do escritor russo Leon Tolstói - trata de um tema cada vez mais recorrente numa era onde o consumo é o verbo que mais cresce em nosso vocabulário: o apego às coisas mundanas e materiais, que no fim oferece um caminho que leva, fatalmente, à não-vida e à subordinação do sujeito aos objetos de insignificação.

Tolstói, como sabemos, preocupava-se constantemente com o tema morte e com a necessidade de encontrar uma luz para viver. Neste contexto, o que é a vida? O escritor russo irá entender que a vida reside no modo simples de existir e no desapego das coisas mundanas. Também há uma crítica a sociedade do faz-de-conta, aquela que se importa. De certa maneira, A Morte de Ivan Ilitch é um retrato deste período existencialista de Tolstói.

Ele já começa o conto com o humor ácido característico em seus textos: a primeira parte se inicia no funeral de Ivan Ilitch, onde ninguém parece se preocupar com o morto ou chorar por sua memória. O que importa, entretanto, é quem haverá de assumir o cargo deixado por ele, ou quanto de pensão sua família conseguirá receber. Mesmo aquele que era considerado o melhor amigo do protagonista irá ao enterro não por vontade própria, mas sim por obrigação social. Tanto é que depois do enterro ele se direciona para um carteado, onde diversos amigos lhe aguardam (como se não houvesse acontecido nada).

Ivan Ilitch é o típico homem condicionado ao seu modo de viver: quando jovem, se envolve com mulheres, bebidas e jogatina. Ao iniciar a vida profissional, faz da execução do trabalho o seu maior prazer, tanto que logo irá transitar entre outros cargos de maior importância e irá se derreter em orgulho. Ele acaba por casar com uma mulher puramente pela renda que ela poderia agregar ao seu caixa.

Enfim, Ivan Ilitch era um homem repleto de luxúria, cujo status social era a única coisa que importava e cuja felicidade aparente era mais importante que a felicidade real. Ele acreditava tanto nesta ideia que a vivenciava com vigor e tremenda satisfação, de modo que acreditava profundamente que ali, na relação do homem com os seus objetos e com suas relações sociais, residia a vida.

Tanto é que Ivan Ilitch, para sustentar o seu padrão, estava sempre a pegar empréstimos financeiros. Logo a situação fica muito complicada. Por sorte do destino, um amigo do protagonista irá alcançar um cargo de chefia e irá lhe colocar num cargo que oferece uma remuneração bem maior do que a atual.

É a virada de Ivan Ilitch e a redescoberta da felicidade, que reside intrinsecamente em sua posição social. Como o novo cargo fica numa cidade distante, Ivan Ilitch vai à frente para cuidar da nova casa e da acomodação da família. Impressionado com a casa e totalmente apegado à decoração, Ivan Ilitch passa os seus dias pensando em como melhor ajustar os móveis nos diversos ambientes.

Num destes dias de empolgação, ao arrumar um dos ambientes, Ivan Ilitch sofre um leve acidente, cuja pancada próxima aos rins irá causar um pequeno inchaço e um pouco de dor. A partir dai acompanhamos a verdadeira virada da história: este pequeno ferimento irá agravar e em questão de meses Ivan Ilitch estará morto.

Temos então o início do fim. No princípio era apenas uma dor que incomodava, mas não o suficiente para atrapalhar a rotina do protagonista. Porém logo ela irá piorar e ele se vê obrigado a procurar um médico. O doutor acreditar estar diante de algo comum, prescreve alguns medicamentos e manda Ivan Ilitch embora. Embora ele siga as recomendações do médico, a dor vai ficando mais forte, de modo que ele começa a não conseguir fazer mais certas coisas simples, como se levantar sozinho. Novamente a procura do médico, este ainda acha que a situação está sob controle e recita mais outros medicamentos. Mas a dor vem novamente, e ainda mais intensa.

Logo Ivan Ilitch irá se deparar com a indiferença e o descaso das pessoas em relação aos seus sentimentos. Ele sabe que algo estranho acontece, porém todos ignoram o seu problema e pensam que é algo repentino, que em breve estará curado. E por mais que ele insista que a sua doença é grave, tanto os médicos quanto sua família preferem não ouví-lo. Ele passa a odiar à todos, principalmente por ser ignorado - os seus sentimentos estão repletos de rancor e até mesmo inveja (dado o estado de saúde dos demais). Ivan Ilitch não quer morrer. Para ele a morte está tão distante e ele sente que ainda tem tanto para fazer, porém o seu corpo diz justamente o contrário: Ivan Ilitch sabe que vai morrer.

Ivan Ilitch chega à um estado que não permita mais que saia de sua sala. Porém uma mudança se opera em sua alma através da figura de um dos seus criados, homem extremamente simples, feliz e dedicado, que passa os dias aliviando a dor de seu patrão ao esticar as pernas. Ivan Ilitch, de pronto, não consegue entender a felicidade do empregado, mesmo diante de tarefas indignas, como limpar as fezes do patrão e até mesmo dormir sentado apenas para que Ivan consiga colocar as pernas em seus ombros pelo maior tempo possível (uma vez que era a posição onde a dor menos lhe incomodava).

O protagonista começará a entrar num conflito de ideias: se ele, que teve tudo, não era essencialmente feliz, como poderia um ser tão miserável, com afazeres tão ingratos, radiar felicidade? Somente uma conclusão seria possível: a felicidade não reside nas coisas a qual acreditava deixar-lhe feliz. Ivan Ilitch irá entender que o segredo era viver a simplicidade da vida, e não a sofisticação. Uma vida repleta de coisas lhe faria um cego que não conseguiria enxergar além daquele prisma, de tal modo que o castigo de levar uma vida destas seria sofrer demasiadamente por não conseguir se desfazer destes objetos de prazer. Já aquele que nunca teve nada é o que viveria a vida da forma mais natural, afinal ele trilhava o caminho conforme se apresentava desde o início: sem ambições - logo, sem sofrimento.

Por fim, Ivan Ilitch irá falecer após três dias berrando de dor. Sua morte, de certa maneira, só pode acontecer porque ele deixou de resistir ao ver que sua morte poderia ser algo bom. Num acesso de luz ao observar o sofrimento de seu filho mais novo, e também de sua esposa, ele percebeu que poderia trazer lhes certo bem e certo alívio após deixar de existir. Com sua morte, chegamos ao fim da história. Porém há uma inversão de conceitos, semelhante à aquele que João Cabral de Melo Neto nos apresentou em seu célebre Morte e Vida Severina: com o advento da luz e percepção do erro ao convencer que sua vida não foi vida, senão morte, Ivan Ilitch experimentou, em seus últimos momentos, a vida simples e pura, mesmo que por instantes. Debilitado em sua cama, alguém próximo diz: "Ele se foi". Ao ouvir, o protagonista, sem forças, diz para si mesmo: "A morte se foi". Sim, pois a morte já não estava mais ali era o fim da morte a qual foi toda a sua vida. Ivan Ilitch morre resignado ao saber que jamais viveu.

A obra representa uma tênue linha entre o Tolstói e o seu personagem Ivan Ilitch. Escrita já na velhice (com a morte rondando em sua mente), Tolstói rejeita todo o apego material, ressalta a importância de se viver de modo simples - assim como os camponeses que tanto admirava - e renega sua própria juventude (de muita bebida e jogatina). Talvez por pensar que chegava próximo à morte sem saber o que era ter vivido, Tolstói viu-se obrigado a tomar uma atitude que colocasse o seu mundo do avesso. Ivan Ilitch também percorreu caminho semelhante: diante da perspectiva de morte, houve uma necessidade de reavaliar o seu passado e observar que ali a vida não residiu. A vida esteve disponível, porém ele optou por outros caminhos que, fatalmente, lhe levaram ao arrependimento.

Observamos, portanto, há mais de 100 anos, um personagem típico de nossos dias, onde o acumulo de riquezas e status social, sinônimos da ilusão e de felicidade inautêntica - são retratos fieis de uma sociedade robótica, ignorante e egocêntrica, onde o que importa é apenas a si mesmo, sendo que os outros, que são outros e nada mais, são totalmente jogados no buraco do esquecimento.

Léon Tolstói

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo." - Léon Tolstói

De tempos em tempos surgem homens que são coroados com a glória e adentram na sala da eternidade. Há algum tempo, de forma misteriosa e fascinante, houve um levante russo na literatura mundial que abriu as portas para que alguns gênios gravassem os seus nomes para sempre em nossa memória. Dentre estes nomes se encontram Fiódor Dostoiévski (1821-1881), Máximo Gorki (1868-1936), Anton Tchékhov (1860-1904) e Lev Nikoláievich Tolstói – ou simplesmente Léon Tolstói.

Tolstói, nascido no dia 9 de Setembro de 1828 e falecido no dia 20 de Novembro de 1910, poderia muito bem ser lembrado apenas por sua obra (entre as quais destacamos seus principais romances: Anna Karenina e o grandioso – em todos os sentidos – Guerra e Paz), porém ele foi adiante e se tornou um grande pacifista em atividade, cujas ideias refletiram em nada mais nada menos do que o indiano Mahatma Gandhi.

O próprio Tolstói divide sua vida em quatro períodos, onde na velhice irá repudiar diversos momentos (como a juventude, onde o precoce escritor se deliciava com muita bebida, prostitutas e jogatinas). Na primeira fase, observamos um Tolstói que não conhece pai e mãe - as quais morreram muito cedo - sendo, então, educado por preceptores franceses. Logo Tolstói irá ser influenciado pela cultura de seus preceptores. Como todo grande gênio, Tolstói era um homem perturbado e diversas questões colocavam a sua existência em xeque. Portanto ele irá se dedicar à estudar os filósofos em busca de alento para sua alma. Um dos filósofos mais estudos foi Jean-Jacques Rousseau, que escreveu o Contrato Social, livro que influenciou os jacobinos durantes a revolução francesa, principal tema do romance Guerra e Paz.

Sofrendo pela questão existencial, cuja morte faria parte de seus pensamentos até o fim de sua vida (tema discutido profundamente no conto A Morte de Ivan Ilitch), Tolstói obteve o repouso que sua mente necessitava ao se dedicar a vida matrimonial com Sônia Bers, com qual teve 13 filhos. Foi durante os primeiros 15 anos de calmaria que ele conseguiu escrever seus dois longos e principais romances: primeiramente Guerra e Paz e na sequência Anna Karenina.

Nesta época ele já era mundialmente conhecido pelos seus escritos, porém ele ganharia status de “celebridade” por suas atitudes fora da literatura, que acabaram por repercutir de forma única em todo globo terrestre.

Tolstói foi conhecido por sua atitude anarquista em relação as organizações sociais. Numa viagem à Europa, chegou a visitar o criador do anarquismo Piérre-Joseph Proudhon. Ele era vegetariano (pensava que devíamos respeitar todas as formas de vida e que enquanto isto não acontecesse, jamais iríamos parar de nos confrontarmos), era contra qualquer tipo de governo, repudiava o consumo de bebidas alcóolicas, era contra as excessivas regras e contra qualquer tipo de punição. Achava que jamais o mal poderia ser combatido fazendo qualquer forma de mal, portanto qualquer tipo de violência era injustificável perante um discurso de paz.

O escritor russo chegou a fundar uma escola para os filhos de camponeses – a qual admirava profundamente o estilo de vida (considerava como o mais correto entre todas as formas de viver): na escola os alunos não eram obrigados a ir, pois o aprendizado deveria ser espontâneo e consensual. Também era contra o alistamento militar obrigatório: para Tolstói, o homem deveria fazer somente aquilo que bem entendesse, o que reflete em sua posição de uma liberdade incondicionada.

Léon Tolstói também foi conhecido por seu ideal cristão: rejeitava todos os dogmas da igreja, dizia que Jesus foi o principal difulsor das ideais divinas, porém ele era apenas um homem, e jamais poderia ser Deus. Rejeitava as orações dentro da igreja, visto que Deus estava em todos os lugares e que o próprio Jesus havia ensinado a rezar em silêncio. Acreditava que a igreja beneficiava a si mesma enquanto condicionava os homens a realizarem os seus próprios desejos. Este tipo de ideia levou a Igreja Ortodoxa Russa à excomungar Léon Tolstói.

Como suas ideias não condiziam com seu estilo de vida, de certa maneira luxuoso e cômodo, Tolstói se sentia imensamente perturbado: para ele não deveria haver distinção entre pensamento e prática. Portanto abriu mão dos vencimentos referente as vendas de seus livros, começou a viver como um camponês, limpar os seus aposentos, se vestir com roupas simples e feitas por ele mesmo. Passou a escrever diversos textos e panfletos criticando a sociedade e os artistas estéreis, cujas obras eram mais adornadas do que objetivas (tanto é que neste período ele rejeitou muitos textos que ele mesmo havia escrito anteriormente). Enfim, Tolstói fez um barulho imenso naquela época: só não foi preso porque ele era Tolstói, um símbolo de inspiração universal.

Além disto, uma legião de seguidores começou a seguir a sua doutrina e se auto-intitularam tolstoianos. Toda esta virada fez com que sua família achasse que ele estava ficando louco. Tolstói começou a esboçar um plano para deixar a casa e viver a vida em simplicidade a qual acreditava.

Então, com avançados 82 anos de idade, Tolstói foge com sua filha mais nova – a única que compartilhava dos ideais do pai. Na insistência em viajar com a classe mais baixa, Tolstói contrai uma pneumonia, graças ao frio e a inalação de fumaça provocada pela locomotiva. Dizem que milhares de pessoas foram receber o corpo de Tolstói na estação de trem, assim como dizem que o seu caixão foi carregado por inúmeras pessoas.

Em todas as fases de sua vida, Tolstói nunca abandonou a escrita. Portanto podemos acompanhar os diversos Tolstóis em seus escritos, que vão desde peças e contos, até tratados e cartas. Hoje Tolstói é retratado no cinema e é referência para qualquer apreciador da literatura. Ícone da cultura russa, Tolstói é um tipo único que faz falta até os dias de hoje.