Gênesis de Robert Crumb

Game Over

Sobre Interpretações

Nada é Certo, Tudo é Possível

Turma da Mônica Jovem: Segunda Edição

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Finalmente chega as bancas a segunda edição do sucesso Turma da Mônica Jovem. Conforme um informe do próprio Mauricio de Sousa, Turma da Mônica Jovem superou todas as espectativas quanto a tiragem inicial, onde mais de 200 mil exemplares foram vendidos. O sucesso, como ele mesmo mencionou, se deve ao fato das pessoas ficarem curiosas de como seria a Turma da Mônica se eles pudessem crescer.

O primeiro volume responde a estas questões e introduz uma história, onde uma feiticeira chama Yuka aprisiona os pais da turma, sendo que estes só poderão serem soltos assim que a turma encontrar quatro artefatos espalhados por quatro dimensões diferentes.

Sendo assim, neste segundo exemplar a Turma da Mônica é transportada para Mavidele, uma dimensão cercada por anões, trolls e criaturas pequeninas. Em referência aos RPGs como Dungeons & Dragons, cada personagem da turma encarna um papel: a Mônica é uma elfa, o Cebola é um guerreiro paladino, o Cascão é um ladino – um ladrão especialista em abrir portões, cofres e armadilhas – e Magali é uma maga.

Depois da novidade inicial, resta que a história seja um atrativo para manter os leitores fiéis a revista. Porém a história é massante, muito morna e os temas desenvolvidos já estão mais do que batidos. As piadas utilizadas não têm mais tanta graça e algumas vezes confesso que não entendi qual era a ironia da situação.

Seria mais interessante se a história acontecesse em nossa realidade, como na primeira edição, ao mostrar o dia-a-dia da turma. Como o cenário se passa em outro ambiente, a magia por trás da nostalgia acaba por se perder. Claro que nem tudo está perdido, afinal este é o somente o segundo número, porém os responsáveis pela produção da história terão que se reunir e planejar melhor o enredo, caso contrário ficará muito cansativo acompanhar histórias que já não funcionam mais.

O ponto forte continua nos pontos onde relembramos as personagens infantis. Quase sempre eles se confrontam com situações onde a personalidade das personagens de outrora continuam presentes na adolescência. Outra coisa que vale salientar é o desenho, que para mim funciona perfeitamente quanto a proposta da revista.

Continuarei acompanhando a revista e postando minhas impressões aqui. Espero que a Turma da Mônica Jovem encontre o seu caminho, pois a HQ promete bastante!

Marmieládov

domingo, 28 de setembro de 2008

Este artigo faz parte de uma série que visa analisar a obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Para conhecer todos os outros textos que já foram públicados sobre este assunto neste blog, clique aqui.

(...) é na bebida que procuro a compaixão e o sentimento (...) Bebo porque quero exclusivamente sofrer.” – Marmieládov

Este é um personagem chave na condução da história de Crime e Castigo, principalmente no que cerne as tomadas de decisões do protagonista Raskólnikov.

Marmieládov é um perdedor confesso. Marmieládov, víuvo e com uma filha de quatorze anos, decide se casar com Catierina Ivánovna, recém víuva com três filhos pequenos e desamparada por seus pais. A situação de Carierina Ivánovna é comovente e Marmieládov decide cuidar dela e dos pequenos por toda a sua vida. É uma figura apaixonada por sua esposa e a admira muito por todo o seu histórico, de tal modo que quando é demitido de seu emprego, um ano após o casamento, não aguenta o baque e se entrega a bebida.

Depois de um ano e meio desempregado, consegue um novo emprego, porém perde na sequência por sua própria culpa, provavelmente graças aos problemas ocasionados pelo alcoolismo. Com o aluguel atrasado e pressionado pela condições de miséria a qual vive toda a sua família, vê sua filha do primeiro casamento tornar-se uma prostituta para sustentar a casa. A vergonha desta situação faz com quê Marmieládov reclame o seu emprego de volta com o antigo chefe, que comovido com sua história, decide empregar novamente o ex-funcionário.

A notícia é recebida pela família com muita alegria e esperança, porém após uma semana, Marmieladóv pega todo o dinheiro arrecadado até então e some de casa para gastar tudo em bebida. Logo quando o dinheiro acaba, recorre a Sônia – sua filha prostituta – para pegar dinheiro para beber mais.

Todo este relato é descrito para Raskólnikov em uma taberna onde Marmieládov bebê. Todos conhecem a sua história. Raskólnikov o leva de volta para sua família e questiona se todos os homes não seriam sacanas por natureza, afinal porque Marmieládov, depois de tantas oportunidades, continuava fazendo estas coisas, como bebendo e fugindo?

Marmieládov é extremamente complexo. Faz parte da habilidade de Dostoévski criar personagens psicologicamente confusos, ou seja, eles mesmos estão presenciando uma batalha interna e procuram uma definição para os seus males. Podemos, assim, imaginar que Marmieládov é uma figura que busca uma auto-punição por não ter sido capaz de cumprir com aquilo que havia prometido. Ele quer, com isto, buscar infinitamente a dor mais aguda que possa existir. Conforme fosse odiado além dos limites do próprio ódio, imaginava que seria mais fácil de viver com toda a bagagem mísera que leva em seus pensamentos.

Quanto mais apanhasse, fosse xingado e visto com maus olhos, mais perto de sofrer aquilo que ele considerava justo por tudo aquilo que fez com os seus entes. Enfim, considerava-se merecedor de todo sofrimento.

Coincidentemente, é nesta figura sofrível que Raskólnikov encontra a sua salvação. Em dado momento, enquanto Raskólnikov caminha em meio à uma ponte próxima ao apartamento das vítimas que ele assassinara dias atrás, um grupo de pessoas se agita em frente a um acidente que acaba por acontecer. Tudo indica que a vítima é fatal. Quando Raskólnikov se aproxima curioso para saber o que aconteceu, vislumbra que o pobre coitado esmagado por atropelamento é ninguém mais que Marmieládov. Raskólnikov decide ajudar com cuidados médicos, com a locomoção do ferido até a sua residência, e posteriormente, com a morte do personagem decorrente da tragédia, ajuda financeiramente a sua familia, inclusive no enterro.

A Guerra dos Ratos, Gatos, Porcos e Cães

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


A literatura por trás da Segunda Guerra Mundial é vasta e muito bonita. Por trás de um acontecimento tão cruél e violento surgem centenas de histórias comoventes de resistência e heroísmo. O nazismo, definitivamente, antes de tudo foi uma epidemia de insanidade coletiva que assolou a Alemanha no passado.

Hoje ninguém consegue entender exatamente o porque aquilo aconteceu, nem mesmo os nazistas, após serem capturados, conseguiam justificar com clareza as atrocidades que cometeram, justamente porque não havia explicação: foi tão somente o lado bestial humano liberado para que a sua face animalesca prevalecesse sob a falsa razão, aparentemente, dominante. Quando cai a máscara percebemos que o animal mais selvagem que todo o reino selvagem continua sendo o homem, como se fosse um berserk.

Para mim, o retrato mais cru e emocionante de um destes episódios não está presente nem na tradicional literatura, nem no cinema, mas sim nos quadrinhos: falamos de Maus (ratos, em alemão), do ganhador do prêmio Pulitzer Art Spiegelman – publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras e compiladas em um único volume. A história é retratada através de uma série de entrevistas que ele realizou com o seu pai, um dos sobreviventes judeus e refugiados nos EUA.

O que faz Maus ser diferente de tudo o que você já viu é a forma como o relato é apresentado: nos traços simples e sem grandes detalhes de Spiegelman, temos os judeus retratados como ratos – fazendo uma analogia com os seres que sempre estão fugindo. Os nazistas são os gatos, aqueles que estão sempre atrás dos ratos. Os poloneses são os porcos – animal que não inspira confiança e acaba por trair o seu próprio povo em busca da própria salvação. O exército do EUA acaba por ser os cães, aqueles que caçam os gatos e salvam os ratos.

Além disto a trama é apresentada de forma direta e sem adornos, sem música de fundo, sem diálogos complexos ou comovidos, são simplesmente pessoas fazendo o que têm que fazer para sobreviver, se adaptando ao conflito e aprendendo a conviver com as perdas e a transformação de um cenário tranquilizador para um cenário caótico.

O pai de Spiegelman é retratado como um judeu chato, irritante, porém sincero e honesto. Isto não faz dele somente um herói, mas um homem como um outro qualquer inserido num contexto insano. Se o nosso mundo fosse virado do avesso como reagiríamos? Em Maus observamos pessoas nesta situação. Não há exageros nas histórias de seu pai, nem enfeite, nem cores e nem pinturas. Tudo é contado com naturalidade e frieza . Talvez seja este não carisma que torne os personagens tão carismáticos.

Talvez porque eles não sejam nem um pouco perfeitos é que podemos sentir, através da leitura, um pequeno fragmento do que experimentaram, visto que nós nos reconhecemos como seres imperfeitos, e isto dói bastante – a ponto de derrubar lágrimas durante as páginas.

E mesmo após a leitura deste clássico – e de tantos outros que já foram lançados acerca do tema – e mesmo após assistir tantos filmes tão bem representados, continuamos sem entender do que se trata tudo isto e quem é este ser que aparece toda a manhã em nosso espelho.

Aliena Ivánovna

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Este artigo faz parte de uma série que visa analisar a obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Para conhecer todos os outros textos que já foram públicados sobre este assunto neste blog, clique aqui.

Conforme as próprias palavras de Dostoévski, Aliena Ivánovna era “uma velhota pequerrucha, descarnada, de uns sessenta anos, olhos penetrantes e maus, nariz pontiaguda e cabeça descoberta. Os cabelos de um louro desbotado(...) O pescoço fino e longo como um pé-de-galinha(...)

Nem precisamos ter a imaginação tão apurada assim para logo associarmos a imagem de uma bruxa com a descrição de Aliena Ivánovna. De fato, Dostoiévski apresenta a velha usurária como uma pessoa má e que aproveita da condição desesperada e miserável do ser para enriquecer sem o menor constrangimento.

Aliena Ivánovna é uma espécie de agiota de nossos tempos. As pessoas vão até ela e penhoram os seus bens como garantia de pagamento de um empréstimo, cujo valor irá variar dependendo do objeto penhorado. Os juros cobrados por ela são astronômicos e em nenhum momento ela sente piedade por um de seus devedores, muito embora entenda que aqueles que vem até ela enxergam na velha a ultima possibilidade de se obter algum dinheiro.

São almas malditas que, quase beirando a insanidade, não vislumbram outra alternativa a não ser entrar num empréstimo destes, onde a propabilidade de pagamento é quase nula. Mesmo nesta condição quase animal, Aliena Ivánovna consegue ser fria, rígida e ver com total indiferença toda a situação, o que faz com que todos os seus clientes passem a odiá-la.

Ainda assim a velha aproveita da vergonha e humilhação de homens que não tiveram a sorte que a vida nos exige, ou que não souberam aproveitar a oportunidade que tiveram, para ficar sempre acima e manter o poder sobre eles. De certo, Aliena Ivánovna gosta de torturam psicologicamente as pessoas porque esta é uma forma de justificar para si mesmo que ela não é como eles. Que ela se enquadra num nível superior ao destes seres. Então, na miséria destes homens ela encontra um caminho para tentar ser feliz, ainda que de forma egoísta.

Raskólnikov é um destes clientes humilhados. A sua revolta é tanta com o tratamento recebido que ele decide que a usurária é um mal que precisa ser eliminado do mundo para que este se torne um lugar melhor para viver. Logo no princípio de Crime e Castigo, Raskólnikov planeja assassinar esta mulher em pró de um bem maior. Ele atinge o seu objetivo, porém a sua consciência oscila nos dias pós-crime.

Drauzio Varella: Por Um Fio

domingo, 21 de setembro de 2008


Li este livro no segundo semestre de 2003 de forma despretenciosa. A verdade é que não havia gostado do seu maior best-seller, Estação Carandirú, e então não fiquei interessado em ler outra obra do autor. Porém ganhei o livro, o tema me chamou a atenção e resolvi conferir. Resultado: excelente leitura, muito reflexiva e um dos livros que fico feliz por ter descoberto a tempo.

O tema trata da experiencia pré-morte, ou seja, daquelas pessoas que estão em estado terminal e que sabem que vão morrer em breve. Varella é um médico conceituado em São Paulo, especialista em oncologia, e durante toda a execução de sua vida profissional lidou de perto com este assunto, tornando assim os relatos de seus antigos pacientes ainda mais vivos e precisos .

No livro temos uma série de relatos. Os pacientes são diagnosticados com uma doença num estágio onde a cura tem mais a ver com milagre do que com as possibilidades reais da medicina. Diante do fato, Varella menciona casos que vão desde o desespero a aceitação, tanto do paciente, quanto da familia. Durante o tratamento para prolongar a vida, temos pessoas que simplesmente reaprendem a viver com extrema intensidade até mesmo aquele que fica resguardado em sua tristeza a espera do seu ultimo dia. Entretanto, a serenidade acaba por trazer-lhes uma espécie de sabedoria que está além do entendimento de uma pessoa que está no vigor de sua vida.


Dentre os relatos temos desde crianças que já não se importam em ter os seus membros mutilados – de modo que isto representa até mesmo um alívio diante da possibilidade de vida – até mesmo aqueles que, sabendo que nada mais poderia ser feito, antecipam o iminente momento ao deixar de se alimentar ou tomar remédios. Têm aqueles que se agarram numa causa religiosa, e na esperança de uma vida do outro lado sentem-se confortável para enfrenter o momento com calma, e outros que somente acreditam na vida terrena, de modo que a angústia por trás dos últimos momentos fazem com que busquem deixar todas as pendências resolvidas e também passar tranquilidade para a familia. Tem também aquele que dedicou toda a sua vida a salvar outras vidas, e ainda assim é vitíma deste destino a qual ninguém pode escapar, como no caso do irmão de Varella, também médico oncologista e ainda assim não perdoado por este mistério que é a existência.


Enfim, este é um livro rápido, curto e gostoso de ler. O que poderíamos aprender com estas pessoas? Muito. Ao refletirmos sobre a nossa morte, também aprendemos que temos um tempo indeterminado para viver. Conscientes que nem sempre estaremos aqui, talvez podereos antecipar aqueles planos que sempre ficam para amanhã: ler aquele livro que sempre lhe chamou a atenção, ver aquele filme que sempre ficou para um final-de-semana que nunca veio, fazer a viagem para o exterior que você havia prometido a si na última férias, escrever suas palavras num pedaço de papel, plantar uma árvore, se reencontrar com velhos amigos, participar de atitude comunitária, dizer o quanto você ama os teus pais e o quanto eles são importantes em sua vida, levar os teus filhos no parque da Xuxa e no parque da Mônica, trabalhar menos, assistir menos o telejornal, nadar pelado em uma praia e tantas outras coisas que não cabe citar aqui.


É preciso planejar a sua morte. É preciso pensar que você nem sempre estará aqui. Chore agora, enquanto você tem um bom tempo para viver, para então você aceitar que este é o destino de todos e que a vida é assim mesmo, com seus mistérios indecifráveis. Só tomando consciência da morte saberemos o que é viver, pois enquanto isto não acontece estamos tão distraídos com fatores mundamos e superficiais que esquecemos ainda hoje poderemos morrer. Embora pareça que este é um pensamento mórbido, afirmo que não é. Muito pelo contrário é uma forma de você não deixar as coisas para amanhã e que assim que nascemos as areias do tempo começam a descer pela ampulheta.

Especial: Radiohead - OK Computer

sábado, 20 de setembro de 2008

Radiohead: The Tourist

Finalmente chegamos ao fim desta grande obra prima da música internacional. Com maestria, o Radiohead encerra este épico conceitual de forma brilhante, lenta e reflexiva. Na música anterior, havia uma certa tendência que apontava que nosso personagem havia se entregado e com isto iria viver uma vida rotineira e sem perigos.

De fato, é o que confirmamos no fim. Em The Tourist, o protagonista voltou para o estado que se encontrava antes da experiência catastrófica que levou um Airbag a salvar a sua vida. O sistema acabou por reprimir-lhe, eis que ele não aguentou tamanha pressão e deixou que fosse engolido para viver uma vida sem grandes emoções.

O tédio é parte integrante desta maneira de viver, assim como o estress, o nervosismo, a vontade de fazer tudo mais rápido mesmo sem saber para quê. Por isto somos chamados de idiotas. Os idiotas corporativos, que doam o seu sangue para sustentar todo um sistema que só se preocupa em enriquecer.

A mensagem mais forte no fim deste álbum é justamente alertar que estamos sozinhos na luta contra a toda poderosa máquina, e que por mais que lutemos a tendência é sermos constantemente vencidos. No contesto existencialista, é o aburso do existir que fala mais alto. Tudo depende da sua sorte de berço e do seu meio, de modo que não temos escolha. Por vezes até tentamos desviar daquilo que a vida projetou para nós, mas somos castigados por um crime não cometido, de tentar sobreviver ao caos predominante nestes tempos onde, como diria o Renato Russo, "Viver é foda, morrer é díficil". Ok, computador, você venceu.

The Tourist, ao vivo.

It barks at no one else but me
Ele late para ninguém mais senão para mim
Like it's seen a ghost
Como se tivesse visto um fantasma
I guess it seen the sparks a-flowing
Eu acho que ele viu a faisca fluindo
No one else would know
Ninguém mais saberia

Hey man slow down, slow down
Hei homem, devagar aí, devagar aí
Idiot, slow down, slow down
Idiota, devagar aí, devagar aí

Sometimes I get overcharged
Algumas vezes eu sou cobrado em excesso
That's when you see sparks
É quando você vê faísca
You ask me where the hell I'm going
Você me pergunta onde diabos estou indo
At a thousand feet per second
Há uns mil pés por segundo

Fim

Ensaio Sobre a Cegueira: Análise

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa - também amo todos estes - mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade.

Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentarios, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como instransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos acídos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, que está logo abaixo deste parágrafo me fez mudar de idéia.


Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor havia dado o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontee, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragiidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inesplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os dialogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidadade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que reje o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as consequências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

Radiohead: Lucky

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Esta canção está envolvida por um mistério. Sua letra é um contraste da melancólica melodia. Fala sobre o sentimento que muitas vezes temos onde a sorte parece mudar a nosso favor. Sabe quando a tormenta é tão densa que quando ela diminui nos sentimos tão aliviados que achamos que tudo está bem? O Radiohead talvez esteja por tratar disto.

Não há como ter certeza, o que não poderia ser diferente num album tão genial como este, porém ele diz "Eu estou numa roda" e isto permite uma associação com o antigo conceito da roda da fortuna, onde o homem em dado momento está por cima, em outro está por baixo, sem que aja um lógica exata para explicar porque isto acontece. Segundo este conceito, é a sorte que vai determinar como você está hoje.

Outra coisa que pode ser levada em consideração é uma provocação: o protagonista não estaria sendo seduzido por uma vida inautêntica? Não estaria ele aceitando as coisas como são, de modo que tenha desistido de tentar lutar contra o sistema? Não seria esta aceitação do absurdo que o levou a achar que é a sorte que estava mudando o seu ponto de vista?

Os questionamentos acima têm origem no vídeoclip oficial, que mostra uma série de barbáries cometidas com crianças, consequências da guerra e abuso de poder. E ainda assim, como é possível que as pessoas ainda conseguem sorrir com tantas coisas ruins acontecendo ao nosso redor?

Somente um estado de condicionamento poderia nos levar a esquecer de certos problemas sociais, de forma que olhar para tantas atrocidades e ainda assim poder viver em total indiferença é sorte para poucos.

Videoclip oficial de Lucky

I'm on a roll, I'm on a roll
Eu estou numa roda, eu estou numa roda,
This time, I feel my luck could change
Desta vez, eu sinto que minha sorte mudará
Kill me Sarah, kill me again with love
Mate-me Sarah, mate-me novamente com amor
It's gonna be a glorious day
Este será um dia glorioso

Pull me out of the aircrash
Tire me do acidente aéreo
Pull me out of the lake
Tire me do lago
I'm your superhero
Eu sou seu superherói
We are standing on the edge
Nós permaneceremos no limite

The Head of State has called for me by name
O Chefe de Estado chamou por meu nome
But I don't have time for him
Mas eu não tenho tempo para ele
It's gonna be a glorious day
Este será um dia glorioso
I feel my luck could change
Eu sinto que minha sorte irá mudar

A seguir,  The Tourist.

Sobre Mudanças: Um Bate-Papo

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Felizmente eu tive a sorte de encontrar em meu ambiente de trabalho uma série de pessoas com pensamento crítico e fundamentado que permite, esporadicamente, que algumas idéias possam ser debatidas com muita empolgação por todas as partes.

Tive uma conversa que gostaria de deixar alguns fragmentos registrados até para que possa voltar a estes pontos posteriormente, de modo que possa repensar certas coisas que foram ditas nestes bate-papos.

Basicamente falamos sobre a situação política de nosso corrupto país. A motivação vem de certas manobras que o banqueiro Daniel Dantas vem fazendo junto com os seus aliados para escapar impune por seus crimes, e até mesmo utilizar da própria lei para punir aqueles que querem a sua cabeça.

o argumento remonta a teoria de Raskolnikov, protagonista de Crime e Castigo, que diz sobre as pessoas extraordinárias e que estão acima da lei, sendo que estas podem cometer qualquer tipo de atrocidade que estarão impunes as leis que eles controlam e alteram quando bem entender.

Dentre as coisas importantes colocadas em pauta, destaco algumas: é possível mudar a nossa atual situação? Como mudar? Um destes amigos insistiu na mudança orientada na base, ou seja, na educação. Mas então coloquei "não há problemas neste sistema. O capitalismo funciona perfeitamente pelos seus criadores e não tem porque ser alterado. O explorador esta cada vez mais rico e no controle, e os explorados cada vez mais pobres e controlados. Então quem irá querer mexer na educação?". É meio assombroso, mas é o que está mais próximo de nossa realidade.

Depois chegamos ao argumento que o ideal seria um estado provisório provocado por um golpe militar, que puniriam aqueles que estão atualmente no poder, expulsariam do país e assim realizaríamos uma nova eleição. Desta forma os próximos candidatos saberiam que o Brasil é dos brasileiros, e não de meia dúzia de pessoas. Porém, para isto acontecer, precisamos de uma espécie de novo Messias, alguém que nos inspire a mudança.

Por fim, a próxima coisa que talvez poderia mudar a atual situação política seria explorar de tal maneira o trabalhador comum que este não mais teria condições de consumir superfluos e mesmo commodities. É o que eu chamei antes de Suícidio Capital. Isto geraria uma histeria coletiva gerada pela necessidade e uma espécie de caos provisório se estabeleceria.

Então surgiu a necessidade de termos um homem forte, um referencial, uma figura que nos inspire para que seja o primeiro a iniciar um movimento onde todos acabem por se espelhar e dar a sua contribuição. Exaltado, cheguei a exclamar que deveríamos busca esta forma num herói nacional que havia lutado por nosso país em outros tempos, mas então um destes amigos afirmou: "Pior que não temos nenhum". Será que ele tem razão? Na hora até surgiu alguns nomes, mas como não conheço a história a fundo destes personagens, me mantive em silêncio. Num momento futuro, gostaria de pesquisar a respeito de algumas figuras brasileiras para saber a autenticidade de suas ações.

No modelo pacífico, temos Paulo Freire, mas ele não é bem um revolucionário no sentido do combate. E é de um herói com características militares que precisamos neste momento.

Papo este para outro post. Até lá.

Radiohead: No Surprises

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Desta vez o Radiohead nos alerta para os perigos de uma vida-padrão. Ou seja, todo mundo igual a todo mundo. Mais uma vez o foco é a previsibilidade e a distância do homem consigo mesmo.

Poderíamos falar horas e horas sobre todos os sintomas que indicam que os seres, neste tempo mais do que em outros, vivem uniformizados ao pensar sobre uma mesma coisa e sobre uma mesma idéia.

Nos versos desta bela canção, o homem é retratado como uma figura sem expressão, e esta não-expressão aparenta uma certa melancolia presente na face de um ser sem razão de ser. Uma vida que não é, mas vai sendo, onde as coisas sempre são projetadas para um amanhã que nunca irá chegar.

Os planos que são adiados representam a calmaria em viver esta espécie de vida distraída. A distração é um anestésico que permite que cheguemos ao fim deixando uma série de coisas para fazer, e assim temos uma vida sem alarmes e sem surpresas, estamos tão condicionados que nos tornamos invisíveis para o mundo. Como o Radiohead diz, silenciosos.

Vídeoclip oficial de No Surprises

A heart that's full up like a landfill,
Um coração que está completo como um lixão,
a job that slowly kills you,
Um emprego que lentamente lhe assassina,
bruises that won't heal.
Feridas que não vão cicatrizar.
You look so tired-unhappy,
Você parece tão cansado e infeliz,
bring down the government,
Menospreze o governo,
they don't, they don't speak for us.
Eles não, eles não falam por nós.
I'll take a quiet life,
Eu irei ter uma vida tranquila,
a handshake of carbon monoxide,
um cumprimento de monóxido de carbono.

with no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
Silent silent.
Silêncioso, silêncioso.

This is my final fit,
Este é o meu ataque final,
my final bellyache,
Minha ultima dor de barriga.

with no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises please.
Sem alarmes e sem supresas,

Such a pretty house
Uma linda casa assim
and such a pretty garden.
E um jardim lindo assim.

A seguir, Lucky.

Disque 0800-Teletrauma

sábado, 6 de setembro de 2008

Creio que todos já passaram por isto: ao ligar para uma central de atendimento, tudo o que gostariam de fazer era falar diretamente com um atendente, porém a linda e maravilhosa voz da mensagem automática (URA) lhe guiou para um labirinto sem saída - "Você ligou para a empresa. Bom dia! Tecle 1 para falar com o setor A. Tecle 2 para falar com o setor B..." Blah, blah, blah. Ao término da experiência, você desiste justamente porque falta a paciência para ouvir todas aquelas frias e distantes mensagens. Em alguns lugares, não existe a possibilidade de falar com uma pessoa - se você acha que isto não é verdade, tente ligar para o ItauMotors.

Não há muito tempo, consegui falar com uma garota muito simpática na Telefônica - empresa que monopoliza a telefonia em São Paulo. Pensei comigo "Consegui falar com um ser humano, agora as coisas devem ser mais fáceis". Ledo engano. Era como se eu tivesse falando com um robô. Discursos rigorosamente decorados, de modo que são pronunciados sem ao menos serem compreendidos. É como passar a marcha do carro: você faz sem consciência do que está fazendo.

Esta relação gélida entre o consumidor e a empresa gera uma série de gafes. Primeiro, antes de falar com a tele-operadora, a URA me pede para digitar o número de minha linha telefônica. Nunca entendi muito bem porque preciso fazer isto, já que a primeira coisa que a atendente me pergunta é justamente o número do meu telefone (com DDD, é claro). Mas paciência, o serviço que preciso desta empresa é simples: só preciso alterar a modalidade da minha internet. Deve ser coisa de, no máximo, 5 minutos.

Mais uma vez estava enganado. A ligação durou - pasmem! - 52 minutos. Longos e dolorosos momentos onde o ponteiro mais fino do relógio giraram 52 vezes. Pior, o meu problema não foi resolvido. Depois de ouvir, aproximadamente, 25 vezes a pobre atendente me dizer "só mais um instante" e depois de ser colocado no MUTE mais uma dezena de vezes, ela simplesmente disse que o sistema estava fora e ela não conseguia efetuar nenhuma operação. Pediu meu telefone e disse que entraria em contato até o final do dia.

Até agora não recebi nenhuma ligação. Durante todo este tempo que eu fiquei calado ao telefone, aguardando a finalização de minha solicitação - o que não ocorreu - ouvi uma série de barbáries por parte dos funcionários desta empresa que atende a Telefônica (provavelmente a Atento, que é do mesmo grupo). Acho que eles não sabiam que eu estava ouvindo tudo - o barulho era ensurdecedor, como um pátio de escola nos momentos de recreio. Ouvi desde outros atendimentos, até conversas paralelas entre eles.

Os próprios monitores da empresa gritavam "Gente, qualquer Speedy de 4Mb é R$ 7,90 a partir de agora, não esqueçam, R$ 7,90!". Chegava a doer os meus ouvidos. De repente uma festa "Vendi um Detecta!" - algazarra para todo o lado. Esta vibração eu até acho interessante para estimular um ambiente tão estressante. O que mais me deixou surpreso foram papos como "Veja aqui, fulana, na minha tela! A Telefônica cobrou 150 minutos a mais desta mulher sem ela contratar nada!" "Ela não adquiriu outro produto?" "Não, não tem nada! Que absurdo!"... Em outra conversa que fisguei enquanto estava na espera "Hoje eu estou mais ociosa que ontem, porém o que está caindo de ligação com contas erradas é brincadeira".

Aterrorisante, não? Além de me sentir humilhado por ficar em silêncio na linha aguardando por uma resposta (e não culpo a atendente que é vítima deste sistema robotizado de tele-operadores que as empresas insistem em vincular como principal canal de contato com eles), ouvindo consecultivos "só mais um instante", fiquei assustado, se não traumatizado, como estas empresas simplesmente fazem o que querem com os seus clientes.

Teve até mesmo uma ocasião que escutei "Você ainda está com este cliente na linha?" "Sim" "Então hoje é você quem vai levar o prêmio Abacaxi!" Mas quem será que levará o prêmio Abacaxi de amanhã? Qual será o próximo a ter uma experiência tão traumática como eu tive? Até gostaria de ligar na Telefônica novamente, visto que ninguém entrou em contato até agora, porém como enfrentar este medo que eu estou do telefone? E quem irá me curar dos meus recentes pesadelos com as URAs, onde me vejo dentro do telefone e perdido num labirinto escuro e sem saída?

Reunião de Gigantes

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Revista Verde Oliva, 1960; Museo Che Guevara (Centro de Estudios Che Guevara en La Habana, Cuba).

Imagine só o que aconteceu neste encontro, realizado em Cuba no ano de 1960. De um lado o existencialismo de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, do outro a rebeldia e o ideal socialista de Ernesto Che Guevara.

Nestas horas eu gostaria de ser uma mosca para não perder nenhum detalhe do que foi dito naqueles dias onde os quatro (mais Fidel Castro, que aparece em outra foto) passaram alguns dias juntos.

Radiohead: Climbing Up The Wall

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Nesta música lenta, com o vocal distorcido, o Radiohead divaga sobre um assunto frequente em nossa atual sociedade: a violência e o crime.

A letra retrata uma invasão a residência, todos os passos frios e cruéis do lado do agressor e o retrato da frieza e crueldade de quem já fez do ato uma profissão.

Para nós, resta apenas o medo: "Quinze golpes atrás de minha cabeça. Quinze golpes em minha mente". Esta sentença soa como "Quem bate não se recorda, mas quem apanha nunca se esquece".

"Não berre ou toque o alarme, somos amigos até morrermos" / "E tanto faz onde você for, eu estarei ali, abrindo seu crânio"

Nós, quando vítimas ou espectadores, ficamos sem entender porque as coisas são assim. Porque nos esforçamos tanto para ter as coisas para depois alguém, covardemente - e toda a covardia é cruel, tomar de nós de forma brutal e inconsequente. Aqui estão vidas que jamais serão as mesmas novamente, afinal uma cicatriz foi aberta para jamais ser fechada: o medo do próprio homem, animal da mesma espécie.

Mas porque o Radiohead ressalta uma temática tão abrangente num album que diz sobre os perigos da tecnologia, da alienação e do condicionamento? Obviamente o roubo e o furto não são doenças que surgiram em nosso tempo, há registros de incidentes desta natureza há milhares de anos. Porém, em nosso tempo, surge um certo prazer em fazer o mal.

Antes, o criminoso roubava para suprir uma necessidade monetária, matava para cumprir um objetivo. Hoje estas práticas são quase que um esporte. Há pessoas que gostam de torturar, de testar os limites do homem, de romper com a mais ínfima dignidade presente no coração mais negro possível. Eles matam por prazer. Sabendo disto temos medo, pois o perigo de morte nunca foi mais real. Estamos fragilizados pela brutalidade do homem.

Mais uma montagem de fãs

Mas quais são os sintomas para que este tipo de patologia exista em nossa sociedade? Esta questão é muito complexa e deixar a questão em aberto bastaria para que fizéssemos justiça à intenção do compositor, mas podemos arriscar algumas coisas mais evidentes.

Primeiro que o nosso sistema é baseado na exploração de recursos, ou seja, na humilhação e subordinação do homem como ser jogado no mundo. Somos escravos de um sistema impune e indestrutível. Não há muito o que fazer, a não ser levar cada dia de uma única vez. O sentimento de humilhação e exploração pode levar algumas camadas mais miseráveis da sociedade (ainda que não seja exclusividade de uma classe social) a romper com os seus limites e despertar um sentimento insano de vingança. De certa maneira, a agressão à alguém de uma classe mais elevada, pode representar uma figuração em dar o troco para toda a injustiça - ainda que nesta atitude, por não ser racional, também represente uma injustiça com o agredido.

Segundo, a própria evolução tecnológica levou a criação de armas de fogo cada vez mais precisas por um menor custo. Quem é portador de uma arma de fogo tem o controle total em uma situação de agressão, pois basta um disparo para eliminar qualquer risco que ele poderia ter numa ação de crime. Na outra mão, temos uma outra pessoa que não tem a menor chance de se defender, totalmente refem da circunstância.

Terceiro, o condicionamento das massas levou as pessoas a terem medo das coisas. As mídias insistem, ininterruptamente, em noticiar casos de sequestros, assaltos, assassinatos, estupros e outras formas de agressão, de modo que com o pânico gerado, nos tornamos cada vez mais frágeis e os criminosos cada vez mais encorajados ao saber do estado de nosso espírito.

Poderíamos elencar uma série de outros fatos, porém estes bastam para saber porque tamanha crueldade tem uma relação especial com a temática do album. Quanto mais "evoluímos", mais nos tornamos escravos das coisas.

I am the key to the lock in your house, that keeps your toys in the basement
Eu sou as chaves para as fechaduras de sua casa, que mantém seus brinquedos no porão
And if you get too far inside, youll only see my reflection
E se for muito para o fundo, verá somente o meu reflexo
Its always best when the light is off, I am the pick in the ice
É sempre melhor quando a luz está apagada, eu sou a essência do gelo
Do not cry out or hit the alarm, were friends till we die
Não berre ou toque o alarme, somos amigos até morrermos

And either way you turn, Ill be there, open up your skull
E tanto faz onde você for, eu estarei ali, abrindo seu crânio
Ill be there, climbing up the walls
Eu estarei ali, escalando as paredes

Its always best when the light is off, its always better on the outside
É sempre melhor quando a luz está apagada, é sempre melhor do lado de fora
Fifteen blows to the back of my head, fifteen blows to your mind
Quinze golpes atrás de minha cabeça, Quinze golpes para sua mente
So tuck the kids in safe tonight, shut the eyes in the cupboard
Então mantenha os garotos a salvo hoje a noite, feche os olhos no armário
So not cry out or hit the alarm, youll get the loneliest feeling
Então não berre ou dispare o alarme, você sentirá o mais solitário sentimento
That either way you turn, Ill be there, open up your skull
Que onde quer que você esteja, eu estarei ali, abrindo seu crânio
Ill be there, climbing up the walls
Eu estarei ali, escalando as paredes.

A seguir, No Surprises.

Radiohead: Electioneering

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Certa vez, Thom Yorke disse que foi inspirado pela filosofia de Noam Chomsky que escreveu a letra desta canção. Ele dizia que algumas frases saiam enquanto certas idéias vagavam em sua mente. Por exemplo, após ler diversos escritos de Chomsky sobre o 3º mundo, guerras e política, veio a frase "O gado estimulando o f.m.i." (Fundo Monetário Internacional).

A música não é uma das melhores do album, justamente porque quebra o ritmo melancólico e trabalhado em todas as outras faixas para assumir uma postura mais crua, pesada e pop. Talvez seja esta a intenção, o que pode ser constatado quando estabelecemos uma paralelo entre a letra e a melodia.

Electioneering ao vivo, em 1997.

Na letra, o protagonista assume um candidato político que, através de idéia maquiavélicas, mostra como controlar e enganar as pessoas através de um discurso retórico persuassivo. Conforme ele diz: "Diga a coisa certa quando fizer propaganda política". Seguindo este conselho, surge a imagem do candidato sorridente, bem vestido, adentrando-se entre o povo, acenando com as mãos e dizendo: "Eu confio! Eu posso confiar em seu voto!".

Por trás de suas palavras, encontramos o seu pensamento: "Quando eu vou em frente você vai para trás". Vivemos num sistema infálivel e complexo, ditatorial e voraz, enquanto alguns ganham muito, outros não ganham nada. Em países de 3º a diferença é ainda mais gritante: vemos uma pequena parcela da população ganhando rios de dinheiro e uma grande parcela vivendo em extrema condição de pobreza. Este sistema é orientado à exploração. Aqueles que sabem explorar bem irão se dar bem.

Ou seja, é um sistema imoral onde a enganação e a falsidade são pré-requisitos para exercer o controle e ter o poder de oprimir os seus adversários. Talvez, neste contexto, a agitação da música seja explicada: Propaganda política é sinônimo de festa para lavar o cérebro das massas. Como aquelas marchichas disparadas em caminhões de som e grupos que tocam canções ao vivos para enaltecer a imagem do político - o que é extremamente necessário num mundo regido pelas aparências, onde cada idéia não parece ter um mínino valor em frente com aquilo que pode ser visto.

Montagem de Electioneering realizada por fãs, mas que expressa bem o significado da letra.

I will stop
Eu vou parar
I will stop at nothing
Eu vou parar por nada.
Say the right things
Diga a coisa certa
When electioneering
Quando estiver fazendo propaganda política
I trust I can rely on your vote
Eu confio eu posso confiar em seu voto.

When I go forwards you go backwards
Quando eu vou em frente você vai para trás
And somewhere we will meet
E em algum lugar nos encontraremos.

Riot shields
Proteções de revoltas,
Voodoo economics
Economia de vodu
It's just business
São só negócios,
Cattle prods and the IMF
O gado estimulando o f.m.i.
I trust I can rely on your vote
Eu confio eu posso confiar em seu voto.

A seguir, Climbing Up The Walls.