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Nada é Certo, Tudo é Possível

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O Semáforo ou O Sinaleiro

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Verde

Ele amava ela. Como o diabo ama o pecado,
Como o sol que combina com o dia e
Como a lua que combina com a noite,
Como os anjos amam a verdade e
Como Deus ama as suas criaturas.
Ela amava ele. Os dias passam devagar,
O fim-de-semana não chega e
A saudade rebenta com o coração.
É tanta paixão que o corpo não agüenta e
Os olhos transbordam para o oceano do amor.
Eles estão apaixonados. Só existem os dois,
O mundo já não cabe dentro de si,
Nem aqui, nem ali, já não têm mais amigos.
Para quê amigos? Um tem ao outro e nada mais,
Ou eles vivem juntos ou morrem agarrados.

Amarelo

Ele gostava dela. Ele vai jogar o seu futebol,
Tomar uma cerveja com os amigos - Ah bons amigos!
Carro no lava - rápido, no boteco uma sinuca vai bem.
Um filme do Rambo para matar o sábado a tarde,
Domingo vai ao estádio assistir o Corinthians.
Ela gostava dele. Vai cochichar com a sogra e
Fazer a unha na casa da comadre, preparar um bolo,
Ficar 45 minutos no telefone com a mamãe.
Depois vai ao supermercado perder o seu dia,
pois Domingo é dia de Faustão e Silvio Santos.
Eles se gostavam. Levavam os filhos para a escola,
Trabalham o dia inteiro, de noite ela na cozinha e
Ele na sala vendo televisão, as crianças brincam.
Ela assiste à novela no quarto, ele toma uma bebida,
Enquanto ela toma banho ele já está dormindo.

Vermelho

Ele odeia ela! Já passa da meia-noite
Quando ele chega em casa - Estava tão cedo!
Aquela coisa horrenda em sua cama, que cena!
A comida estava fria, assim não dá, no que diz
"Eu nunca te amei, maldição de minha vida"!
Ela odeia ele! Lá vai um sapato pela janela,
Livros arremessados e chuva de palavras feias,
Gritos estridentes, escândalo na vizinhança.
O pôster do brasileirão de 2000 está rasgado e
Ela finca os seus dentes no braço dele.
Eles se odeiam! "Não sei como suportei um gordo
Feio e fedido como este na minha cama cheirosa!"
"Este relacionamento já foi tarde, baranga chata,
Ciumenta e infeliz! Vou para a casa de minha mãe!"
Ele diz: "Acabou..."; ela completa: "...de vez!"

Porém...
... o importante é que depois de um tempo vermelho
O semáforo fica verde novamente. Eita vida ingrata!

In Bruges: Outra Pérola Existencialista

sábado, 28 de junho de 2008

Dois assassinos ingleses, após um trabalho mal sucedido, são enviados à Bruges - cidade da Bélgica - para aguardarem novas instruções sobre como procederem. Esta é a trama básica desta comédia trágica. Todo o restante da história é o vislumbre da perspectiva dos criminosos em relação à pacata e paradisíaca Bruges.

De um lado temos o jovem e agitado Ray, interpretado por Colin Farrel, que odeia toda a monotomia da cidade, além de não enxergar nada de belo em seus pontos mais impressionantes. Do outro lado temos Ken, interpretado por Blendam Gleeson, homem mais velho, calmo e dotado de grande cultura que sabe como apreciar a beleza mais íntima de uma paisagem ou construção antiga.

É na complexidade dos personagens, assim como nas aventuras a qual são expostos e que demonstram o verdadeiro ser interior de cada um, que encontramos uma possibilidade de análise de um dos melhores lançamentos deste ano.

Contém SPOILERS. A partir deste ponto, irei retomar pontos importantes de compreensão do filme. Sendo assim, se você ainda não viu o filme, pare por aqui e assista primeiro.

Ray é um jovem perturbado. Logo no início do filme ele se encarrega de menosprezar a cidade e os seus turistas. Acha tudo um grande tédio e não vê possibilidade alguma de se divertir. Ao seu lado, Ken está encantado. Tenta demonstrar toda a mágia do local para Ray, contando a história de cada local e a importância que a cidade teve no passado, porém Ray não se satisfaz, o que o deixa ainda mais inquieto.

Dado momento, os dois estão numa catedral e Ken, respeitosamente, diz que ali a história conta que num artefato temos o sangue de Cristo e que ele não poderia deixar de ir lá tocar o artefato. Depois de toda a explicação, visivelmente excitado por aquele momento, pergunta se Ray não quer ir com ele. Ray, indiferente, questiona se é obrigatório o toque no sangre de Cristo. Ken se irrita.

Isto demonstra que Ray é uma espécie de homem bruto. Está preocupado em beber e conquistar mulheres. Já Ken é o contraste disto tudo. Mesmo no hotel, ele nunca está sem um livro por perto.

Logo iremos saber que Ken e Ray, enquanto estavam na Inglaterra, participavam de um trabalho sujo sobre encomenda de seu chefe Harry - interpretado por Ralph Fiennes -, porém Ray matou, acidentalmente, um pequeno garoto que estava no local e recebeu uma bala perdida. Foi Harry que mandou os dois para Bruges até que ele resolvesse como iria acertas as coisas,

Uma das grandes aflições de Ray é justamente ter que conviver com o fantasma do garoto assassinado. Este duelo de sua consciência é algo extremamente belo. Ray não consegue deixar de pensar na morte do menino. Talvez este seja o motivo de tanta perturbação e inquietação. Ele quer fazer algo, mas não há mais o que fazer. Por isto mesmo ele chora constantemente, as vezes em silêncio, as vezes no ombro de Ken, que funciona como uma espécie de pai ao se comover com o sofrimento do jovem. Ken está sempre encobrindo suas trangressões e seus desvios. Sempre tentando lhe apoiar. Porém é muito difícil suportar a vida.

Até aqui temos dois pontos interessantes: 1) o garoto assassinado, que só entra na história para morrer; 2) o homem sujeito as tragédias do acaso e sua impotência diante da vida.

No primeiro caso, temos uma demonstração de quão absurda pode ser a vida. O garoto morre com uma bala perdida enquanto estava na catedral rezando por seu Deus, ou seja, diante da proteção Daquele que ele tem como mais seguro e confiável, na casa de seu Protetor. Homem algum espera ser acometido por uma fatalidade proveniente de uma força maligna num ambiente sacro de forças divinas. Por se tratar de um garoto, precisamos somar o fator da ingenuidade do ser em depositar todas as suas confidências num Ser que está num plano dirente do seu, que reside numa outra camada que é desconhecida para ele. E então acontece dele morrer, prematuramente, da forma mais inesperada possível. Podemos entender que neste caso não encontramos justiça no divino, como prega a maior parte das casas de fé.

No segundo caso, o homem está sujeito ao acaso. Ray não esperava matar uma criança, porém matou por irônia da vida. O absurdo consiste em ele tomar a culpa para si - ao invés de condenar a má sorte e o próprio conjunto de regras aleatórias da vida - graças a impossibilidade de desfazer algo que foi feito, ainda que de forma involuntária. O homem se sente desprezado, incapaz e impotente, pois nada depende de si, e sim da sorte.

Após alguns eventos, Harry liga para Ken e lhe relembra algumas regras, pois embora sejam assassinos, os criminosos também têm o seu próprio código de ética e moral: "Nós não matamos crianças. Você conhece a punição para aqueles que matam os pequeninos". Harry ainda pergunta: "Você sabe se Ray está gostando da viagem? Pois gostaria de proporcionar um ultimo prazer a ele antes de morrer".

Ken fica transtornado e não sabe exatamente como vai fazer o que lhe foi ordenado. Porém Harry tinha razão: regras foram feitas para serem cumpridas. Por isto ele até mesmo arquiteta um plano, porém na hora de executar ele não consegue: quando ele encontra Ray, o mesmo está com uma arma na cabeça, prestes a se suicidar. Ken consegue interromper a tempo, de tal modo que Ray chora bastante. Ele tem desejo de morrer, a vida não tem mais nenhum sentido.

Ken conta sobre o plano de Harry para matá-lo e sugere que ele fuja para outro país. Ele até embarca num trem para outro país, porém, por alguma razão, ele decide voltar a Bruges. Paralelamente, Ken liga para Harry e diz que ele não cumpriu a ordem, deixou Ray livre e disse que estaria esperando por ele na cidade. Harry, visivelmente irritado, na mesma hora embarca para Bruges para punir Ken.

Neste trecho, um ponto é intrigante: porque será que Ray resolveu voltar? Possivelmente ele não gostaria de viver como um foragido, numa outra cidade que ele nem mesmo conhecia. Para ele, era preferível a morte do que viver uma vida tão inautêntica, já que ele jamais iria poder voltar a Inglaterra, seu país natal. Além disto, seu único amigo esta em Bruges, além de uma nova paixão que talvez lhe desse uma razão para viver. Todavia, este estado que Ray alcançou não lhe causava mais nenhum medo e todos os riscos eram válidos.

Harry chega a cidade e logo encontra Ken. Este faz uma declaração apaixonada por tudo o que Harry fez por ele ao longo de sua vida, mas que ainda assim decidiu dar uma segunda chance para Ray, de modo que entregava a sua vida para o julgamento de Harry, que se emociona com o depoimento de Ken e apenas lhe dá um tiro na perna (para que o erro não passe despercebido). Porém logo chega a notícia que Ray está na cidade, então Ken tenta deter Harry. Mas, como se sabe, regras são regras e Ken acaba sendo assassinado justamente por tentar obstruir que Harry fosse até Ray.

Tão logo Harry encontra Ray, começa uma perseguição pelas ruas. Harry sai atirando em direção à Ray e acerta diversos disparos. Ao aproximar do corpo, percebe que também atingiu a cabeça de uma pessoa com o corpo pequenino. Ao obedecer o seu próprio código de ética e conduta, Harry se suicida com um tiro na cabeça em sinal de auto-punição. Porém, o que ele não sabe, é que o corpo não era de uma criança, e sim de um anão que passava por ali.

Mais pontos de discussão: Um anão, que não tinha nada a ver com nada, morreu de forma inesperada, assim como a criança que Ken havia assassinado; A lei é maior do que o próprio homem, por isto mesmo até o seu legislador é passível de punição; Harry se mata antes mesmo de saber quem ele havia matado. Se estivesse esperado um pouco mais, saberia que quem havia morrido não era uma criança, mas sim um homem. Ou seja, sofreu as consequências da irônia da vida, que dá risada de quão patético é o homem ao querer fazer as coisas certas.

Ao término do filme todos estão mortos. E qual é o sentido de tudo? Novamente todas as vidas não tem nenhum significado. O significado reside nas leis e nos objetos, que dizem como devemos viver e nos portar. Nós mesmos não temos opções, a não ser se sujeitar as regras deste jogo desonesto.

Quem assassina o roteiro e a direção desta pérola é o competente Martin McDonagh e como forma de demonstrar o quão desastrosa e inútil pode ser uma vida, In Brugues é um espetáculo imperdível! Confiram!

Baudrillard: O Sistema de Valor do Objeto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Em seus primeiros livros, como O Sistema dos Objetos e A Sociedade do Consumo, Baudrillard foca, principalmente, no consumismo e como diferentes objetos são consumidos de diferentes maneiras. Naquele período, a visão política de Baudrillard já estava perdendo a associação com o Marxismo (e o situacionismo), mas nestes livros ele difere de Marx de maneira significativa. Para Baudrillard, era o consumismo, mais do que a produção, que guiava a sociedade capitalista.

Baudrillard chegou a esta conclusão ao criticar o conceito de valor de uso de Marx. Baudrillard pensava que tanto Marx como Adam Smith - grandes pensadores da economia - argumentavam, simplesmente, sobre a idéia de necessidades básicas relacionadas com o uso essencial. Ele argumenta, a partir de Georges Bataille, que as necessidades são criadas, ao invés de serem inatas. Marx acreditava que por trás do uso básico se encontrava o fetiche de "commodities" capitalista, porém Baudrillard pensava que tudo aquilo que é comprado, justamente porque sempre significam alguma coisa na sociedade, tem seus próprios fetiches. Conforme ele escreve, influenciado por Roland Barthes, objetos sempre dizem alguma coisa sobre os seus compradores. Para ele o consumismo é mais importante do que a produção porque o gênesis ideológico das necessidades precede a produção de bens que satisfaçam estas necessidades.

Ele escreve que há quatro maneiras de um objeto obter valor:
1) Valor funcional de um objeto; o seu propósito instrumental. Uma caneta, por exemplo, escreve, e um refrigerador gela. O conceito de "valor de uso" de Marx é muito similar a este tipo de valor.
2) Valor de troca de um objeto; o seu valor econômico. Uma caneta pode valer três lápis, e um refrigerador pode valer o salário ganho em três meses de trabalho.
3) Valor simbólico de um objeto; um valor que o sujeito atribui para um objeto na relação com outro sujeito. Uma caneta pode simbolizar um presente de graduação da escola, ou um anel de diamantes pode simbolizar uma declaração pública de amor num pedido de casamento.
4) O valor de signo de um objeto; o seu valor dentro de um sistema de objetos. Uma caneta pode, mesmo que não tenha nenhum benefício funcional, significar prestígio em relação à outra caneta. Um anel de diamantes pode não ter função como um todo, mas pode demonstrar valores sociais, como status e classe social.

Os primeiros livros de Baudrillard se preocupavam em argumentar que as duas primeiras maneiras de obter valor não estavam simplesmente associadas, mas de certo estavam corrompidas pela terceira e, particularmente, pela quarta maneira. Posteriormente Baudrillard rejeita totalmente o marxismo. Porém o foco na diferença entre valor de signo e valor simbólico estava presentes em sua obra até a sua morte. Com efeito, ambos os conceitos foram ganhando mais importância, principalmente em seus escritos a respeitos dos acontecimentos no mundo.

O Objeto Dominador: Cenas de Hiperconsumo

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Vamos analisar a letra da bélissima canção interpretada por Zeca Baleiro:

Você Só Pensa em Grana
Raimundo Fagner - 2002

Você só pensa em grana meu amor
Você só quer saber
Quanto custou a minha roupa
Custou a minha roupa

Você só quer saber quando que eu vou
Trocar meu carro novo
Por um novo carro novo
Um novo carro novo meu amor

Você rasga os poemas que eu te dou
Mas nunca vi você rasgar dinheiro
Você vai me jurar eterno amor
Se um dia eu comprar o mundo inteiro

Quando eu nasci um anjo só baixou
Falou que eu seria um executivo
E desde então eu vivo com meu banjo
Executando os rocks do meu livro
Pisando em falso com meus panos quentes
Enquanto você ri no seu conforto
Enquanto você me fala entre dentes
Poeta bom meu bem poeta morto.

Esta canção retrata com muita propriedade uma sociedade do consumo sobre influência da máquina. Temos, em primeiro lugar, o objeto como referência de felicidade, status e bem-estar. O objeto é colocado na frente do próprio homem, que se sujeita as condições do objeto.

Na relação entre sujeito (aquele que conhece) e objeto (aquele que é conhecido) percebemos uma influência direta no comportamento que exercem cada uma das partes, porém em nossa sociedade contemporânea o que podemos observar é um novo modelo onde o sujeito se transforma, num processo de corrupção, devido à influência do objeto. Desta vez temos o objeto no controle nas relações de poder.

Na música temos a humanidade trocada pelo conforto que os objetos proporcionam. Neste caso, temos o dinheiro acima de qualquer coisa, como única meta e com singular relevância. O quanto uma pessoa pode lhe amar pode ser medido através da quantidade de riquezas adquiridas. Logo, quanto mais dinheiro e mais novo o seu carro, mais você é amado.

O intelecto e a sensibilidade são artefatos desprovidos de significação na sociedade do consumo, justamente porque estes atributos não têm vez entre pessoas que enxergam no dinheiro o remédio para a cura de todos os males. Pois, como finaliza, a música "poeta bom é poeta morto".

Guerra Civil: A Batalha das Vizinhanças

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ontem, lastimavelmente, um colega teve o seu veículo danificado enquanto trabalhava. O veículo estava na rua, justamente pela carência de vagas em estacionamentos pagos, sendo que a empresa não tem espaço para fornecer estacionamento próprio. Enfim, este foi mais um ato de vandalismo praticado pela vizinhança, o que está se tornando frequente na região.

Há pouco menos de dois meses, o meu veículo foi riscado profundamente entre a porta da lateral direita até o farol dianteiro. Dias antes, um outro colega teve os seus quatro pneus murchados. Tudo na mesma região. Afinal, o que está acontecendo?

É sábido por todos que a construção da uma empresa com capacidade para 2000 funcionários em uma área residencial não é bem-vinda pelos moradores. O movimento aumenta na região, carros circulam com maior frequência, enfim, todos os problemas que uma empresa pode gerar ao se instalar numa área pacata.

Enfim, os funcionários da empresa, que se locomovem de suas residências para o seu local de trabalho nos seus próprios veículos, precisam estacionar o carro na rua. A maior parte dos vizinhos se irritam com um carro parado em frente a sua casa (mesmo que não estejam em guia rebaixada ou em frente a uma garagem) e acabam por cometer estas barbáries, como riscar o carro e furar o pneu. Como agravante, nestes casos, estamos falando de um bairro nobre.

Isto acontece devido a ignorância e egocentrismo das pessoas residentes desta região, salvo algumas exceções, que não conseguem - não querem - entender que os carros que estão parados em frente a sua casa são de pessoas que estão trabalhando e estão ali por falta de uma melhor opção. São trabalhadores que estão na batalha e na luta pela sobrevivência neste sistema sujo a qual estamos sujeitos. São pessoas que compram um veículo em inúmeras parcelas e que destinam parte de sua renda para ter a possibilidade de trabalhar, e que tem o seu bem danificado pela mesquinhes de alguns que só conseguem olhar para dentro si.

Esquecem que no mundo há outras vidas, e não somente a sua, e que ali estão homens e mulheres que deixam a sua família para buscar o sustento e não deixar faltar as coisas em casa. São pessoas que precisam, em sua grande maioria, do dinheiro, caso contrário não precisariam passar pela humilhação de todos os dias em seu ambiente de trabalho. Tenho certeza que se estas pessoas tivessem a possibilidade de escolha, iriam preferir ficar com os seus filhos em casa.

Gente, não há lugar no mundo para esta escória nojenta de pessoa imundas que tentam intimidar o cidadão em seu direito com ameaças tão fúteis. Este tipo de transgressão é um crime contra o patrimônio privado. Estão danificando um objeto que tem proprietário e isto configura uma atitude criminosa. Não há diferença entre um estuprador psicopata e uma pessoa que comete este tipo de vandalismo quando se trata de violação dos direitos.

Ninguém esta pedindo que façam alguma, mas seria muito bom se simplesmente não fizessem nada. Afinal qual é o sentido destes atos? Quem irão impressionar? Será que seus filhos estão sendo bem educados ao saber que os seus pais riscam o carro de quem para em frente a sua casa?

Vamos em frente, meu povo! Vamos caminhar em direção ao progresso! Para trás não dá mais...

Mad World: Música Para Refletir

terça-feira, 24 de junho de 2008

Dentre os diversos meios disponíveis a música é uma das grandes fontes de reflexão existencialista. Afinal, quantas vezes você não escutou uma canção que lhe deixou por horas pensativo? A música é responsável, em muitas ocasiões, por fazer com que transitemos nos mais diversos universos presentes em nosso interior.

Eu mesmo costumo dizer que existe uma canção para cada momento de sua vida. Sempre há uma trilha sonora que acompanha cada acontecimento no decorrer dos seus dias. Afinal, a música tem a propriedade de alterar o nosso estado de ânimo e de manipular os nossos sentimentos: às vezes sorrimos, as vezes choramos, podemos vislumbrar como as coisas poderiam ter sido ou planejar como elas deverão ser.

Enfim, música sempre foi uma inspiração para as minhas reflexões, e até então eu nunca havia escrito nada a respeito. Sendo assim, faço justiça e farei a análise de uma das canções mais existencialistas que já ouvi, e que se enquadra perfeitamente na atual fase deste blog: se trata da canção "Mad World" do Tears For Fears, banda inglesa dos anos 80.

Posteriormente a música ganhou um cover extremamente bonito pela dupla Michael Andrews e Gary Jules. Este cover está disponível na trilha sonora de Donnie Darko, velho conhecido deste blog, e é executada na cena final do final. Segue letra e o vídeoclip abaixo (na seqüência tem a tradução para o português):


"Mad World"

All around me are familiar faces
Worn out places, worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere, going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression, no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tomorrow, no tomorrow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very
Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday, Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen, sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me, no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me, look right through me


-.-.-.-

Tradução: "Mundo Louco"

À minha volta são todos rostos familiares.
Lugares desgastados. Rostos desgastados.
Claro e cedo para suas corridas diárias
indo a lugar nenhum. Indo a lugar nenhum.
E suas lágrimas estão enchendo seus óculos.
Sem expressão. Sem expressão.
Escondo minha cabeça, quero afogar meu sofrimento.
Sem amanhã. Sem amanhã.

E eu acho isso meio cômico.
E eu acho isso meio triste.
Os sonhos nos quais estou morrendo são os melhores que eu já tive.
Eu acho difícil te dizer
porque acho difícil de entender.
Quando as pessoas andam em círculos é
um mundo muito, muito louco.
Mundo louco. Mundo louco.

Crianças esperando pelo dia quando se sentem bem:
feliz Aniversário. Feliz Aniversário.
E eu me sinto do jeito que toda criança deveria
sentar e escutar. Sentar e escutar.
Cheguei à escola e estava muito nervoso.
Ninguém me conhecia. Ninguém me conhecia.
Olá, professora, diga minha lição.
Olha através de mim. Olha através de mim.


-.-.-.-

Basicamente temos o sentimento e o olhar de uma pessoa que se deu conta que foi arremessada no mundo e que reconhece que sua existência não tem nenhum sentido. Esta angústia faz com que o interlocutor busque o seu lugar no mundo, porém ele sabe que está sozinho e que nada poderá fazer com que as coisas mudem, pois este é um caminho que não tem volta. Quando você descobre a solidão e o insignificado da vida, não há mais como se enganar com falsas promessas ou falsas ilusões. Sendo assim, existir não é mais do que um grande gracejo da vida. No meio de tanta ironia, suportar tantas mentiras e sobreviver é mais do que uma vitória.

Na primeira estrofe, o interlocutor vislumbra um mundo de marionetes: todas as pessoas são iguais e estão trancafiadas em sua própria rotina. Estão sempre com pressa para fazer coisas que não dizem respeito a vida, que não tem tempo para planejar e executar projetos pessoais e que realmente importam. É como uma espécie de zumbis que não se dão conta que a vida está acontecendo enquanto eles avançam para lugar algum, a não ser a inevitável morte, cujo afazeres irão acelerar o tempo perdido para que a vida seja desperdiçada. Toda alegria e toda a tristeza de uma pessoa que está acorrentada dentro do sistema são falsas: não há alegria e nem tristeza autêntica, porém isto mesmo seus rostos são sem expressões verdadeiras.

Quando o interlocutor tem ciência destes acontecimentos, é difícil continuar a viver, pois este é um mundo que aprendemos a gostar e odiar, de certa maneira nos apegamos a ele e também nos apegamos às pessoas que estão presas dentro dele, por isto há um grande sofrimento. Gostaríamos que as pessoas também pudessem enxergar uma parcela do que enxergamos, de tal modo que pudéssemos não nos sentir tão sozinhos. Porém, sabemos que isto é impossível. Cada um acha o seu próprio caminho. A dor fará com que questionemos a vida. Este é uma das grandes questões existencialistas: Se a vida é dor, porque continuamos a viver? Não seria mais fácil dar um basta em tudo? Haverá diversas respostas para este tipo de pergunta, porém o ser é sempre voltado para o amanhã. De certa maneira esperamos que amanhã este sentimento passe e que voltemos a nos distrair com as coisas intramundanas, de tal modo que tudo fique mais fácil. Ou seja, colocamos a nossa esperança em deixar de viver uma vida autêntica para viver uma vida irreal. Sim, isto é um absurdo, porém quantas vezes, quando você está cada vez mais perdido dentro de si, não se lamenta de como é difícil ser você? Posteriormente iremos tentar pegar um modelo ideal de pessoa, seja no mundo ou seja no imaginário, e iremos traçar um objetivo para nos transformarmos em tal modelo.

Ao mesmo tempo em que este absurdo parece cômico, também é muito triste, como diz a segunda estrofe da música. Neste caso, a morte, como já citado acima, surge como opção para aliviar a angústia, afinal nada do que possamos fazer ou dizer irá mudar as coisas. A existência em si é tão insana que não há como saber nada a respeito do futuro: a mesma mensagem que você escreve chega diferente, ainda que com o mesmo significado, nas mais diversas pessoas. Pois, conforme o título da canção, este é um mundo muito louco.

Veja só: temos dias para sermos felizes. Segundo o calendário do sistema, que controla o tempo, são nas datas festivas como no natal, no aniversário, no ano novo, na páscoa, no dia dos namorados, no dia das crianças, no carnaval, e em tantos outros, que orientamos os nossos planos. São algumas vezes ao ano que sorrimos, como uma caveira mostrando os dentes, sem que haja motivos para sorrir. Simplesmente sorrimos e ficamos felizes, sem significação alguma.

Fatalmente, quando nos vemos desta forma, podemos ver que há um mundo de infinitas regras que levam o homem a se distanciar de si. Por isto nos tornarmos invisíveis aos olhos de quem nos vê, final falamos do lado de fora, no mundo exterior, e nem sempre somos ouvidos ou vistos.

No final há uma súplica: olhe através de mim. Olhe para dentro de mim, afinal aqui há uma pessoa que se sente muito sozinha e que não tem forças para continuar a viver os dias como se todos fossem iguais.

Posteriormente iremos pegar outras letras de canções para refletirmos, viajarmos e analisarmos com todo o cuidado que cada composição e melodia necessitam. Sugestões são bem-vindas.

Até a próxima!

Uma Imagem: O Deus-Dinheiro

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Conseguimos, finalmente, um retrato vivo de uma das diversas facetas da máquina com seus modelos geradores de hiper-realidade (Se você não sabe o que significa o conceito de máquina para os meus posts, basicamente podemos resumir como a grande entidade controladora de todo o sistema a qual estamos condenados. Para saber mais, clique aqui):



Consigo entender porque tantas pessoas esvaziam os seus bolsos na igreja. Afinal, a igreja é um simulador de ultima geração de modelos de família, felicidade, conforto, amizade, confraternização, apego, esperança, salvação e o maldito perdão. Porque temos que errar? Porque não podemos ser perfeitos? É errado pensar que todas as vezes que cometermos um erro, basta se arrepender para que uma entidade superior a nós mesmos nos perdoe. Sim, após perdoados estamos livres para errarmos de novo. Assim basta pedir perdão novamente. E assim o ciclo caminha infinitamente. É interessante que continuemos errando, pois o perdão e a redenção são muito lucrativos para a máquina.

Enquanto você estiver andando torto no fio-da-vida, a igreja sempre estará disponível para lhe atender - lhe salvar - e assim temos um clube em ascensão de "fiéis" (uma pessoa fiel à igreja também é fiel ao erro). A igreja lhe impõe tantas regras, que dificilmente você não deixará de cumprir alguma. Quando isto acontecer, lá vai você para a igreja novamente "comprar" o teu perdão.

Este "perdão" é dado por uma entidade que não há como provar a real existência a não pelo artifício da crença. Porém o teu erro é real e provavelmente ele magoou alguém. É mais fácil pedir perdão para alguém que não irá lhe repreender do que encarar os fatos. Este é um alívio muito grande e a porta dos pecados pode continuar aberto.

Porém saiba que não há como apagar o passado. O que está feito está feito. Por mais que a(s) pessoa(s) que você atingiu lhe perdoem, algum resquício ainda fica. Deixe lhes contar uma história, através de uma pequena experiência, que um dia eu ouvi de outro alguém:

Pegue um papel liso, como uma folha sulfite. Este papel representa a pessoa que você mais gosta. Agora pegue o papel e amasse bastante, como uma "bola-de-papel". Este gesto representa o seu erro e a forma como a pessoa foi atingida. Desamasse a "bola-de-papel" e tente deixar-la lisa novamente. Isto representa o perdão. De alguma maneira, a pessoa fica marcada para sempre e não há mais nada que você possa fazer.

Por isto é importante fugir destas instituições de fé e que você viva cada dia intensamente, que o teu encontro seja consigo mesmo, pois a vida existe aqui, isto é um fato. Pode ser que exista também no além-mundo, mas isto é apenas uma hipótese que não deve ser considerada agora. Se houver outra vida, vamos viver ela quando chegar o tempo certo. O que importa, neste momento, é esta aqui que vivemos.

O mundo está cada vez mais enfraquecido. É preciso, então, que cada pessoa se conscientize de seu lugar no mundo, assim como se responsabilizar pelas suas atitudes diante do mundo, seja para o bem ou seja para o mal.

Sabendo disto, não dá mais para ficar enriquecendo este sistema corrupto e sujo que é a igreja. Se você acredita na existência do divino e nas obras do mesmo, que o cultue dentro de sua residência, em silêncio, respeitando assim os seus vizinhos, colegas, amigos e entes queridos. Deus não precisa de obreiros e pessoas que evangelize a sua mensagem, afinal ele é Deus e não depende de nós. Se você precisa dele, converse com ele a sós. Não precisa gritar por sua clemência e nem precisa colocar um caminhão de som no meio da rua, pois Deus não é surdo. Não precisa demonstrar sua religiosidade para o mundo inteiro, pois Deus, ao que me consta, sabe de todas as coisas.

Eu mesmo não sou ateu. Sou agnóstico e tenho Deus como possibilidade. Porém tenho certeza que este Deus-feito-a-mão que tanto se fala na igreja não existe. Sua existência seria mais absurda do que a própria vida. Não faz sentido que ele exista nestes moldes, pois de alguma forma teríamos que admitir que ele erra constantemente, além de nos ter abandonado para viver no livre-arbítrio (cônscio que somos suscetíveis ao erro constante e que aqueles que pagam o pato são sempre os inocentes). Isto sempre será negado pelas igrejas.

Esta espécie de Deus é o Deus-Dinheiro, atributo da máquina e movimentadora de capital. Para entender melhor, basta substituir a palavra "Máquina" por "Deus" (e/ou vice-versa) e teremos o mesmo objeto que venho criticando desde o início deste blog.

Para finalizar, uma crítica em forma de imagem que utiliza um excelente slogan para a máquina:

Donnie Darko - Uma Análise: Parte VI

domingo, 22 de junho de 2008

Olhar de Foucault: Instituições de Ensino e a Domesticação do Sujeito

Donnie vira uma espécie de celebridade entre os seus colegas da escola: Donnie Darko, o homem que fugiu da morte.

O que vem a seguir é, uma vez mais, o retrato pintado de uma sociedade medíocre e padronizada, só que desta vez, a crítica é feita para as instituições de ensino. Todo o palco está armado: A aluna gorda que é motivo de sátira por parte de seus colegas, a turma dos que fumam escondido de seus pais, os garotos brigões que estão na escola apenas para provocar e arrumar confusões, as patricinhas que ficam se maquiando, as cheerleaders treinando em pleno pátio da escola, os nerds que estudam isolados em sua própria companhia, o professor que se acha o bonitão entre seus colegas, o palestrante que se considera uma estrela que brilha mais do que o próprio sol e a professora idealista de cara fechada.

A tomada de câmera, ao sair de dentro para fora da escola, flagra uma luz ofuscante do lado de fora. Metaforicamente, isto pode significar algumas coisas. Particularmente sou adepto da teoria em que a vida acontece fora dali, fora daquelas instituições geradoras de padrões. Michel Foucault irá dizer que estas instituições são responsáveis de educar as pessoas, assim como faz as prisões para os criminosos. Existe uma série de terminologias em comum na escola e na prisão que irão dar consistência ao nosso argumento: inspetor, grade, disciplina, delegado, educação, pátio, etc. A disposição das duas também são semelhantes salas fechadas que lembram celas, horários rígidos e inflexíveis, O objetivo é um só: disciplinar. Tornar um ser temeroso, amedrontado. Como diria Foucault, tornar os homens "seres domesticados úteis ao sistema".

A luz representa o contraste de tudo isto. É a oposição à domesticação do homem. É a vida que reside fora destas máquinas simuladoras de padrões, que permite que estejamos atentos ao que acontece de verdade no mundo real que está por trás de todos estes vislumbres de realidade.

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Gregor Samsa e Família

sábado, 21 de junho de 2008

"(...) ninguém queria ficar sozinho em casa e não se podia de maneira alguma abandonar totalmente o apartamento. Logo no primeiro dia a empregada pediu de joelho à mãe que a dispensasse imediatamente do emprego, e quando, um quarto de hora depois, se despediu, agradeceu em lágrima pela dispensa, bem como pelo grande favor que ali lhe faziam(...)"

A Metamorfose, principal obra do escritor theco Franz Kafka, retrata a transformação de Gregor em um inseto repugante e, consequentemente, a transformação de toda a sua família para se adequar a nova realidade.

Gregor Samsa é um jovem que sustenta a sua família como "caixeiro viajante" que, da noite para dia, inexplicavelmente se transforma em um inseto. Primeiramente sua família estranha o fato de Gregor não sair de seu quarto para ir trabalhar - visto que ele sempre foi pontual. Eles batem na porta, tentam contato com Gregor, porém não escutam nada. Gregor até tenta se comunicar, porém sua voz não sai de forma que eles possam entender.

Em sua condição de inseto, ele não tem muito o que fazer. Logo o seu chefe imediato também comparece a casa dos Samsa para saber o que está acontecendo - pois Gregor ainda não havia chegado ao trabalho. Na falta de justificativas, decidem derrubar a porta e então se deparam com o inseto asqueroso, o que faz com que, no espanto e na surpresa, seu pais acabe por feri-lo com uma bengala para que o inseto não consiga sair do quarto.

Posteriormente, sua irmã passa a alimentá-lo, evitando sempre que possível o contato visual com o irmão. Seus pais não o vêem. Devido a sua condição, ele não mais pode trabalhar, o que força com que o pai tenha que voltar a trabalhar. Sua irmã, de 17 anos, também é obrigada a trabalhar. A mãe passa a costurar. Para complementar a renda, eles também passam a alugar alguns quartos disponíveis de seu apartamento.

Na primeira vez que sua mãe o vê, de forma acidental, ela acaba por desmaiar e seu pai, irritado com o fato, arremeça maçãs em Gregor, de modo que ele acaba gravemente ferido. Só não morre porque sua mãe acorda a tempo para impedir o pai de cometer um assassinato.

Logo eles se readaptam e esquecem a importância de Gregor na família. Ele é visto apenas como uma espécie de animal indesejado de estimação. No primeiro incidente, que é quando Gregor sai do quarto e acaba indo para a sala, espantando alguns inquilinos que estavam por ali naquele momento, a sua irmã, assim como o seu pai, decidem botar uma basta na situação, visto que o inseto apenas atrapalhava a vida de todos eles.

Decidem, enfim, matá-lo.

Há diversas leituras possíveis para a obra: você pode ler como uma crítica ao desemprego, onde de uma hora para a outra, uma família inteira precisa se reestruturar, mesmo que isto custe sonhos e interrompe planejamentos, para sobreviver em nosso mundo. Nesta caso a familia tinha uma vida boa: o pai apenas curtia sua aposentadoria e a irmã vivia os seus dias apenas estudando. Inesperadamente, devido a perca da renda do principal mantedor, eles perdem tudo. Há uma metamorfose implicita nesta leitura.

Isto graças ao absurdo da vida que, inesperadamente, brinca com a sorte dos homens. Isto é conhecido, na arte medieval, como a roda da fortuna, onde os homens podem estar, a qualquer momento, por cima ou por baixo, em ascensão ou queda, de forma aleatória e inexplicável.

La Roue de la Fortune. Calque de Miniatures de l’Hortus Deliciarum de Herrade de Landsberg.
Paris: Bibliothèque Nationale de France (Dept. Estampes Ad 144 a)


Uma outra leitura possível ocorre na metamorfose dos sentimentos de Gregor com sua família, e no de sua família com Gregor. No primeiro caso, Gregor se envergonha com a situação, sente pena da família, visto que eles são dependentes de sua renda. Mesmo em seu estado, ele faz planejamento para tentar voltar ao seu cargo. Ele se culpa por não conseguir manter o padrão de vida. Sente compaixão de sua irmã por ser a única que cuida dele naquele estado. Também entende porque a sua família não comparece para lhe visitar, ele mesmo se escondia para não ser visto, uma vez que sua imagem poderia causar repulsa em seus entes.

Gradativamente, ele passa a ter raiva de sua família: nunca se importam com a qualidade dos alimentos que ele está digerindo. Logo eles param de arrumar o seu quarto e deixam ele na imúndice. Surge a mágoa pela falta de retribuição do que ele fez durante a sua vida para eles. Nunca deixam ele sair do quarto. Logo, há uma transformação psicológica - além da física - em Gregor.

Na família, tão logo eles se readaptam, não vêem mais a necessidade da existência de um Gregor Samsa inseto e decidem dar cabo de sua vida.

É por estas e outras razões que é comum associarmos o termo kafkiano com palavras como absurdo e incompreensão, pois as coisas não fazem muito sentido no decorrer de nossa vida. A aceitação desta idéia, possivelmente, pode fazer com que sofremos menos a cada golpe inesperado que a sorte pode nos aplicar.

Clarice Lispector: A Ultima Entrevista

Disponibilizo neste blog os vídeos que contém a ultima entrevista de Clarice Lispector para a televisão, que foi concedida ao programa Panorama, em 1977, e realizada pelo jornalista Julio Lerner.

Percebam que Lispector é decidida em suas palavras, fala sem vacilar. Simultaneamente, seu olhar preocupante é o de uma pessoa angustiada.

Quando esta entrevista foi ao ar, ainda não havia sido lançada a sua obra-prima "A Hora da Estrela", porém Lispector, quando questionada sobre seu próximo livro, está dando pistas exatamente sobre este romance, ainda que se recuse a detalhar a trama.

Enfim, não há muito o que dizer. Apenas se deliciem e aproveitem este que é um dos únicos registros para a televisão de nossa inestimável Clarice.

Obs. O vídeo tem a duração de, aproximadamente, 40 minutos divididos em cinco partes.

1º Parte


2º Parte


3º Parte


4º Parte


5º Parte

A Paixão Segundo o Hiperconsumo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Como dito anteriormente, a máquina é responsável pelos mais modernos sistemas geradores de padrões e realidades. Antigamente, no mundo pré-máquina, o homem apenas andava por aí, livre, sem um caminho definido para ser percorrido. Hoje, ao nascer, a máquina recebe o humandróide com uma série de escolhas que precisam ser realizadas por seus pais: "Seus filhos precisam receber o melhor". Então devemos comprar o melhor leite - pois o leite da mãe, aos poucos, está deixando de ser a melhor opção -, o melhor berço e o melhor carrinho. Devemos dar a melhor educação e sermos os melhores pais do mundo.

Ou seja, somos as melhores pessoas, somos os melhores pais, somos os melhores filhos e ainda assim o universo não vai bem de saúde.

Esta competição é produto da própria máquina. É interessante porque sempre haverá alguém a sua frente e se faz necessário alcançá-lo. Os espólios da máquina são os objetos: eles são o termômetro e definem o ranking do melhor homem. O melhor carro, o melhor relógio, a melhor casa, a melhor televisão, e, assustadoramente, a melhor família. A família já se transformou em um objeto assim como o telefone celular. Não é anormal uma mãe, exibindo-se, afirmar que seu filho ingressou numa faculdade estadual, como se o mérito fosse dela. Nesta situação, o seu filho também é um objeto.

Também exibimos o nosso MP3 Player de ultima geração como uma maneira de chamar a atenção. Temos o iPhone e o iPod com designs exuberantes como objetos de conquista para enfeitar o próprio homem. Não preciso nem falar sobre o consumo de carros.

Perceba que tudo está ligado a imagem. O que vale, para os humandróides, é aquilo que é exposto, que pode ser visto pelos outros, e que é motivo de admiração por outros humandróides. É o tal do status.

Aí reside o hiperconsumo. Podemos dizer que hiperconsumo é todo o consumo realizado para além da necessidade aliado ao consumo repetido de um mesmo objeto com características diferentes. Também podemos acrescentar o consumo de um hiper-objeto, como a aquisição de valores astronômicos de um objeto de coleção, como um figurinha rara ou as meias usadas de um jogador de futebol.

Na abstração da definição, podemos utilizar o telefone celular. Embora ele não seja uma necessidade essencial, a simples aquisição não configura hiperconsumo justamente por se tratar de um novo apetrecho. A aquisição de um celular é somente o efeito de uma sociedade do consumo controlada pela máquina, visto que o celular é uma "necessidade" criada simplesmente para vender como um bem necessário.

No hiperconsumo, há a troca de um objeto pelo mesmo objeto, num círculo infinito, onde em cada troca obrigatoriamente, devemos, dispor de mais dinheiro para readquirir o mesmo objeto. O exemplo do celular é excelente: a cada ano pessoas que já possuem um telefone celular compram outro justamente porque é mais novo. Para isto, a máquina trabalha o conceito marxista de mais-valia. Agregam novas funções, o produto é mais valorizado e a propaganda trabalha para passar a sensação de bem-estar e conforto após a aquisição.

A possibilidade de bem-estar e conforto é simulada. Só é possível devido à hiper-realidade: criam-se holofotes que fazem com que a vida passe despercebida. Assim é possível vislumbrar acontecimentos como o aumento da carga tributário, escândalos no senado, casos de corrupção e extrema violência, e ainda assim, se sentir confortado pelos objetos que um humandróide adquiriu. Pois dentre seu leque de consumo, existem os objetos que transmitem segurança, como os apartamentos, a televisão e carros grandes (quando não blindados). Criamos uma realidade que parece distinta das outras realidades que "sempre ouvimos falar".

Devido a covardia dominante no ser humano, que se policia de suas conquistas para exercer influência nas relações de poder, existe uma pré-disposição em se manter na defensiva ao invés de atacar. Por isto vale mais a pena se manter distraído, apegado ao conforto e bem-estar, ainda que simulado, do que lutar por uma sociedade mais justas e por direitos de igualdade. Nesta visão, vale destacar que o hiperconsumo serve para adquirir espécies de "armas" de proteção psicológica, de modo que o que vale é a hiper-realidade criada para si, que substitui integralmente a realidade anterior, que na prática é a mesma para todos os seres. É mais cômodo fugir da responsabilidade da mudança, assim como culpar fatores externos - como o próprio termo indica, algo que está para além de seu próprio mundo - no que cerne à eventuais acontecimentos orientados para o mal.

Para concluir este post, o hiperconsumo é uma propriedade, um atributo, da máquina, principal arquiteta do mundo como vivemos hoje. Metaforicamente, a máquina é como o deus-dinheiro, seu filho divino é o hiperconsumo, assim como a hiper-realidade se encaixa como espiríto santo. Os três são um e nenhum existe sem o outro.

Donnie Darko - Uma Análise: Parte V

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Significação da Vida

Quando Donnie Darko acorda e vê os números escritos em seu braço é o sinal que ele não sonhou e que a experiência foi real. Por trás desta surrealidade, a mensagem é muito clara: apenas ele e o Frank (nome do coelho) sabem que o fim o mundo irá acontecer em breve. A responsabilidade de alterar o curso da história é somente dos dois. Mas, afinal, quem é Frank? Seria uma espécie de amigo imaginário? Ele realmente existe e seria parte da outra dimensão que se fundiu a esta nova realidade? Ele teria vindo do futuro consciente que o mundo acabaria e estava tentando guiar Donnie para tentar reverter a situação? Seria apenas um delírio do protagonista?

No absurdo da existência de Frank e da queda da turbina, encontramos a possibilidade de um sentido: Donnie Darko descobre a sua essência mediante a sua existência: eu sou quem eu sou. Estes absurdos dão significação ao olhar diferenciado de Donnie. Ou seja, temos um universo incomum para uma pessoa incomum, logo existe um relacionamento de encontro e aceitação, não mais de estranheza. Ele se encontra nesta nova realidade.

Ao voltar do campo de golfe para sua casa, Donnie observa uma série de policiais, bombeiros e pessoas que se identificam como agentes da FAA (Força Aérea Americana), que estão ali para investigar o caso, já que não há avião. Se encarregam de hospedar a família Darko em um hotel e pede para o patriarca da família assinar uma série de papéis, que ele faz sem ao menos examinar o conteúdo. Neste caso, podemos analisar que é fácil acreditar, assim como acatar ordens e pedidos, de homens bem vestidos, que se identificam como agentes, justamente pela autoridade que exercem psicologicamente nas pessoas. Elas se sentem intimidadas e não reagem. Podemos considerar esta cena como mais uma crítica a sociedade da sala-de-jantar.

Todos vão para o hotel. Ainda na cama, os pais de Donnie Darko estão reflexivos e comentam quão grande é a sorte do filho por estar fora justamente no momento em que ele seria faltamente assassinado. Mas onde reside a sorte? A vida de Donnie, até ali, não fazia sentido. Se ele vive é por mero acidente. Alguém lhe deu a opção de não ter nascido? Alguém lhe questionou se ele não gostaria de morrer? Existe alguma evidência de que ele é feliz em sua vida? Então o que queriam dizer exatamente com este tipo de sorte? Possivelmente é a sorte que eles, pessoas comuns, tiveram em sua ignorância de não querer perder um ente. O que importa não é o bem-estar da pessoa, e sim tê-la consigo até o fim da vida.

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The Raskólnikov's Dream

quarta-feira, 18 de junho de 2008

No quinto capítulo de Crime e Castigo, o principal romance de Fiódor Dostoiévski, a personagem de Raskólnikov tem um pesadelo que lhe faz acordar assustado e suado: ainda criança passeia com o seu pai pelas ruas de São Petesburgo. No caminho, em uma taverna, diversos camponeses bêbados gritam e dão risadas ao lado de fora. Logo ali se encontra uma pequena égua, frágil e, como o próprio autor descreve, somente em pêlo e osso (provavelmente pela falta de cuidados dos seus donos). Um mujique, que se declara como o proprietário do animal, pede para todos subirem na carroça, para que a égua leve a todos. Ao todo, sobe em torno de nove pessoas na carroça. Obviamente, nem mesmo o mais forte de todos os cavalos aguentaria tamanho peso, imagine então a pobre égua.

Embora o mujique tenha consciência de que seria impossível que um cavalo conseguisse mover uma carroça com tamanha carga, ele procure apenas uma justificativa para agredir o animal. Para confirmar este raciocínio, o que vemos adiante é a descrição de um ato de selvageria extrema: o mujique começa a açoitar escandalosamente a égua. Ela tenta, em sinal de desespero, uma inútil força para tentar se locomover, porém todo o esforço é em vão. Então o mujique pede a ajuda de outras pessoas que estão na carroça para açoitar o animal. Sendo assim, outros tantos começam a agredir a égua. Lhe cercam e lhe ferem com outros tipos de armas, como porretes e cordas. A égua até tenta dar alguns coices como mecanismo de auto-defesa, mas depois não resiste e acaba morrendo. É o ápice. O público gargalha com este ato de violência.

A idéia não é fazer uma análise deste sonho - ao menos não neste post. Se o leitor quiser uma análise bem interessante e profunda, pode visitar este site que faz um estudo em diversos sonhos de personagens dos romances de Dostoiévski. A minha idéia deste post é apenas fornecer um ponto de livre reflexão e trazer este pesadelo à realidade dos dias de hoje.

Se recordam quando em 2002, um criminoso conhecido popularmente como Elias Maluco, torturou, assassinou (a golpes de espada) e incendiou o jornalista Tim Lopes? Diversos outros traficantes participaram da festinha, exaltados pela tortura. Alguns relatos, segundo o livro Narcoditadura, do criminólogo Percival de Souza, dizem que o corpo de Tim Lopes foi arrastado pela favela, como um espólio a ser exibido.

Qual é a diferença entre o sonho de Raskólnikov e o caso Tim Lopes? O primeiro é um sonho, o segundo é um fato. O primeiro trata de uma ficção de Dostoiévski, o segundo é a realidade de nossos dias. No primeiro temos um animal sendo torturado brutalmente até a morte, no segundo se trata do próprio homem.

Afinal, o que é o homem? Do que se trata esta barbárie provocada pelas massas? De uma coisa estou certo: o homem é covarde. Ele só age com violência se está convicto que irá levar vantagem. O homem covarde precisa andar armado. É a arma que lhe faz homem. Se não estiver armado ele não é nada. Novamente o objeto define um papel fundamental na sociedade, neste caso nas relações de poder numa classe miserável: a classe daqueles que não tem compaixão, que não se importam pela vida do ser, que não se importam com toda a história que se produziu até aqui, que não tem amor a vida alheia, e que é objetivado somente por sua própria sobrevivência.

Este post não é tão filosófico como os demais, porém foi motivado por acontecimentos como estes, que dizem respeito a alma animal e irracional do próprio homem, que campos, como a psicanálise e antropologia, e correntes, como a existencialista, surgiram. Há aqueles que irão tentar explicar a natureza grotesca do pensamento violento humano através da ciência, e outros que irão simplesmente aceitar toda esta barbárie como condição sarcástica e aleatória da própria vida, que é injusta por si só ao tratar diferentemente os homens por sua sorte de berço. Neste caso, temos inúmeros casos para serem estudados: se a orientação natural do homem for inclinada a violência e a covardia, basta uma análise genética e a correção de algum - ou alguns - cromossomos para resolver o problema. Caso o homem seja produto de seu próprio meio, independente da classe social, então o problema é de origem social, não apenas econômico, mas cultural, educacional e moral.

O que me entristece é que como o homem poderá protestar a respeito de nossa enorme carga tributária, dinheiro arrecadado que sabemos que é destinado diretamente os bolsos de nossos desprezados políticos, se ele também se corrompe facilmente em seu meio? Se ele é inclinado a querer levar vantagem em tudo e se ele olha somente para si? Como me unir à pessoas que não carregam nenhum sentimento de culpa em sua moral? Será que é somente os outros que erram? Que seus pequenos crimes - como fumar um inofensivo "baseado" ou mesmo comprar 3 DVDs por R$ 10,00 nos vendedores ambulantes - não irão alterar em nada o percurso da própria vida e o desenvolvimento de nossa sociedade?

É preciso se desprender de todas estas distrações, rasgar a camada do irreal e viver a vida que acontece do lado de fora dos holofotes que enxergamos. É preciso ir além, ultrapassar as barreiras da compreensão e mudar! Sim, é preciso mudar! Eu preciso que vocês enxerguem que o mundo precisa de vocês e que todos são responsáveis, para o bem e para o mal, sobre o que acontece em nosso dia-a-dia. Todos são responsáveis! Ninguém é isento de culpa! Esqueça este negócio de "aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", como se fosse uma sentença de que todos caminham pelo errado da vida. Não é preciso ser errado. Não é preciso pedir perdão. Basta que não sejamos transgressores. Basta que não se faça o mal.

Posteriormente tentarei adequar este pequeno artigo dentro de meu sistema filosófico, afinal por trás de tudo está a máquina como a controladora deste grande jogo, com seus modelos geradores de hiper-realidade.

Donnie Darko - Uma Análise: Parte IV

terça-feira, 17 de junho de 2008

É noite. Todos dormem, com a exceção da irmã mais velha de Donnie (Elizabeth Darko) - que está fora de casa, certamente com o seu namorado. Durante a madrugada, o pai de Donnie (Eddie Darko) perde o sono e vai para a sala. Na televisão ocorre um debate entre dois candidatos à presidência dos EUA. Novamente a cena está recheada de clichês. Porém esta construção de cenário é proposital: é para firmar que esta é uma família como qualquer outra, com a exceção de Donnie, que se destaca e, por isto mesmo, é o protagonista. Pessoas anormais ganham destaque no cotidiano da vida, talvez não para quem está dentro desta bolha conhecida como vida, mas para quem está do lado de fora dela. A observação do enredo é realizada através dos olhos de Donnie Darko porque a surpresa reside em seu olhar. A perspectiva de quem vive o convencional não é nova, é apenas imitação dos padrões estabelecidos. Que novidade traria o filme sob a perspectiva de Elizabeth? Porém o mais importante é a mensagem que os eventos que aconteceriam a seguir poderiam ocorrer em qualquer lugar a qualquer momento.


O 1º Dia: 02/10/1988

Em meio a escuridão total, uma voz suave clama por Donnie Darko. O protagonista abre os olhos. Sua pupila se dilata e seu olhar é diferente do que já vimos. Donnie segue a voz vagarosamente até o lado de fora da casa.

Do lado de fora, Donnie se aproxima da voz que lhe chama. Surge a figura de um homem fantasiado de coelho (por sinal, um coelho macabro e aterrorizante). Ele apenas diz: "28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos para acabar o mundo".

Ele se encontra em estado sonâmbulo, embora exista a remota possibilidade que estes acontecimentos não passe de um sonho. Digo remota porque logo a câmera que segue Donnie irá focar no seu pai, que está dormindo no sofá. A televisão está ligada, porém está fora do ar, apresentando sinal de estática. Então sua Elizabeth chega em casa e ao fechar a porta sua casa começa a estremecer: o quarto de Donnie Darko é atingido por uma turbina de avião.

Após este cataclismo, Donnie Darko acorda estendido num campo de golfe. Ele está desorientado, não entende o que está fazendo ali. Será que ele se recorda do que aconteceu? Será que tudo não passou de um sonho? Ou simplesmente ele não se lembra de nada? Dois homens, sendo um deles Jim Cunningham - um palestrante de auto-estima e motivação da região, estão no campo e hostilizam a presença de Donnie, como que para dizer "aí está o famoso menino lunático". Saia daqui, Donnie, volte para sua casa! Cunningham diz: Eu odeio crianças!

Ao considerar a análise existencialista até aqui, podemos especular algumas coisas: a vida de Donnie Darko já era totalmente desprovida de sentido. Não havia significado em sua existência. Porém, ao atender o chamado da voz, surge uma nova dimensão. Talvez, metaforicamente, esta voz seja a voz da significação. É aqui que ele ganha status de herói. Há uma virada no tabuleiro, e ele passa a ser o centro das atenções.


Einstein e Alice no País das Maravilhas

Esta outra dimensão é uma espécie de novo universo que serve de elo para conectar a realidade de Donnie Darko a realidade do restante do mundo. Ele pode, finalmente, transitar entre os dois universos, ainda que não diretamente. O que evidencia esta abertura de uma nova dimensão, a meu ver, são dois acontecimentos:

1) A estática na televisão da sala, onde dorme o pai de Donnie.
Neste caso, a referência é o conceito de wormhole desenvolvido pela física, sendo que "os wormholes oferecem um mecanismo menos problemático para viagens interestelares rápidas. Um wormhole pode ligar dois universos diferentes ou então duas regiões distantes do mesmo universo" (Referência: http://www.zamandayolculuk.com/cetinbal/wormtransi.htm). Para Einstein, um wormhole será transitável ser sua solução for esfericamente simétrica e estática.

2) O aparecimento do coelho.
Metaforicamente, simboliza o coelho branco que conduz Alice até o país das maravilhas, na fábula de Lewis Carrol. O país das maravilhas é uma nova dimensão sob o mesmo mundo, composto de coisas bizarras, onde Alice, perdida, sozinha e desorientada, busca a saída sem saber como. Alice apenas existe nesta nova dimensão e toda a essência e conhecimento necessário são adquiridos durante a sua aventura.

Com base nestas duas impressões, podemos afirmar que uma dimensão que conecta dois pontos foi criada; podemos dizer também que este cruzamento de dimensões pode trazer acontecimentos estranhos, assim como Alice no país das maravilhas, justamente por mesclar presente e futuro, ou mesmo uma realidade alternativa. È por isto que cai uma turbina de avião sem ter avião algum. De certo modo, a turbina pode fazer parte de uma dimensão enquanto o avião está presente em outra. Desta forma, existe a possibilidade que nesta outra realidade, o avião tenha caído sem que a turbina seja encontrada.

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Donnie Darko - Uma Análise: Parte III

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Familia Perfeita

Donnie Darko entra em casa, ninguém percebe que ele chegou. Ao direcionar-se a geladeira, observamos um bilhete imenso colado na parte onde lemos: "Onde está Donnie?". O primeiro mistério do filme está resolvido: possivelmente estes sumiços durante o sono do protagonista ocorrem com freqüência de tal modo que sua família já não se surpreende mais e o sumiço de uma pessoa acaba passando com certa invisibilidade. É necessário anotar num local bem visível que Donnie sumiu, senão existe a real possibilidade de ninguém se lembrar que ele não está em casa.

Novamente surge um novo padrão adotado, inconscientemente, pela família: uma vez que Donnie Darko some ele sempre volta, não há motivos para se preocupar. Apenas para não passar em branco, vale destacar que este certeza sobre o amanhã irá fazer com que o filósofo empirista David Hume inicie uma investigação: como pode o ser humano ter a certeza que algo irá acontecer baseado no histórico passado? Como ele pode ter a certeza que amanhã, pela manhã, irá clarear e a noite irá escurecer com base somente nos dias anteriores? Como ele consegue planejar coisas para daqui a duas semanas se não há como saber se ele estará vivo, se o mundo não acabará antes, se de inúmeros eventos possíveis não surja um que possa interromper o seu planejamento? De onde vem esta convicção sobre o amanhã?

A cena seguinte também é para demonstrar um padrão simulado de família perfeita: toda a família está reunida na sala-de-jantar fazendo a sua refeição. Alguns assuntos vêm a tona. Na primeira vez que Donnie Darko abre a boca é para quebrar o padrão da conversa, ou seja, para polemizar ou causar discussão. Assim algumas ofensas são disparadas entre Donnie e sua irmã mais velha, constrangendo os que estão na mesa. A quebra deste padrão, desta realidade, não é esperada nem bem-vinda. Surge uma repressão por parte da mãe, que mais tarde entra no quarto de Donnie (provavelmente para lhe repreender em particular) e o protagonista pede para deixá-lo em paz.

É impossível observar a sala-de-jantar do ponto de vista existencialista e não pensar na música "Panis Et Circenses" de 1968, interpretada pelo grupo "Os Mutantes", e composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil. A letra se enquadra justamente nesta tentativa e, conseqüente, exclusão ao tentar quebrar os padrões:

"Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"


Donnie Darko está lendo um livro, isolado em seu próprio mundo. Ele não deseja se relacionar com pessoas que queiram lhe forçar um padrão. Para a pessoa que vivencia o seu Dasein, é impossível aceitar uma vida inautêntica, ao menos que ela seja distraída por fatores mundanos. Ele chega a xingar a mãe que, inconformada, irá informar ao pai sobre esta ofensa. De certa maneira, ela espera que o marido motive uma punição. Tudo isto é muito clichê e serve para reforçar a idéia de uma família comum que tem um cotidiano rotineiro. A única exceção é Donnie Darko, o que serve para enaltecer o conceito de solidão no ser que é arremessado no mundo.

Neste diálogo sabemos que Donnie Darko utiliza um medicamento para algum tipo de doença neurológica, posteriormente existe a desconfiança que esteja ligada a resquícios de esquizofrenia. A questão é: será que existe uma doença ou o mundo é incapaz de aceitar uma pessoa que viva fora do convencional? A resolução seria marcar a pessoa como problemática, de modo que possamos se relacionar com elas de forma diferente? Donnie Bravo toma o remédio, mas sua cabeça reprova o seu gesto. Afinal, para quê ele faz isto? Seria para admitir que ele estava doente? Seria para agradar a sua família? Seria em sinal de reconhecimento que isto jamais mudaria o que ele é? Temos diversas possibilidades de interpretação, todas estão intrinsecamente ligadas.


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Donnie Darko - Uma Análise: Parte II

domingo, 15 de junho de 2008

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A Preparação do Terreno: Existencialismo e Fenomenologia

O filme é ambientado no final dos anos 80. Logo na primeira cena, podemos perceber por toda a ambientação criada que Donnie Darko é um adolescente diferente: está amanhecendo e ele dorme no asfalto num ambiente paradisíaco, porém solitário e, ainda que claro, é muito sombrio. Ele está longe de tudo, numa colina, e o silêncio é seu único companheiro. Sua bicicleta está caída ao seu lado, o que indica como ele chegou até lá. Ao acordar ele está confuso, como se estivesse a buscar explicação para o ocorrido: como será que eu fui parar aqui? Se levanta e tenta reconhecer o território. Ao direcionar o olhar para baixo, na tentativa de buscar uma resposta dentro de si mesmo, surge um sorriso misterioso em sua face.

Numa análise existencialista, onde o ser é arremessado no mundo e onde, segundo Sartre, a existência precede a essência, observamos o homem perdido, sozinho, sem conhecimento prévio de sua realidade. Ele apenas existe. Não há justificativas para mais nada.

A angústia de acordar - como que pela primeira na vida - em meio ao asfalto sugere uma espécie de renascimento, um reinício. O filme é muito inteligente em partir deste principio, pois podemos analisar a partir de uma determinada premissa, que é a perspectiva do protagonista em relação ao conhecimento. Como não há essência no ser até o momento (somente a existência), por que será que Donnie Bravo não está feliz ou triste, e sim angustiado por não entender imediatamente o que estava acontecendo? Segundo Heidegger, seria porque a angústia do personagem é uma angústia ontológica, que não tem origem em lugar algum. Ela simplesmente está lá. A angústia ontológica é a que permite que o homem seja ele mesmo, que vivencie o seu ser, que não desvie de si. Em outras palavras, faz parte da relação íntima com o seu Dasein - que está sempre aberto para o ser e que permite ser o que se é.

Enfim, é esta angústia que faz com que o ser seja autêntico e viva uma vida integra. O ser que experimenta esta sensação não é triste ou feliz, porém orgulhoso de encontrar este estado. O que há é certa satisfação de se manter diferente aos outros justamente por ser você mesmo. Não deveria, mas é preciso lembrar que cada indivíduo é único. Esta é uma possibilidade para o sorriso que Donnie Darko dá ao final da cena: ele acaba de descobrir a si mesmo e está satisfeito com sua descoberta.


Heidegger e Sartre

O elo onde podemos aproximar o existencialismo com a fenomenologia que apontamos pode ser melhor compreendido ao contextualizar as obras de dois filósofos já citados neste texto: Jean-Paul Sartre (um dos principais desenvolvedores do existencialismo) e Martin Heidegger (grande desenvolvedor da fenomenologia). Heidegger afirmou que o único que havia compreendido plenamente a sua obra durante a vida foi Sartre. Este, por sinal, traduziu o termo alemão heideggeriano Dasein como "existência" (No Brasil, na tradução clássica do texto "Ser e Tempo", o termo é traduzido como "presença").

Outra aproximação entre os dois ocorre naquela que é considerada como a principal obra de Sartre, "O Ser e O Nada", onde este "nada" representaria a angústia ontológica que Heidegger desenvolveu no "Ser e Tempo".

A satisfação de Donnie Darko ao vivenciar o seu Dasein - partindo da premissa que ele para de especular sobre o universo e simplesmente o aceita - é demonstrada na cena seguinte, quando o protagonista está retornando para sua casa em sua bicicleta. Uma sensação de deleite é criada com tomadas de câmera aliada a trilha sonora. Um mundo acontece ao redor de Donnie Darko, porém ele tem o próprio mundo para vivenciar.

Aqui podemos observar as coisas através do ponto de vista do protagonista, que vive uma condição de anormal como uma pessoa que está no além-mundo - observador de um plano superior a este. O que está no intramundano é uma espécie de modelo gerador de padrões que define o comportamento de modo geral. Simplesmente não há novidades. É a vida inautêntica que domina a vida das pessoas. Donnie Darko observa em seu caminho de volta, uma cidade totalmente pacata, indiferente ao resto, onde encontramos pessoas fazendo caminhada, o pai de Donnie cortando a grama do quintal, sua irmã mais velha saindo para passear, sua irmã mais nova brincando no pula-pula e sua mãe lendo um livro de Stephen King. Esta cena representa o típico padrão de família bem perfeita. Donnie Darko não faz parte da normalidade, portanto ele não se encontra neste contexto, afinal ele vive na autenticidade. Por isto tudo parece tão estranho e tão novo ao mesmo tempo.

A relação pode ser recíproca. O mundo também rejeita alguém que não se enquadra em suas próprias normas.

Donnie Darko - Uma Análise: Parte I

Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte II
Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte III
Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte IV
Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte V

Introdução

Donnie Darko não é apenas mais um filme. É uma daqueles películas que ficará por anos em sua mente, que possibilita uma série de discussões entre pessoas que analisaram a história. Inúmeras conclusões são possíveis. De certo, temos aqui mais uma pérola da sétima arte.

O que faz de Donnie Darko tão diferente do que já foi realizado para o cinema? Simplesmente não estamos diante do convencional. Ao contrário, temos algo único em mãos. Donnie Darko é uma espécie de jogo intelectual semelhante ao quebra-cabeças. Diversas peças são apresentadas e resta a quem está do outro lado da tela decifrar os enigmas que compõe o enredo.

Era de se esperar que logo após o lançamento do filme, tão logo ele despertaria a curiosidade do público cult. O que observamos foi um fenômeno interessante: uma série de debates entre inúmeros fóruns na internet para tentar explicar os acontecimentos no decorrer da história. O próprio diretor - Richard Kelly - lançou uma versão em DVD onde tenta explicar algumas coisas e dar novas dicas para os aficionados. No site oficial de Donnie Darko, temos alguns jogos que, teoricamente, resolvem alguns mistérios. Ademais, existem outros diversos sites especializados na tentativa de explicar o filme. Há poucos anos foi lançado um livro em 2003 e até mesmo uma FAQ (com diversas perguntas e respostas) para uma melhor compreensão.

Fora todos estes mistérios que envolvem a construção da história, Donnie Darko é uma bela crítica à sociedade-padrão, além de ser uma excelente metáfora do movimento existencialista. São nestes dois pontos que iremos trabalhar a análise do filme. Diferentemente de outras obras que eu comentei, sugiro que antes de continuar a leitura você assista o filme, pois a experiência que você terá durante a exibição certamente será comprometida, visto que existem muitas possibilidades de compreensão e a idéia é justamente que você tire suas próprias conclusões para então debater, investigar, questionar e formular suas próprias teorias.

Dado o recado, quem ainda não assistiu e não quer saber a trama, que não leia os posts seguintes onde iremos tentar desvendar a vida de Donnie Darko a partir da perspectiva existencialista. Por termos em mãos um grande objeto de estudo, iremos quebrar este trabalho em diversas partes para não tornar a leitura cansativa. Vale recordar que este filme não permite uma única análise - o próprio ponto-de-vista do diretor é somente mais uma opinião acerca de sua criação e não pode ser considerada a única.

A Hora da Estrela: Lispector Existencialista

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Eu não poderia deixar de comentar a respeito da principal obra de Clarice Lispector, que rompeu com a segunda fase do modernismo brasileiro, dominada pela regionalização na literatura - da problematização do homem sertanejo - para escrever romances com conteúdo categoricamente existencialista. Frequentemente a obra de Lispector é associada com a de Kafka, sendo dito que a autora é a mais kafkaniana de toda a literatura latino-americana. Justamente por kafkaniano ter se tornado um sinônimo para absurdo e incompreensível, a leitura de Lispector se torna obrigação para aqueles que pretendem se adentrar no extenso universo da cultura existencialista.

A história de "A Hora da Estrela" é simples e pode ser resumida em pouquíssimas linhas - se você não quer saber o que acontece, recomendo que não leia este post, entretanto devo frisar que este não é um suspense. Não há mistérios. Mesmo conhecendo os fatos, a experiência de leitura é única: Macabéa é uma jovem alagoana que vai para o Rio de Janeiro para "tentar" a vida. Pessoa medíocre, feia e desinteressante, o universo de Macabéa é composto pelo seu trabalho de datilógrafa, por seu "amigo" Olímpico de Jesus - inicialmente uma espécie de namorado nordestino, que a abandona porque, como ele mesmo diz, Macabéa é uma espécie de "comida sem sal" - e por Glória, colega de trabalho de acaba por namorar Olímpico. Por orientação de Glória, que tem piedade da menina ao perceber a sua tristeza (proveniente de um recente diagnóstico de tuberculose), vai visitar uma cartomante que lhe diz: logo que você sair daqui, irá conhecer um estrangeiro e sua vida irá mudar para melhor. Tão logo Macabéa saiu do estabelecimento, foi atropelada por um Mercedez Benz e acaba falecendo sobre os olhares de quem passava na rua naquele instante.

Portanto, o que faz de "A Hora da Estrela" um grande romance? Em grande parte, devido a forma como a história é contada. Clarice Lispector encarna a figura de Rodrigo, o escritor da história de Macabéa. A grande sacada é a relação do narrador com sua anti-heroina e com os acontecimentos do mundo interior (o universo de Macabéa) e do mundo exterior (o seu próprio universo). Há um certo ódio e uma certa impaciência por parte de Rodrigo no desenvolvimento da história que é canalizada na construção da protagonista. De certo, ele é o carrasco responsável pela ingenuidade e pelo absurdo que é a vida da pobre nordestina. Por que o narrador faz faz isto? Este é um dos mistérios que poderíamos discutir. Há quem diga que Rodrigo está num espaço oposto a classe-média e oposto a classe-baixa de Macabéa. Devido a este impossibilidade de alcançar este mundo, escreve esta história como uma forma de vingança. Porém este não é o nosso foco de discussão. Iremos nos ater apenas ao enredo da personagem.

Macabéa é a tragédia miserável personificada. Todas as qualidades negativas estão centralizadas dentro do seu ser: tola, raquítica, feia, extremamente ingênua, sem sonhos, sem desejos, sem questionamentos, sem objetivos e sem expectativas. Para ela as coisas simplesmente são o que são. A vida é isto mesmo, não precisa de justificativas, basta que os dias passem. Já que ela é este ser insignificante, restar aceitar esta condição. Não vê, portanto, justificativas em mudar aquilo que é por natureza. Macabéa se enxerga como alguém que foi jogada no mundo. Isto deveria bastar, porém parece que o universo conspira contra si. As pessoas não suportam Macabéia. Não conseguem aceitar a protagonisa da forma como ela é.

Está sozinha no mundo. A questão-chave não é a respeito do não entendimento acerca das coisas, o fato está em ela não questionar a respeito de nada. Por exemplo, seu "namorado" termina com ela, e não há, ao menos, uma reação: ela simplesmente aceita como se nada tivesse mudado para si. Ela sempre está a obedecer ordens, suas palavras são restritas a "sim", "está bem" e seus pensamentos são vagos e resumidos. O negócio é tão grave que em determinada parte da história ela passa mal e acredita que apenas por visitar o médico sua doença seria curada, tamanha é a sua ingenuidade.

Ao observar a tristeza de sua colega, Glória sugere a Macabéa que vá a cartomante para ela lhe traçar o destino. Macabéa, uma pessoa que não sabe negar, acata ao conselho e faz uma visita a madame que, através da retórica, descobre o quão medíocre é a vida da protagonista. Não obstante, ela irá prever que a vida de nossa anti-heroína irá mudar assim que ela botar os pés para fora dali: ela conheceria um estrangeiro que iria lhe fazer feliz.

Ironicamente as coisas acontecem como diz a cartomante: assim que ela sai do recinto, é atropelada por um Mercedez Benz, dirigido por um homem loiro, que imediatamente foge do local do acidente. Aquele é o seu momento maior, a única vez em que as pessoas lhe prestam atenção. Não podia dizer que morreria sem conhecer a felicidade, pois era esta a hora da estrela, onde ela brilhava irradiante como a atriz principal de uma tragédia real: era ali, sangrando no asfalto, rodeada por uma série de curiosos, que ela foi percebida em uma vida onde nunca fora notada. O que resta é somente a escuridão. Marabéa está morta.

Tudo não passa de uma grande irônia. Mais uma vez, as pessoas existem apenas para morrer, e tudo se torna insignificante. A sua história é ignorada pelas rodas da fortuna. O que determina o seu caminho é apenas a sorte que você pode, ou não, ter em sua vida.


A Hora da Estrela
Clarice Lispector
Editora Rocco
1998. 87 páginas

Os Leões de Bagdá: Uma Leitura Existencialista

terça-feira, 10 de junho de 2008

Não é de hoje que eu digo que quadrinhos não é mais somente coisa de criança, afinal as crianças de outrora cresceram e adaptaram algumas diversões da infância para os seus dias - a história se repete com o videogame. Grandes celebridades intelectuais, reconhecidos inclusive pela literatura, estão presentes neste meio, como é o caso dos britânicos Alan Moore (criador do aterrorizante e apocaliptico V de Vingança) e Neil Gaiman, que colocou uma HQ (história em quadrinhos) pela primeira vez na lista dos livros mais vendidos da New York Times.

Atualmente temos uma série de escritores de HQ que desenvolvem histórias com temáticas adultas e complexas, que vão desde critícas ao sistema político americano até a extremidade da crueldade e violência entre os homens. Um destes escritores é Brian K.Vaughan, que já colocou um ex-superherói como presidente da república (Na série Ex-Machina) e um mundo onde existe apenas um homem e o restante da população é composta por mulheres (Y - The Last Man). Neste mês, a editora italiana Panini soltou em bancas e livrarias especializadas a sua obra "Os Leões de Bagdá", brilhantemente desenhada por Niko Henrichon. Esta é uma das grandes obras da literatura em quadrinhos, onde podemos tirar inúmeras lições e nos permite uma série de reflexões.

A história é baseada em acontecimentos reais, quando em 2003 quatro leões, sedentos e esfomeados, fugiram do zoológico, em plena ocupação americana, para as ruas de Bagdá. Seguindo esta premissa Brian K. Vaughan cria uma obra de características existencialistas e que faz valer a pena a leitura cuidadosa de cada página da graphic novel.

Já faz tempo que a comida não chega. Os leões tentam entender o porque não estão sendo alimentados, embora o seu universo seja restrito e eles não conseguem imaginar o que está acontecendo. Porém logo uma bomba cai no zoológico e eles têm a possibilidade de fugir em liberdade. Surge a primeira discussão, eles devem ir embora ou devem esperar que as coisas se restabeleçam?

Existe uma predisposição a se manter em seu local de origem justamente pelo medo do desconhecido. Afinal, o que estaria do lado de fora? Porém, vale a pena se arriscar? Os riscos trariam recompensas? Se os leões estavam felizes, porque trocariam o certo pelo duvidoso? Estas questões estão intrinsicamente ligadas a humanidade do ser, afinal quantas vezes não nos deparamos com a mesma situação? Quando sabermos qual é o momento certo de acelerar ou frear nossas vontades e nossas intenções? Enfim, desgraçadamente, somos obrigados a tomar uma decisão: seguir adiante ou nos mantermos inertes?

Na história, a fome e o desejo de ser livre faz com que três leões decidam tomar os caminhos da rua, afinal, como um deles afirma, a liberdade não é privilégio dos homens - se eles conseguem nós também conseguimos. Isto é uma crítica brilhante ao caracterizar o homem como um estranho a si mesmo, que não se entende, sempre está em conflito, comete atrocidades e ainda assim se firma como um ser livre. Se uma criatura tão problemática pode declarar a sua liberdade, porque eles, os leões, não podem?

No decorrer, o outro leão que havia ficado para trás também se junta ao grupo. Um universo totalmente desconhecido surge para eles: neste momento, o que há é somente a existência. Eles somente existem, mais nada. Com as experiências que eles irão adquirir em sua jornada é que eles formarão a sua essência. Eles foram arremessados no mundo e precisam tomar decisões.

Tudo é novo neste universo e tudo é muito estranho. Algumas pessoas estão mortas no chão, porém por mais que a fome seja grande, eles decidem não comer os corpos, afinal pessoas semelhantes a aquelas até há pouco tempo lhes alimentavam. Animais também tem o seu código de ética e moral. Mais uma vez Brian K.Vaughan faz uma crítica ao egocentrismo do homem. Conviver em sociedade não é uma característica do homem e todos os seres-vivos sabem fazer isto a sua maneira. Aqui há uma inversão: os homens foram mortos por eles mesmos, e quando os leões decidem não comê-los eles estão enaltecendo a propriedade animalesca do homem. É como se o autor quisesse dizer que mesmo no reino animal há respeito e moral entre os seres, e se há um animal selvagem de verdade este é o próprio homem.

Ao término, os quatro leões são chacinados por metralhadoras americanas sem saber a razão. Não há ameaça. Eles nem, ao menos, observam de onde vem os tiros. Simplesmente morrem. No contexto existencialista, onde a vida é um absurdo onde por mais que se faça algo, o fim será sempre a morte, este final é mais do que adequado. Não há significado em toda a trajetória dos leões. Em um momento eles estavam vivos, ainda que perdidos e sem entender sua própria realidade, e no momento seguinte estavam, inesperadamente, mortos.

O que Brian K.Vaughan desenha em seu enrendo é o próprio desenho da vida no contexto existêncial. As coisas ocorrem sem que haja sentido, tudo parece uma grande irônia. As decisões que os quatro tomaram entre ficar no zoológico e tentar a liberdade nas ruas não trouxeram nenhum significado para a história de vida que eles haviam construído até ali. Eles simplesmente existiram, miseravelmente começaram a adquirir uma essência, fizeram escolhas que não levaram a lugar algum e, fatalmente, morreram. Será que esta seria a liberdade que eles tanto procuravam conquistar? E qual a finalidade desta liberdade?

Para o existencialismo, a liberdade serviu, penosamente, para que eles escolhessem um caminho. Eles também poderiam ter optado por ficar no zoológico, mas preferiram descobrir a vida nas ruas. Sabemos que este escolha os levou a confusão e a morte, porém o que aconteceria se eles tivessem ficado? Não há como saber, pois não há previsibilidade na existência. Sabemos apenas que existimos, o resta se dá com a própria vida. Independente do que você faça, seja para o bem, seja para o mal, as consequências são aleatórias.

Enfim, como já dito, toda a vida não passa de um grande absurdo.

Os Leões de Bagdá
Brian K.Vaughan / Niko Henrichon
Panini Comics
* Vencedor do HARVEY AWARDS® 2007 como melhor graphic novel.

Introdução ao Existencialismo

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Você algum dia já se questionou o porque de tanta barbárie no mundo? Como pode o ser humano em determinados momentos ser tão cruel, como no caso de Gertrude Baniszewski, que torturou uma menina até a morte sem que ela não cometesse nenhum crime? Ou então numa situação de guerra, onde um soldado simplesmente tira a vida de outro homem, como se o finado fosse um objeto sem valor, sem paixões e sem história?

Afinal o que é a vida e qual é o seu sentido?

Foram questões semelhantes a estas que alguns pensadores do porte de Nietzche, Kierkegaard, Sartre e Schopenhauer fizeram e, consequente a esta tormenta, fundaram um movimento que rege influência até os dias de hoje: o existencialismo.

Um dos conceitos mais importantes para entender o existencialismo foi desenvolvido por Jean-Paul Sartre ao afirmar que "a existência precede a essência", ou seja, antes de qualquer coisa o que há é a existência. Primeiro existimos, depois iremos adquirir a nossa essência e nossa formação. Durante o decorrer da vida, somos condenados a sermos livres e, consequentemente, forçados a tomarmos constantes decisões. Ortega y Gasset já havia levantado esta questão anteriormente ao afirmar que o homem não é, ele "vai sendo".

Ainda que o ser opte por não tomar nenhuma decisão, ao se manter no ócio sem fazer nenhuma escolha, isto por si só já é um caminho que ele escolheu percorrer - o de não fazer nada. Ou seja, para o existencialista, o homem é arremessado no mundo e a partir deste abandono, deste silêncio e de sua impotência é que ele se descobre no mundo.

Porém a vida é uma grande irônia, pois por mais que você tente fazer o bem para si ou para os outros, e tentar coloborar positivamente com o mundo, fatalmente todos irão envelhecer e morrer. Perceba como a vida pode ser estranha, sem nexo e sem objetivo. Para que nascer, se fatalmente você irá morrer? E se a vida é sofrimento, porque insistimos em continuarmos vivos? É por isto que para o existencialista, a vida é um grande absurdo e não tem justificativa de ser.

Desta forma, parece até mesmo que o existencialismo é uma corrente ateísta, porém há diversos existencialistas teológicos, como o já citado Kierkegaard. Para ele, a fé guia as decisões do ser e a atividade de tentar provar a existência de um Deus é inútil. Porém é no discurso contra a religião que o existencialismo ganha força: se Deus existe, porque os homens sofrem? Qual a importância de provar a existência de Deus, se é que há a possibilidade?

A vida é uma série de batalhas e a liberdade é uma maldição. Por isto é tão fácil viver numa sociedade estruturada e com um rígido código de regulamentos, pois é mais fácil cumprir ordens do que decidir. Porém é a mesma inautenticidade de vida que lhe faz acordar as sete horas da manhã para chegar a tempo no trabalho e que lhe faz atirar com um fúzil no exército inimigo. Não há culpa, nem questionamentos em nenhuma das situações. Ao contrário, há um certo alívio.
Neste absurdo de viver e nestas arduosas escolhas que a vida nos coloca, nosso blog entra num período existencialista com um pouco mais ênfase. Já havíamos arranhado a superfície com artigos sobre a angústia heideggeriana, o filme "As Horas", uma resenha sobre o livro "O Estrangeiro" de Camus, e agora faremos estudos em outras obras com conteúdo existencialista, principalmente na literatura e no cinema.

Portanto mergulhem neste tema delicioso e influente, que cada vez mais é presente em nossa mente ao nos depararmos com tantos acontecimentos sem lógica e sem sentido, principalmente aqueles que são mais violentos, tanto em âmbito físico como em âmbito psicológico. Talvez a grande vitória esteja em reconhecer este absurdo que é a vida para nos dedicarmos cada vez mais a nós mesmos e cultivar o autoconhecimento, e assim, quem sabe, caminharmos em direção a um significado que esteja presente em nosso interior.

Post Nº 100

sexta-feira, 6 de junho de 2008

É isto aí, estimados amigos e leitores ocasionais! Chegamos ao post nº 100! A blogesfera está em festa, afinal, a muito custo, temos mais um blog estável na internet! E este é um motivo de orgulho, afinal este espaço não é - me desculpem a palavra - mais um canal de putaria, nem de notícias populares, nem especula sobre a vida das celebridades ou sobre o fim da novela. O conteúdo desta página é para quem procura ampliar o seu intelecto, de discutir uma idéia e de pensar a vida nos mais diversos ângulos possíveis.

Este é um post que eu queria fazer diferente para fugir um pouco do convencional. Sendo assim, resolvi fazer uma pequena entrevista comigo mesmo e expor algumas curiosidades. Espero que gostem!

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Como surgiu a idéia de fazer o blog?

Na verdade, esta não é a primeira vez que registro minhas idéias em um espaço na internet. Há cerca de nove anos atrás, quando tive meu primeiro contato com a web, a primeira coisa que me veio a mente foi "preciso colocar alguma coisa aí". Afinal, um leque de infinitas possibilidades permitia que estívessemos conectados ao restante do mundo. Portanto, ainda durante a minha adolescência, criei um site bem simples chamado "A Nova Sociedade dos Poetas-Mortos" que era uma espaço aberto dedicado a publicação de poemas de escritores amadores e independentes, que ficou hospedado no Geocities da Yahoo durante muitos anos. Foi uma experiência bastante interessante que permitiu discutir diversas idéias com pessoas bastante especiais. Chegamos a criar um grupo de discussão no "Meu Grupo" que tinha mais de 100 membros numa época em que a internet era privilégio de poucos. A inscrição neste grupo seria o equivalente ao assinar um feed de um site qualquer nos dias de hoje. Devido aos mecanismos de manutenção da época, o site ficou no ar por dois anos e depois foi descontinuado.

Depois de um tempo criei o Insanideliranoia, que é um espaço pessoal que armazenou todo o conteúdo que eu havia escrito para "A Nova Sociedade dos Poetas Mortos" e mais algumas novas coisas. Por estar hospedado em um servidor gratuito, também era de dificil manutenção e acabou por ser descontinuado.

Com o surgimento dos blogs e suas ferramentas de publicação, que era o sonho daqueles que queriam deixar o seu recado na web, mas não queria perder tempo aprendendo a desenvolver páginas em html complexas, a migração para este espaço ocorreu de forma natural. Ainda assim, demorou bastante para mim ingressar neste mundo, sendo que somente no ano passado eu me senti inspirado para começar a registrar as minhas impressões acerca das coisas.

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Do que trata este blog?

Embora este seja um espaço particular, onde em tese eu escreveria o que viesse a mente, este se tornou um espaço analítico por natureza. Geralmente (não sempre) acabo não comentando a respeito de notícias e atualidades, mas fazendo análises de obras de filosofia, literatura, algumas películas e desenvolvendo algumas idéias, alguns pontos-de-vista, alguns dos meus temores, aflições e outros monstros trancados dentro do armário.

Eu defino este blog como a busca incessante pela verdade, consciente que ela jamais será alcançada, ou como a contemplação do rídiculo da vida. Enfim, algo que mostre outras opções de realidade e que questione constantemente esta a qual vivemos.

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Por quê "VS O Pensamento Fabricado - A Batalha Final"?

Porque esta é minha luta. Esta muito evidente que grande parte das pessoas são imitações de outras. É assim que funciona no mundo das aparências, existe uma espécie de referencial - embora não possa ser encontrado - que dita as regras do jogo. É esta entidade que diz como devemos pensar, vestir, limita até onde podemos enxergar e outros demônios. Embora exista uma sensação de liberdade, esta liberdade é restrita: você é obrigado a escolher um número definido de possibilidades limitadas por seu ambiente social. Então é importante que reconheçamos os nossos limites, justamente para que se respeite o espaço do nosso próximo e que não haja uma invasão. Esta entidade referencial desconhecida é o que venho desenvolvendo através do termo máquina.

Quando escrevo, tenho a intenção de tentar desmascarar um pouco desta falsa realidade que as pessoas vivem, pois a grande massa pensa com pensamentos que não são o delas, mas que ela viu em algum lugar e o aceitou prontamente como verdade sem ao menos questionar ou procurar outras opiniões. Isto é o que chamo de pensamento fabricado.

É preciso coletar informações e a partir daí extrair um conhecimento preciso. Devemos conhecer os fatos dos mais diversos ângulos e raciocinar em cima deles, além de formular opiniões.

Quando digo "A Batalha Final" é uma maneira de exprimir que existe uma certa inquietude e desespero em fazer com que as pessoas acordem de seus estados de zumbis e comecem a pensar suas próprias idéias. Que passem a existir para elas, e não para o sistema.

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Quem é o teu público?

O público-base do blog é composto por estudantes e pesquisadores de filosofia, sociologia e pedagogia, que chegam na página através de mecanismos de pesquisas, principalmente pelo Google. Infelizmente o público-base não é um público fiel. Mais de 80% dos usuários visitaram o blog uma única vez, além disto a lista dos assinantes do feed é muito pequena. Acredito que isto ocorre porque o conteúdo mais visualizado é o conteúdo voltado para o mundo acadêmico. Por exemplo, um estudante precisa fazer um trabalho sobre Sócrates e em sua pesquisa acaba no blog, porém, ela não volta mais porque aquele era o único assunto que lhe importava.

Espero que num futuro não muito distante, as pessoas possam se interessar em acompanhar frequentemente o blog, que trata de assuntos bem interessantes, e que também possam acompanhar o desenvolvimento de minhas próprias idéias, para me indagar, me criticar e me auxiliar a construir um argumento coerente e convincente.

Quanto ao público fiel, são pessoas que estão interessadas pela construção de um pensamento, pelo comentário a respeito de uma obra, por uma resenha, enfim, um pessoal mais culto que busca o enriquecimento cultural, além de utilizar das minhas pesquisas para contruibuir com as suas, muitas vezes negando o que tenho dito, outras vezes reformulando algumas coisas. É um público interessante, especial e que sinto um enorme carinho. Outras vezes este público é composto por pessoas que me conhecem ou me conheceram no mundo externo e que tem a curiosidade de saber o que eu penso.

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O que mais lhe deixa frustrado no blog?

Ninguém comenta os posts! Ainda não consigo entender bem este fenômeno, pois o conteúdo do blog é orientado ao pensamento, ora polêmico, ora metafísico, e que de certa maneira atinge o leitor que já vem com sua própria bagagem e sua própria visão. Todas as vezes que recebo um comentário, comemoro bastante, pois me ajuda a identificar bastante o tipo de público que frequenta os posts, o que ele gostaria de ver, e o que está bom e o que não está.

Além disto, o número de visitas continua baixo quando comparado à um site de entretenimento, curiosidades, esportes e pornografia. É incrível como a nossa população realmente não se importa com coisas caras e essênciais para o ser. Como o objeto acaba por ter mais valor que o sujeito. Isto ainda me entristece bastante, pois gostaria que fosse um pouco diferente. Mesmo porque acredito que com tantas pessoas distraídas com as futilidades do mundo, mais e mais seremos enganados e menos reagiremos. É a domesticação do homem, como diria Foucault, que impede que ele proteste e se alarme, de tal maneira que ela fica indiferente as coisas que acontece.

Acredito, porém, que mais tempo ou menos tempo as pessoas acordarão deste profundo sonho do irreal, e começarão a ver que o mundo não acontece numa novela ou num campo de futebol. O mundo acontece fora da sala de jantar.

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Qual é a tua motivação para escrever os posts?

A motivação pode surgir a qualquer hora e em qualquer lugar. Não se precisa ser um acontecimento de proporções astronômicas, mas algo bem sútil. A motivação pode surgir numa conversa social, ao assistir um filme, ao ler um poema, ao andar pelas ruas, ao acordar simplesmente angústiado entre outras coisas.

Por exemplo, houve uma vez que um colega de trabalho, ao ver uma série de livros em meu ambiente, questionou: "Para quê tudo isto? Vá viver a vida!". Isto gerou uma reflexão profunda em meu interior e fez com que escrevesse este post. Outra vez assisti ao filme "As Horas" e, tocado pela mensagem, escrevi este artigo. Li o livro "O Estrangeiro" e não pude deixar de registra as minhas impressões neste post.

Enfim, diversas situações me inspiram a escrever.

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O que vem pela frente?

O blog entrará numa fase existencialista. Abordaremos não somente a filosofia existencialista, mas também todo o movimento existencialista, passando pela literatura e pelo cinema. O existencialismo já foi abordado outras vezes neste espaço, porém daremos um pouco mais de ênfase neste assunto. Paralelamente teremos mais alguma coisa de Wittgenstein e concluiremos o trabalho iniciado com o livro "Pedagogia da Autonomia" de Paulo Freire.

Como não poderia deixar de ser, teremos mais Jean Baudrillard, principalmente no que se refere ao texto "Simulacros e Simulações", além da conclusão da tradução do Wikipedia em inglês. Também pretendo abrir o blog específico de Baudrillard (http://jbaudrillard.blogspot.com) para outros estudiosos do filósofo francês, de forma que eles também possam publicar os seus estudos. Tudo vai depender da boa aceitação do blog, que ainda é embrionário e não tem público.
Por fim, assim que o blog completar um ano, teremos novidades. A idéia é ter, ao menos, dez colunas constantes com periodicidade fixa. Outro projeto será integrar, com maior afinco, uma relação com outros blogs relacionados, seja entrevistando outros blogueiros, públicando partes do conteúdo em nesta página, comentando os seus pensamentos, enfim, estabelecendo parcerias de desenvolvimento intelectual e cultural.

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Para finalizar, deixe uma mensagem para os teus leitores.

Muito obrigado a todos que acessaram este blog, que absorveram o conteúdo, que comentaram os posts, que divulgaram o endereço para outras pessoas, que buscaram um conhecimento e que aprimoraram o seu senso-crítico.

Espero que vocês tenham se divertido o tanto quanto eu me diverti até agora. Que o nosso pessimismo e nossas preocupações se convertam em possibilidades de mudar o mundo.

Agradeço também aos amigos Eduardo Patriota, do blog Duduziuz, e Fernando Botelho, do blog Capitulo 2, que sempre foram meus fiéis leitores. Através de suas criticas, elogios e sugestões foi possível construir um blog consistente com informações interessantes e diferentes ao senso comum.

Portanto, que venha o post número 500!