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A Consolação da Filosofia por Boécio

sábado, 31 de maio de 2008

Este é um resumo parágrafo-a-parágrafo do 3º capítulo do livro "A Consolação da Filosofia", escrita pelo pensador medieval Boécio, que vai do 1º ao 18º parágrafo.

Como introdução à este texto, sugiro que você leia este post que irá lhe situar melhor quanto ao contexto da obra.


Neste diálogo que Bóecio estabece com a Filosofia, o autor sente-se revigorado e também acredita poder resistir à sedução da Fortuna, que está presente em âmbito da Aparência. Desta forma, se encontra sedento por adentrar os novos caminhos que lhe são apresentados por sua guia Filosofia, que não julgava que Boécio estivesse capacitado anteriormente para trilha-los, e faz um alerta: após tomar estes medicamentos que vêem da filosofia, haverá uma necessidade inicial de querer falar, mas é no silêncio que os efeitos se atenuarão. Então a Filosofia faz um convite para Boécio: lhe levar para conhecer a verdadeira felicidade, que está distante da Aparência.

Poema
Reflexão sobre a verdade
È preciso neutralizar todas as coisas para que você possa aprender novas sem ser contaminado por pré-julgamentos e pré-conceitos. Só assim será possíver reconhecer a verdade.


A Filosofia diz que todos os homens desejam a felicidade de maneira igualitária, afinal, a felicidade é algo absoluto: só é felicidade se ela se realiza por inteiro. Este desejo faz com o homens procurem por ela de diferentes maneiras. Contanto, graças à ignorância do homem, ele se desvia nesta busca e acaba encontrando o que é mera aparência de felicidade em outros bens: riqueza, fama, poder. Também consideram felicidade quando estão alegres e sorridentes, como quando sentem prazer, como na bebida ou no ato sexual. Enfim, a idéia é que se extraia a felicidade e o prazer proporcionado por estes bens. Assim também ocorre quando uma pessoa cuida de sua condição física, seja para ficar mais bonito, seja para levar vantagem física: todas acreditam estarem buscando a felicidade. Cada um considera aquilo que busca como o bem maior, ou seja, o bem supremo, ou aquilo que deseja mais do que qualquer outra coisa. Epicuro dizia que o soberano seria o prazer, visto que todos os outros bens tendem para o prazer. Porém ele está errado, afinal não está claro que este tipo de pessoa, por mais que tenham estes bens, não se questiona que está errada? Que, de alguma forma, não estão se enganando?
Veja que é impossível que a felicidade resida nestes bens, pois a felicidade não conhece dor, nem tristeza, nem vergonha. A felicidade não pode residir no prazer temporário destes bens. Os homens, geralmente, buscam estes prazeres porque acabam por acreditar que eles o preencham. Ainda que diferente sejam os diversos caminhos, não há como negar que todos buscam o mesmo fim: a felicidade.

Poema
Em forma de poema, Boécio, através da figura mítica da Filosofia, exalta que todos os seres vivos buscam um caminho que te leva, novamente, para suas origens, sendo que estas origens é a forma natural do ser. Por mais que ele tente traçar outros caminhos, se iludir com falsas verdades ou falsas expectativas, prevalece a vontade de se livrar de tudo isto e se aproximar de sua própria condição natural: suas origens.


A interlocutora Filosofia afirma, novamente, que a felicidade pode ser percebida, ainda que imprecisa, através da origem da própria felicidade. Afirma que o ser humano é naturalmente inclinado ao bem, porém sua cegueira o leva para outros caminhos. Pois a felicidade não é atingida com o acumulo de bens, se fosse ela seria a primeira a admiti-lá (Embora, neste caso, seja o Boécio que esteja falando). E visto que esta felicidade não é atingida através deste acúmulo de coisas, então elas são enganosas.
A Filosofia dialoga com Boécio justamente para saber se ele era feliz, visto que em sua vida ele teve tudo em abundância. E ele responde que parece que sempre faltou algo, de tal forma que apesar de ter tudo, ele ainda tinha preocupações. Ainda não são nos bens que se reside a felicidade, porque eles não bastam a si mesmo, por exemplo, no caso do dinheiro resta sempre uma necessidade a ser satisfeita, além de estarmos sempre dependente dele.

Poema
A Filosofia diz sobre os ricos amargurados, que tanta riqueza, não consegue diminuir sua angústia. Sua sentença: com a morte seus bens o abandonarão.


Desta vez, a Filosofia faz um discurso sobre como as honras, os altos cargos e magistraturas não são sinônimos de felicidade. Geralmente estas virtudes não são absorvidas para neutralizar defeitos, mas, em contrapartida, os expõem, como no caso da corrupção, onde a indignação surge mediante tal crime. Quanto as pessoas sábias, não é possível dizer se são indignas de respeito ou da sabedoria que elas possuem. De tal forma que nenhuma honraria pode conter beleza ou dignidade.
Além disto, se o homem baixo não pode ser medido pelas pessoas que o desprezam, a honra, quando exposta para as pessoas (e qinda que não sirva para nada), irá tornar a situação do desprezado ainda mais grave.
Tanto a honra não serve para nada, que de que valerá as honras de um homem letrado ou com cargo político em terra de barbáros? Ou seja, a honra nunca é absoluta e varia conforme o olhar de quem a vê. Além de não proporcionar nada à pessoa a qual a honra é prestada, e quando manchada em pessoas desonestas, como pode ter algo de bom a ponto de ser desejada?

Poema
Através do exemplo de Nero, que era estravagante e detestado, a Filosofia questiona de que vale um título de senador vindo deste tipo de pessoa? Quem se sentiria honrado em receber este título? Quem iria ver com bons olhos?


Na 9º parte, a Filosofia alerta sobre que felicidade é esta que o poder pode proporcionar para quem os detem? Afinal, o poder nunca é absoluto: ele é determinado por tempo, por território, ou seja, é limitado. Se o poder é felicidade, além de seus limites, encontra-se então, a infelicidade e o infortúnio. Quem tem o poder teme mais do que é temido. Tem que andar com seguranças, é odiado, e ele mesmo traz uma série de preocupações e angústias. Além disto, de que serve o poder, se muitas vezes ele só pode ser exercido mediante concessão de subordinados, e quando suas ordens dependem da aceitação de quem as executam. E de que servem os amigos que são adquiridos somente pela Fortuna e pelo poder, e não pela conquista e admiração?

10º Poema
Aqui, a Filosofia lembra que aquele que quer ser poderoso, deve acalmar as suas paixões, e enaltece a necessidade de ser humilde, pois o curso da Natureza continua seguindo e sendo o mesmo.

11º
Neste parágrafo, Boécio irá atacar a Glória, que segundo ele engana os homens. Muitas vezes a glória vem da opinião enganosa de muitos homens, neste caso, onde estaria a glória ao ouvir elogios que não condizem com a realidade? E mesmo que a opinião seja verdadeira, o sábio jamais deve se apeguar a opinião pública. Por fim, a Glória muitas vezes se estabelece apenas em um lugar, em outros locais as pessoas não reconheceem esta glória. Ou seja, isto não pode ser felicidade, visto que é limitada e delimitada por espaço.

12º Poema
Neste poema, Boécio questiona "Porque vangloriar-vos de vossa linhagem e de vossos ancestrais" se a origem do ser humano se resume apenas à Deus?

13º
Também diz que a felicidade não pode ser prazer sexual, visto que este sempre vem através de muita dor e angústia. Para isto, basta recordar as antigas paixões para descobrirmos o quanto sofremos. Se este prazer fosse felicidade haveríamos de reconhecer que os animais também são felizes e teríamos que reduzir a felicidade a uma necessidade física.

14º Poema
Boécio apenas lembra que a paixão é muito ingrata, pois da mesma forma que lhe traz o bem, desaparece deixando apenas corações feridos.

15º
Agora Boécio retoma todo o seu texto para reforçar a idéia que nenhuma das formas apresentadas até aqui pode trazer a felicidade. Mesmo os dotes físicos são superficiais pois não há como ultrapassar a força de um elefante e a velocidade de um tigre. Também surge a idéia de que tudo aquilo que é visto como belo, como as coisas que vemos na natureza, não é propriedade da coisa em si. A qualidade de enxergar o belo vem dos olhos que fazem o juizo.

16º Poema
Através deste poema, Boécio ironiza os homens, ao chama-los de "Pobres dos mortais", nesta busca inútil pela felicidade através dos objetos. Chega dizer algo como "Deixem eles, quando observarem que isto não trás felicidade alguma, poderão distinguir os verdadeiros bens".

17º
Neste diálogo com a Filosofia, ela irá dizer que estas falsas buscas acontecem porque o homem acaba por complicar as coisas mais simples. Tenta dividir o que é indivisível na natureza, transforma o verdadeiro no falso e o que é perfeito em imperfeição. Durante o percorrer deste parágrafo, Boécio vai dizer que a felicidade é uma coisa só e indivisível, e na ignorância do homem, ele tenta, inutilmente, pegar um pequena parte de um todo (sendo que neste todo, as coisas podem ter nomes diferentes, mas no fundo é a mesma substância). Então a Filosofia irá dizer que este todo, este uno, é Deus. É em Deus que o homem deve orientar a sua busca e é nele que encontrarão a felicidade.

18º Poema
Através de um canto, a Filosofia irá reverenciar Deus como uma forma perfeita e responsável por tudo o que há de bom e belo.

A Filosofia e O Filosofar Para Sócrates

sexta-feira, 30 de maio de 2008

No texto Apologia de Sócrates da autoria de Platão, sabido por todos como o principal aprendiz, seguidor-apóstolo, de Sócrates, em parte devido à grande obra de sua filosofia e em parte por ser o principal documentador da filosofia de seu mestre, encontramos todos os ingredientes a qual reconhecemos num filósofo: atitude filosófica crítica, reflexão filosófica, indagação e, talvez, um elemento sem a qual não é possível ser filósofo: postura rígida para encarar todas as conseqüências provenientes de sua filosofia.

Não foi despropositalmente que eu coloquei o termo apóstolo no primeiro parágrafo introdutório. De certa forma Sócrates é endeusado por toda a filosofia posterior a sua existência, e ainda em vida pode colher votos de admiração por parte daqueles que conviveram consigo e que seguiram os seus ensinamentos, ainda que ele não tivesse uma escola e não se propunha a ensinar nada, a não ser promover a sua própria ignorância como única certeza, fato que o evidenciava como mais sábio, visto que como os outros não reconheciam a sua própria ignorância era correto afirmar que nada sabiam acerca de nada.

É através desta fórmula de saber que nada se sabe que Sócrates tenta explicitar a ignorância dos outros, principalmente daqueles que se julgam sábios em seu próprio tempo, e ao constatar a mesma, e observando que ainda que isto fique claro para ele os outros não admitem o veredicto, Sócrates vai percebendo que realmente ele é o mais sábio de todos os homens justamente por saber que os homens de seu tempo não sabem de nada – não conseguem sustentar os seus próprios argumentos. Ele também não conseguia formular uma opinião sustentável sobre algo, porém ele sabia uma coisa que ninguém sabia ao dizer “só sei que nada sei”.

Muito embora não tenha sido o criador da palavra filosofia e seus derivados, Sócrates, convém afirmar, é responsável por arquitetar a filosofia e o homem filósofo, ou aquele que busca uma iniciação filosófica. É ele que explicita o jargão que diz muito verdadeiramente que a filosofia não serve para nada. Em sua defesa, Sócrates afirma que os únicos que sabem das coisas são os deuses e ele entende que quando o oráculo de Delfos afirma que ele é o mais sábio dos homens, é incumbido de demonstrar para os homens que sua sabedoria não tem valor, conforme evidenciado no trecho abaixo:

“A verdade (...) quem sabe é apenas o deus, e ele quer dizer (...) que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. (...) como se tivesse dito: ó homens, é muito sábio entre vós aquele que, igualmente a Sócrates, tenha admitido que a sua sabedoria não tenha valor algum.” PLATÃO. Apologia de Sócrates. In: Os Pensadores; tradução Enrico Corvisieri. 1º ed. São Paulo : Nova Cultural, 2004. Pg.73 (Os Pensadores).

Claro está que a filosofia de Sócrates não visa recompensas, não visa fama ou algo que enriqueça o homem, mas apenas, única e exclusivamente, a incessante busca da verdade, que é a base de toda a filosofia.

Não obstante, Sócrates inaugura uma nova forma de filosofia, que se estende por todos os anos que seguem após a sua morte até os nossos dias: a interiorização do conhecimento dentro do próprio homem e em direção ao próprio homem. Sócrates está preocupado com a questão homem. Mais especificamente falando, Sócrates está preocupado com o conhecimento falso e sedutor que o homem adquire e promove entre eles.

Por isto mesmo Sócrates nos ensina mais uma lição que acaba se tornando a característica de um filósofo: a atitude filosófica.

Sócrates decide arcar com todas as conseqüências de sua filosofia de “desmascaramento”, de revelação de toda a ignorância, e promove a mesma em plena praça pública no centro de Atenas, vulgo polis, convidando pessoas, que ao longo do discurso se tornam rivais, para debates acerca de coisas simples, fazendo com que estas pessoas se percam dentro de si mesmas e que se sintam humilhadas perante a todo o público presente nestes círculos de discussões, fazendo transparecer a todos que um dito sábio, letrado e mestre na arte de discursar, era tão ignorante quanto um pobre artesão. E mais, para estes sábios, que acabavam numa discussão com Sócrates, ele deixava ainda mais claro que a única coisa que eles sabiam fazer era persuadir as pessoas, justamente por serem mestres de retórica, porém que o conhecimento dos mesmos não servia de nada.

Nestas discussões Sócrates buscava ainda um elemento característico da filosofia: a essência das coisas.

Ele sempre estava a perguntar pelo o quê, pelo o porquê e pelo o como das coisas, e não se satisfazia com nenhuma resposta visto que nenhuma respondia essencialmente a nenhuma de suas questões, todas eram meramente superficiais.

Sócrates enraíza de vez que o filósofo deve ser apenas um amigo da sabedoria, e não necessariamente um sábio. O filósofo deve procurar abrir possibilidades, alternar caminhos, duvidar, indagar, criticar. Deve questionar sempre a respeito das coisas, de modo que se busque a verdade.

Sócrates demonstra claramente que, ao invés de procurarmos respondermos as coisas, devemos procurar indagar as mesmas.

Sócrates utiliza de outro método que é característica em quase toda a filosofia: o método da lógica e da razão. A negação está sempre presente na filosofia de Sócrates como parte integrante do ato de duvidar. Este ato de duvidar pressupõe chegar à algum conhecimento sustentável, ainda que esta dúvida possa desmoronar conhecimentos que eram tidos como verdadeiros e que por isto mesmo pode gerar grande decepção e, conseqüentemente, dor, e por isto Sócrates se considerava um parteiro, pois num diálogo ele fazia o parto de novas questões, de novas idéias, e geralmente elas vinham com muita dor através da negação de um conceito anterior.

Aí está mais uma característica de um pensamento filosófico: o filósofo deve parir idéias, pontos de vista e novos conhecimentos.

Ainda na Apologia de Sócrates somos convidados por Sócrates ao ápice de seu julgamento e de seu amor pelo saber. Sócrates é condenado a morte, mas ainda lhe resta uma chance, basta parar de praticar a sua filosofia e se exilar de Atenas para conseguir a anistia, mas Sócrates, quase que num ato de paixão, recusa estes termos escolhendo a sua própria morte, cujo podemos observar num trecho de extrema dignidade e devoção ao conhecimento.

“Algum de vós talvez pudesse contestar-me: Em silêncio e quieto, Ó Sócrates, não poderias viver após ter saído de Atenas? Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, acreditar-me-iam menos ainda.” PLATÃO. Apologia de Sócrates. In: Os Pensadores; tradução Enrico Corvisieri. 1º ed. São Paulo : Nova Cultural, 2004. Pg.91 (Os Pensadores).

Creio que após a leitura de um trecho como este, que demonstra uma lealdade a própria verdade, que no final é como ensinar filosofia a própria filosofia, o título deste texto poderia muito bem ser A paixão de Sócrates pois após a vida deste grande a certeza que fica é que a humanidade tomou o seu próprio caminho, que de certa maneira entendeu o significado do que é a filosofia, pois daí a filosofia gerou grandes filhos (a começar por Platão e Aristóteles), que para a filosofia se tornar útil a humanidade deve se manter inútil em sua própria jornada, que deve ser descomprometida, para que daí surjam os grandes sistemas que geram grandes ciências que se voltam para o próprio homem, como aconteceu com a psicologia, com a sociologia, com a medicina, com a biologia, quanto a física, entre tantas outras, todas filhas da grande mãe filosofia.
A humanidade deve respeitar os seus filósofos e lhe deixar trabalhar, lhe deixar refletir, lhe deixar criticar, pois como tal ele busca um bem maior.

Ele busca, infinitamente, a própria verdade.

Aristóteles: Movimento Dialético

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Como podemos observar no livro I da Metafísica, Aristóteles recorre a própria história da filosofia para comprovar a sua linha de raciocínio que está baseada nos quatro tipos de causa que são: a essência ou essencial natural da coisa; a matéria ou substrato; o princípio do movimento; causa final ou a finalidade da coisa em si.

Acompanhando o texto do próprio Aristóteles é impossível separar os seus conceitos de causas de toda a história da filosofia, justo que é o próprio movimento dialético de seu pensamento que formula toda esta rica história de afirmação, dúvidas e negação.

Claro está para nós que os primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos, em sua grande maioria, estavam unicamente preocupados com um destes tipos de causa, que é a causa material.

Para estes primeiros o reconhecimento desta causa estava a contento e as dúvidas cessavam ali.

Porém o próprio decorrer da história da filosofia os levaria a propor uma nova forma de investigação, já que obviamente resumir toda uma explicação à apenas uma causa material não serve para sustentar argumento algum que não gere uma massa excessiva de questionamentos, e por isto mesmo, passível de dúvidas. Somente com a causa material é impossível gerar qualquer conhecimento certo.

Mesmo antes de investigarem uma nova causa, os próprios pré-socráticos não estavam de acordo com eles mesmos. Cada um defendia sua própria tese de princípio sobre as demais teses. Tales ficou com a água, Anaxímenes negou e veio com a sua proposta de princípio ao falar do ar, assim também foi com Heráclito e Empédocles. A própria história da filosofia mostra que um argumento consistido apenas de causa material não se sustenta de forma alguma, o que gera uma infinita oposição.

Mas então surgem alguns pensadores, o que de certa maneira não demoraria acontecer, começam a raciocinar numa linha pensando, por exemplo, como a água de Tales pode se tornar homem, visto que a água por si só não tem a capacidade de se tornar homem. Enfim, surge, naturalmente, o questionamento pela causa do movimento, e destas investigações surge, conseqüentemente, toda uma negação da filosofia anterior e a construção de novas linhas de pensamento.

E eis aí o movimento dialético acontecendo.

É na própria realidade que o homem encontra a imposição de seu pensamento, já que analisando linhas passadas chega-se sempre a dúvida. Se pudermos afirmar isto, podemos dizer que a própria história da filosofia pressupõe um convite para filosofar de dentro da filosofia.

Quando falamos de filosofia e não sobre a filosofia somos colocados no centro de um novo universo, digo novo porque a dúvida sugere que algo diferente e sustentável deva ser construído, e podemos visualizar conceitos e pensamentos em qualquer direção a qual nos direcionamos. E quando isto acontece é certo afirmar que a história da filosofia está sendo reconstituída através de um ponto de vista filosófico, quando não, a própria história da filosofia está sendo reconstruída numa espécie de retroalimentação, onde o próprio objeto fabrica o seu próprio alimento. É como afirmar que a própria história da filosofia tem vida própria e se estende por si mesma e para seu próprio deleite, visto que é este movimento dialético, as quais participam todos os homens, que escreve as próprias páginas da história.

Esta relação pode ser mais bem estabelecida ao pensar que o movimento dialético é derivado direto da história da filosofia. Tanto é que Aristóteles diz que é inevitável que os homens passassem a questionar o tipo de causa do movimento, sugerindo assim que as lacunas de um pensamento gerarão dúvidas e deverão ser reconstruídas para se estabelecer, pois as circunstâncias levam a este constante movimento.

Estranhamente, ao concordar com a linha de raciocínio de Aristóteles podemos dizer que o homem está subordinado à própria condição do movimento dialético que faz com que ao analisar um pensamento A somos obrigados a formular um pensamento B, sempre que o mesmo não está a contento.

Parece-me que todos os pensamentos que não se preocuparam com aquilo que Aristóteles viria a chamar de quatro tipos de causas, não conseguem de nenhuma maneira se sustentar.

E mesmo aqueles que têm um raciocínio mais conceituado com o de Aristóteles negam a filosofia de seus anteriores e são negados pelos seus posteriores, gerando uma fórmula contínua e infinita da firmação de um pensamento e sua conseqüente negação.

Mesmo quando uma linha de pensamento sobre um objeto tem em vista a sua essência, sua matéria e o movimento que lhe constitui como objeto, se a finalidade não for pensada, ou no caso de não haver finalidade, esta filosofia não se sustenta.

É aplicando estas causas ao longo da história da filosofia até Aristóteles que podemos observar o quão certo ele está, já que a história da filosofia é a própria história do movimento dialético, onde a evolução do pensamento passa gradualmente por todos estes conceitos e estão intrinsecamente ligados pela necessidade de se explicar o real ou a verdade das coisas.

MGF: Costumes Contra Direitos

Claro está que para pessoas que convivem contaminadas pela cultura ocidental e norte-americana a prática da MGF (Mutilação Genital Feminina) é abominável justamente por ferir todos os códigos de violação dos seres humanos. É tão condenável como o estupro e outros crimes de atentado ao pudor.

Afinal esta prática, literalmente, fere as pessoas. Fazem as mesmas sangrarem e geram implicações tanto psicológicas, como complicações de saúde, chegando até mesmo à morte.

E tudo por causa de uma idéia e um costume.

Crianças inocentes de 6 a 10 anos de idade, que mal podem opinar sobre alguma coisa, são vitimas de um costume grotesco e selvagem. E o que as pobres podem alegar, já que são praticamente propriedades de seus pais?

Pronto, a opinião deste lado do prisma está dada. Agora vamos para o lado oposto.

Pois bem, um costume é algo que já faz parte da cultura de uma sociedade e é algo comum e aceito por todos. O próprio artigo afirma que as mulheres que convivem em meio a esta cultura são solidárias à prática do MGF. Elas se orgulham de serem mutiladas e sentem mais vivas e mais bonitas. E, já que eles aceitam esta prática, quem somos nós para falar o contrário?

Já que somos contra, basta que não pratiquemos estes atos, como é de praxe. Mas não. Como seres humanos dotados de inteligência, temos que ficar nos importando com os outros. É quase a mesma coisa que você perguntar para um colega como ele vai, ele responde que esta tudo bem, e você diz que não, que não está tudo bem, e começa a enumerar todas as coisas que estão erradas na vida de seu colega (mesmo que para ele esteja tudo bem).

Costardi, em seu livro “Um condomínio chamado família” diz o seguinte sobre o homem: “Cuidar de si já não basta para aquele que acredita que seu papel é cuidar do outro, freqüentemente deixando de investir em suas necessidades para dedicar-se ao sádico e alienante exercício de administrar aquilo que não é de sua competência.”

É a nossa cruel natureza. Vamos abrir ONGs, sair às ruas, e defender com as facas nos dentes e punho cerrado idéias do que é melhor para os outros. Como se a nossa vida já não tivesse diversos problemas para serem resolvidos, vamos tentar resolver a vida dos outros. No caso deste texto, vamos tentar resolver os problemas de cultura de uma sociedade, que eles não vêem como nada demais, e estabelecer a nossa cultura de MacJobs, Coca-Cola e Jeans como padrão, pois ela é a melhor para nós, e o que é bom para mim eu quero para você.

Existe um antigo documentário chamado Xingu que demonstrava o cotidiano de uma tribo indígena da Amazônia. Em um determinado momento mostrava uma criança sendo surrada como parte da iniciação da transição para a vida adulta. O que falando parece ser uma cena cruel, no documentário parecia muito bonito. Um homem de verdade estava sendo formado. Um guerreiro. E desde cedo ele iria aprender a suportar a dor.

E mesmo parecendo ser uma prática distante de nossa realidade, tenho uma experiência legal para ser compartilhada a respeito disto. Eu fiz, á cerca de dez ou onze anos atrás, por cerca de quatro meses, um curso preparatório para ingressar no exército brasileiro numa instituição chamada ASA (Academia Superior de Armas). Como eu trabalhava durante a semana, tinha que fazer aulas de educação física lá na Comarca do Ipiranga. Houve uma vez, que enquanto treinava, haviam diversos soldados enfileirados lado a lado. Então surge um superior e começa a dar fortes tapas nas caras dos soldados, e enquanto vai agredindo este pelotão vai gritando dizeres como: “Isto é para vocês aprenderem a apanhar e não chorar (tapa), pois se caírem nas mãos dos inimigos (tapa) serão agredidos (tapa) e torturados (tapa) para revelarem informações de seus colegas (tapa). E vocês devem aprender a conter a dor (tapa)”.

Alguém já leu sobre isto no jornal? Creio que não, mas existe alguma diferença no texto sobre MGF? São os direitos humanos sendo violados novamente, mas será que esta cultura que se cria dentro do exército de agredirem os seus companheiros não é válida para um contexto de guerra?

Pegando a idéia da MGF, temos que balancear as duas idéias. Acredito que cada um deve fazer o que bem quiser de sua vida, desde que não interfira na vida dos outros, sendo assim creio que a MGF deve ser prática, desde que as pessoas que sofrem a mesma estejam de acordo, e caso não estejam de acordo, não deve haver retaliação por parte da sociedade, e as leis devem existir para proteger os dois interesses.

Temos aqui no Brasil, como exemplo, uma seita chamada Santo Daime. O Santo Daime é uma bebida que tem em sua composição o cipó jagube, que ao ser mistura com a folha, ativa os poderes alucinógenos da chacrona. Ao beber, as pessoas entram em transe e começam a ver coisas. Enfim, é uma composição que tem efeitos similares a outras drogas ilícitas, porém o Brasil, que tem uma política rígida contra as drogas, permite que a bebida seja comercializada em pró da cultura e da crença que está por trás do Santo Daime.

Este é o caso em que as leis se permitiram que a cultura se mantivesse intacta. E que beba o Santo Daime quem quiser.

A Concepção do Homem para Karl Marx

terça-feira, 27 de maio de 2008

Lembro que, há alguns anos atrás, eu tinha um amigo que trabalhava como operário em um fábrica de CDs. Lembro que houve uma vez que lhe fui visitar em sua residência e, ao entrar na sala, encontrei uma verdadeira gama de CDs de Heavy Metal. Uma vez lhe perguntei se ele tinha uma idéia de quantos CDs ele havia adquirido até então e ele me respondeu, prontamente e com o semblante orgulhoso, que girava em torno de seiscentas unidades. Demonstrei o meu real espanto e ele rapidamente se prontificou a justificar as suas aquisições me dizendo que no local onde trabalhava ele podia pegar os CDs com um bom desconto e os mesmos eram debitados de seu pagamento no fim do mês. Também me recordo de sua felicidade ao dizer que era feliz em seu trabalho justamente por consolidar o “útil” com o “agradável”.

Como podemos notar, a cena se repete nos mais variados segmentos e com os diferentes níveis culturais presentes em cada um dos seres humanos que vivem neste nossa época, dentro do sistema capitalista. É dentro deste sistema que encontramos o foco do pensamento de Karl Marx em sua principal obra, O Capital, cujo faremos uma breve análise sobre a concepção do homem a partir de sua teoria estruturada.

Para iniciar, é essencial dizer que o homem no capitalismo é o que é graças à realidade material a qual vive. É esta realidade de enriquecimento (de consumo) que faz com que o homem exista no capitalismo, sendo que é esta mesma realidade a responsável por ditar todas as diretrizes necessárias para viver neste grande jogo que é o capitalismo. É como uma grande simulação de uma verdadeira realidade que, assim como naqueles jogos de vídeo-game, nos faz pensar que temos o controle da situação, que temos o controle de nós mesmos e que podemos caminhar para onde quiser.

Em Karl Marx observamos uma inversão de conceitos ao perceber que em seu pensamento a realidade é responsável por gerar idéias, e não o contrário (ainda que exista uma certa correlação entre ambas). No caso citado no início do texto, é a realidade de um operário, que acredita que ao comprar CDs por um preço mais barato do que os praticados no mercado em geral, está de certa forma levando vantagem ao acumular valores, ainda que o mesmo seja colecionador e esta aparente vantagem é algo que está enraizado apenas dentro dele. Neste caso comprovamos que é a realidade, a qual estamos situados, que gera as idéias.

Mas o mais absurdo, neste caso, é detectarmos um homem que se julga racional e sensato sendo atraído por todo o charme do consumismo capitalista. É absurdo pensarmos em um homem que vende seu conhecimento e sua mão de obra na fabricação de um material, que ajudou um burguês a ficar ainda mais rico, acabe sendo recompensado com uma pequena parte da própria mercadoria que ele fabricou.

Por isto é correta a afirmação que diz que o homem é um animal social. De certa maneira, Karl Marx tenta mostrar que o homem no capitalismo é totalmente desfigurado, descaracterizado de sua própria essência humana e subordinado ao capital. Realmente o homem é manipulado pelo sistema capitalista como um animal, onde o que lhe move é uma enganadora realidade onde as coisas se apresentam extremamente sedutoras e ele é pressionado a adentrar neste sistema para poder se socializar com os demais homens.

No capitalismo a humanização é proposta ao homem através da venda de seu trabalho, ou melhor dizendo, de sua força de trabalho, termo utilizado pelo próprio Karl Marx, que assim o define:

“Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie.” (MARX, K. Como o dinheiro se transforma em capital. In:_____.O Capital – Crítica da Economia Política, Livro 1 – Volume 1. 23º ed. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2006. p.197.)

E aqui observamos o homem se tornando um animal social uma vez mais, vendendo não só o seu conhecimento, mas também o seu corpo físico, cujo sistema pede que seja saudável e em plenas condições de exercer uma atividade a qual possa produzir em benefício do comprador (ou do detentor de dinheiro) desta sua força de trabalho. Por certo aqui já temos um problema, visto a existência de pessoas com deficiências que as impedem de trabalhar. A priori o sistema capitalista os exclui da sociedade. Mais recentemente estas mãos de obra também são exploradas de forma ainda mais acentuada, já que o salário está abaixo do que uma pessoa em plenas condições físicas ganharia para produzir um mesmo produto.

Neste contexto, além de um animal inumano, podemos afirmar que o ser humano se transforma em uma simples mercadoria e que existe somente por ser uma extensão do capitalismo, que necessita comprar sua força de trabalho para produzir seus valores-de-uso.

A grande realidade é que o sistema do capital ganhou vida própria e tem o grande artifício de conduzir toda uma sociedade em pró de alguns poucos beneficiários. Esta sociedade é composta de homens que são objetivados pelo capitalismo a se tornarem homens-robôs, onde as idéias e a razão destes homens são exterminadas por regras impostas e pela sedução presente na falsa idéia de liberdade, que talvez seja apenas uma simulação de realidade.

A primeira verdade é o dinheiro, e com esta sentença podemos dizer que se o temos então estamos aptos a realmente existir, caso não o temos somos objetivados a adquiri-lo para então existirmos.

A segunda verdade é a força de trabalho proveniente do homem, sem o qual não existe sem exploração e, conseqüentemente, a circulação de capital deixa de acontecer. Sem o papel do homem não há possibilidades de concretizar o capitalismo e alguns conceitos, como o mais-valia, seria de difícil, senão impossível, compreensão.

Ou seja, no fim é como se um senhor chamado “O Capital” estivesse jogando The Sims - traduzindo para uma linguagem mais clara, seria algo como Os Proletários – num grande computador – que podemos chamar de planeta – e nos guiando de forma que ele seja o único vencedor (ou, para explicitar um pouco mais, os detentores do capital – conhecido por Karl Marx como burgueses).

Sócrates X Sofistas: Comparações

Para iniciar esta dissertação, me sinto no dever de fazer uma breve apresentação de ambas as partes. De um lado temos nada menos do que os Sofistas, grandes mestres da retórica e da arte de persuasão; se julgam detentores do conhecimento e fazem parte, de certa maneira, da elite da sociedade helena, especificamente em Atenas. Eles vem das regiões da Jônia e da Magma Grécia direto para o centro cultural do mundo naquele momento, trazendo com eles toda a bagagem de onde nasceu a filosofia. Eram movidos pelo dinheiro, e transmitiam sua sabedoria a qualquer um que estivesse disposto a pagar o preço, uma espécie de professor remunerado ou pedagogo.

Do outro lado temos nada mais nada menos que Sócrates, o grande dos grandes, ateniense nato. O homem que desafiou toda uma geração e deixou ao mundo uma maneira singular, e talvez a mais influente forma, de fazer filosofia ao questionar o nosso próprio conhecimento acerca das coisas.

Sócrates, que se considerava ignorante à cerca das coisas, surpreso com a revelação do Oráculo de Delfos, que lhe dizia que ele era o mais sábio de todos os homens, resolveu sair em busca da confirmação desta sentença com o método que caracterizaria toda a filosofia dali por diante: o questionamento.

Em plena Pólis, durante o decorrer dos dias, Sócrates questionava o primeiro cidadão que estava passando em seu caminho a respeito das dúvidas que lhe assolava, e percebia que ninguém conseguia lhe responder com clareza.

Quando questionado sobre a virtude, Mênon acredita que a resposta é simples de ser respondida, porém Sócrates o convence que a resposta não é verdadeira porque ela deixa lacunas em aberto e não responde a questão em toda a sua plenitude. Tanto é que Mênon encerra o diálogo dizendo: “De fato, Sócrates, eu ainda não posso, de acordo com o que procuras, alcançar uma virtude cuja unidade se encontre em todas, assim como nos outros casos já vistos.”

Sendo assim, recorria então aos sábios de sua época, incluindo os sofistas, para questionar acerca das coisas a qual os questionados eram especialistas e percebia que os mesmos não conseguiam responder sobre a questão, eles apenas davam voltas acerca do assunto, e acabavam sendo ridicularizados em público, já que Sócrates nunca se satisfazia com as respostas destes sábios.

Foi aí que Sócrates entendeu que ele era o mais entre os homens justamente porque ele, ao menos, sabia que nada sabia. Já os outros não sabiam nada. Apenas enganavam ou eram enganados com conhecimentos falsos.

Sendo assim, um primeiro contraste que podemos nos assegurar é que Sócrates se considera um ignorante a respeito das coisas, já os Sofistas se consideravam detentores do conhecimento.

Também podemos ver algo semelhante entre eles logo de início: tanto os Sofistas como Sócrates se pronunciavam de forma inteligente e convincente, tornando se referências para as pessoas que conviviam com os mesmos naquela época.

Também podemos observar que Sócrates buscava a verdade através de diálogos públicos com os mais variados tipos de pessoas. Como característica, a sua filosofia em forma de diálogo sempre buscava, essencialmente, a verdade sem nenhum interesse adicional ao seu objetivo. Se alguns dos envolvidos em seus diálogos eram simplesmente expostos ao ridículo, era justamente por conseqüência de não conseguirem sustentar um argumento que consideravam verdadeiros.

Já os Sofistas jamais buscavam a verdade, porém tinham respostas para todas as questões baseadas simplesmente na retórica e na persuasão. Ao invés de questionar, sempre respondiam. Eram teóricos e orientavam aqueles que buscavam os seus ensinos para que os mesmos se sobressaíssem aos demais. O pensamento dos Sofistas era inquestionável, não havia espaço para discussões ou debates a respeito das coisas. Podemos observar nesta frase do texto O Pensamento Antigo: “É natural que uma pessoa se transforme em sua maneira de agir de forma semelhante à do companheiro com que convive diuturnamente”. É uma explicação direta sobre a educação, não passível de questionamento e sentencia uma direção a ser ou não tomada.

Para os Sofistas tudo surge por convenção, inclusive a virtude, sendo assim tudo pode ser ensinado. Por isto mesmo podemos observar que os Sofistas ensinam o máximo de virtudes possíveis, explicando a origem da sociedade, origem das leis, como se portar, a importância da educação, a importância dos exercícios físicos entre outras coisas. Numa linguagem mais moderna, podemos dizer que os Sofistas são especialistas em condicionar homens. De ensinar como eles devem se portar diante da sociedade e de como eles devem desenvolver sua vida social. Ensinam o mesmo como a falar bem, como defender argumentos contrários sempre.

Além disto, os Sofistas sempre estão a cobrar por seu conhecimento, algo que Sócrates refuta e condena porque acredita que o homem é descaracterizado e perde a sua autonomia, passando a agir contra a sua vontade para viver a vontade de outros, já que eles estão à venda ao cobrar pelo ensino. Além disto, para Sócrates, a virtude não pode ser ensinada.

Sendo assim podemos estabelecer uma pequena tabela comparativa com alguns conceitos semelhantes entre Sócrates e os Sofistas:

+ Sócrates: Era contra o pagamento pelos ensinamentos;
- Sofistas: Não só eram a favor, como era a sua principal característica
+ Sócrates: A virtude não podia ser ensinada;
- Sofistas: A virtude era ensinada em suas aulas
+ Sócrates: Considerava-se um ignorante a respeito das coisas;
- Sofistas: Consideravam-se sábios
+ Sócrates: Estava preocupado em descobrir a verdade a respeito das coisas;
- Sofistas: Estavam preocupados apenas a rebater qualquer argumento
+ Sócrates: Sua filosofia era baseada em diálogos;
- Sofistas: Eles ensinavam sempre sem contra-argumentações por parte de seus alunos
+ Sócrates: Seus discípulos se reuniam em locais públicos com Sócrates;
- Sofistas: Os discípulos dos Sofistas dialogavam em locais fechados

Enfim, estas são apenas algumas diferenças grosseiras, mas o importante é salientar que tanto os Sofistas como Sócrates, falavam sobre coisas do homem, quase sempre relacionado às suas virtudes.

Por isto mesmo é que podemos fazer uma comparação entre os seus pensamentos, pois aqueles que atuam no mesmo campo podem ser, de certa forma, considerados adversários.

É assim que Sócrates, seus seguidores e seus contemporâneos, se mantém tão atuais, proporcionando discussões profundamente relevantes para a concepção do pensamento, esta ferramenta tão diferenciada nos seres humanos que nos permite um grau tão elevado de análise, que talvez só tenha alcançado o seu status e a sua importância em nosso desenvolvimento cultural e científico graças à estas discussões em plena Pólis, forçando assim a desenvolvemos um raciocínio analítico e lógico.

Baudrillard: A Precessão dos Simulacros

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Depois de introduzir diversos conceitos, além de traduzir algumas partes do wikipedia relevantes ao nosso estudo, vamos iniciar a leitura da obra Simulacres et Simulation ("Simulacros e Simulações"), publicado originalmente em 1981. Este é o projeto mais conhecido de Baudrillard e que lhe projetou como uma das grandes celebridades intelectuais de nosso tempo.

A edição que tenho em mãos foi publicada pela editora Relógio D'Água e foi traduzida por Maria João da Costa Pereira. A edição é de Portugal e, ao menos por enquanto, não há previsão de ser lançada no Brasil, portanto é necessário importar o livro (facilmente encontrado em livrarias como a Cultura).

O início da leitura se dá com o capítulo A Precessão dos Simulacros que irá abordar os seguintes tópicos:

- A Irreferência Divina das Imagens;
- Ramsés ou A Ressurreição Cor-De-Rosa;
- Hiper-real e Imaginário;
- O Encantamento Político;
- A Negatividade em Espiral - Moebius;
- A Estratégia do Real;
- O Fim do Panóptico;
- O Orbital e O Nuclear;

Baudrillard introduz este capítulo com uma fábula de Borges, que conta que uma vez os cartógrafos do Império desenham um mapa, que de tão detalhado acaba por cobrir toda a extensão do território, sendo que ele mesmo não pode mais ser reconhecido. Porém com a queda do Império, o mapa se fragmenta de tal modo que restam apenas alguns vestígios, que podem ser encontrados nos desertos.

Esta fábula, da forma que está, pode ser discretamente inserida como um simulacro de segunda categoria¹. Veja que, neste caso, é possível abstrair o conceito de "território" a partir do conceito de "mapa". Ou seja, o território precede, necessariamente, o mapa, sendo impossível que o mapa exista sem ele. De certo, há um relacionamento entre os dois, porém é possível distinguirmos um do outro, de tal maneira que sabemos o que é um e o que é outro. Se formos abstrair ainda mais, podemos chegar ao solo, que é a substância do território.

Porém, em nosso tempo a coisa acontece de maneira diferente. Há uma inversão dos papéis. Se antes o território precedia o mapa, hoje é o mapa que precede o território. Isto porque a simulação perdeu a sua referência - ela não simula alguma coisa a partir de outra. A simulação agora acontece em modelos de geração de um real sem origem, e visto que este real simulado não tem origem, não há exatamente uma realidade, o que há é o que Baudrillard chama de hiper-real - ou seja, não é que a coisa seja falsa, mas é o que o real nunca mais poderá ser produzido novamente.

Observe que aquilo que precede o mapa não é mais o território, mas sim o simulacro. É o simulacro que "cria" o território que satisfaça ao mapa, cubrindo, aos poucos, os ultimos fragmentos do real. Os vestigíos do real ainda subsistem no deserto, que não é mais o deserto do Império, mas o nosso deserto. O deserto do próprio real².

Desta forma a fábula não pode ser mais utilizada. Perceba que os simuladores coincidem o real com os seus modelos de simulação de tal maneira que não conseguimos mais perceber as diferenças. A diferença, que antes permitia a abstração das coisas, já não existe. É o fim da coexistência imaginária. Segundo Baudrillard, a simulação é indivisível, ou seja, não coexistência simulada. O real é produzido a partir de memórias, matrizes e de modelos de comando. A partir daí, pode ser reproduzido infinitamente.

Estes modelos combinatórios são o próprio hiper-real. Todos os seres referenciais são exterminados, não há real, nem uma única verdade, além da volta do sistema de signos, são características do início da era da simulação.

Os signos, que podem ser medidos e calculados, inseridos em sistemas binários e modelos de álgebras, são utilizados em modelos combinatórios para substituir e dissuadir o seu sentido real pelo seu duplo equivalente, ,ou seja, aquilo o signo também poderia representar, além do próprio real. Enfim, há uma substituição do significado real do signo para um outro significado e isto acontece de forma programática, como se fosses modelos gerados através de máquinas e computadores, onde o real de um signo vai sendo substituido pelo seu equivalente, e quando isto acontece o real é destruído para nunca mais ser recuperado.

A seguir, A Irreferência Divina das Imagens.


¹ Ver As Três Categorias de Simulacros
² BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulações. Ed. Relógio D'Água. 1991. Pg 8.

Baudrillard: As Três Categorias de Simulacros

Baudrillard identifica três categorias de simulacros, sendo que cada uma está relacionada a um determinado período da história.

1º ordem
È associado com o pré-modernismo, onde as imagens são claramente um ponteiro (uma referência) artificial para um objeto real.

2º ordem
É associado com a revolução industrial, onde a distinção entre imagem e realidade deixa de existir devido à proliferação de itens produzidos em massa. A capacidade de imitar de um item ameaça substituir a versão original.

3º ordem
É associado com o pós-modernimo, onde o simulacro precede o original e a distinção entre realidade e representação deixa de existir. O que existe é somente o simulacro. Neste caso, o simulacro origina uma série de fenômenos:
1) Midia contemporânea, incluindo televisão, revistas e internet, que são responsáveis por ofuscar a linha entre os bens que são necessários e os bens cuja necessidade são criadas por imagens comerciais;
2) Valor de troca, a qual o valor dos bens estão acima de seu real valor de uso;
3) Multinacionais capitalistas, que produzem os bens não-essenciais (cujo necessidade é criada) através de plantas, minerais e outros recursos naturais;
4) Urbanização, que separa os homens do mundo natural;
5) Linguagem e ideologia, a qual a linguagem é utilizada mais parar obscurecer do que relevar a realidade quando utilizadas por classes dominantes e grupos politicamente poderosos.

Fonte de Pesquisa: Simulacra and Simulation, Wikipedia (Em inglês)

Morto-Vivo, ou Sobre Incertezas

Cada vez mais sinto dificuldades em inspirar o ar refrescante que revigora a alma e que me deixa mais leve.

Estou mais pesado. Com muita dificuldade consigo caminhar por estas ruas incertas. Durmo cedo, maldito cansaço! Entro em desespero ao saber que não há origem para o que sinto, logo também não vejo o fim.

De certo mesmo, só as visões de que nada é constante. Não há uma única calçada que me dê certeza que não irei cair. Portanto, vivo com medo.

É tudo tão falso, tão imaginário, tão grave, que não vejo sentido em coisa alguma. Me delicio com a acidez do mundo, com a quebra de protocolos e com as teorias desconstrutivas, porém o que resta além disto? Nada mais, somente especulações.

Há razões para viver? Sim! Eu tenho, ao menos, dez excelentes razões para continuar a respirar. Porém, existem outras noventa razões para que não esteja mais aqui.,. Não se enganem, isto não são idéias suicidas! Ao contrário, são motivações que encontro para reunir a trupê dos angústiados e formar a sociedade utópica dos mortos-vivos. Pois prefiro ser um morto-vivo do que um vivo-morto.

Sim, caros senhores, sou mais um teórico desconstrutor de realidades, visto que elas são muitas. Me aguardem, pois há de chegar o dia em que eu irei tirar o véu do planeta e tudo o que restará será um imenso vazio. Apenas o nada.

Baudrillard - Introdução à Obra

sábado, 24 de maio de 2008

Continuação da tradução do conteúdo do verbete "Jean Baudrillard" em inglês do wikipedia.

Jean Baudrillard foi um critíco e teórico social conhecido, principalmente, por suas análises de modos de mediação e de comunicação tecnológica. Ele escreveu, embora sempre interessado na maneira em que o progresso tecnológico afeta o meio social, sobre diversos assuntos - consumismo, compreensão social da história e comentários jornalísticos sobre AIDS, clonagem, o caso Rushdie, a primeira guerra do Golfo e os ataques ao World Trade Center em Nova Iorque.

Toda sua obra emerge como parte de uma geração de pensadores franceses como Gilles Deleuze, Jean-Francois Lyotard, Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan, a qual todos compartilharam interesses em semiótica. Baudrillard também é visto frequentemente como parte da escola filosófica do pós-estruturalismo. Como muitos pós-estruturalistas, seus argumentos baseiam-se na noção que significação e significado somente são entendíveis nos termos de como palavras particulares ou signos se interrelacionam. Baudrillard argumenta que o significado se dá através de sistemas de signos trabalhando em conjunto. Seguindo o linguísta estruturalista Ferdinand de Saussure, Baudrillard argumenta que o significado é baseado numa ausência (então "cachorro" significa "cachorro" não porque a palavra o diz, mas porque ela não quer dizer "gato", "cabra", "árvore", etc). De fato, ele visualiza o significado próximo do seu auto-referencial: objetos, imagens de objetos, palavras e signos são situadas numa rede de significados; o significado de um objeto somente é entendível através de suas relações com outros objetos.

Deste ponto de partida, Baudrillard constrói amplas teorias sobre como a sociedade humana baseia-se neste tipo de auto-referencialidade. Suas imagens de sociedade retratam sociedades sempre procurando por um senso de significado - ou uma "total" compreensão do mundo - que permanece constantemente evasiva. Em contraste com pós-estruturalistas como Foucault, a qual acreditava que a busca pelo conhecimento sempre cria uma relação de poder e dominação, Baudrillard desenvolve teorias a qual o excessivo, a infrutífera busca pelo total conhecimento, quase sempre, inevitalvemente, levam para uma espécie de ilusão. Na visão de Baudrillard, o sujeito (homem) pode tentar entender o objeto (não-homem), mas como o objeto somente pode ser entendido de acordo com o que ele significa (e porque o processo de significação imediatamente envolve uma teia de outros signos a qual ele é distinguível) isto nunca produzirá o resultado desejado. O sujeito, no entanto, é seduzido (em latim, longe de conduzir) pelo objeto.

Ele concluira, em suas ultimas análises, que um completo entendimento das minúcias da vida humana é impossível, e quando pessoas são seduzidas para pensar de outra maneira, elas caminham para criar uma versão "simulada" da realidade, ou, utilizando um dos seus próprios termos, um estado de "hiper-realidade". Isto não quer dizer que o mundo torna-se irreal, mas, compreensivelmente, sociedades começam a associar uma realidade junto com uma imagem supostamente coerente, porém mais insegura e instável, o que torna as sociedades mais temerosas e amedrontadas. A realidade, desta maneira, acaba por falecer para nunca mais retornar.

Consequentemente, Baudrillard argumenta que no fim do século XX, o excesso de signos e de signicados na sociedade "global" tem mascarado a realidade. Neste mundo, utopias liberais ou Marxistas estão muito distantes de serem acreditadas. Nós vivemos, conforme ele diz, não em uma "vila global" (utilizando uma frase de Marshall McLuhan), mas num mundo que fica cada vez mais petrificado com o menor dos acontencimentos. Porque o mundo globalizado opera num nível constante de troca de signos , isto faz com ele fique cada vez mais cego para atos simbólicos, como, por exemplo, o terrorismo. No trabalho de Baudrillard, a área simbólica (a qual ele desenvolve uma perspectiva atrás de trabalhos antropológicos de Marcel Mauss e Georges Bataille) é vista como bastante distinta dos signos e significados. Signos podem ser trocados como commodities; simbolos, por outro lado, funcionam de forma diferente: eles são trocados, como presentes, algumas vezes violentamente, como uma forma de potlatch. Baudrillard, particularmente no final de sua obra, via a sociedade globalizada como sem este elemento simbólico, e, por isto, simbolicamente (se não militarmente) indefesa contra atos como o fatwa declarado para Rushdie ou como nos ataques terroristas do 11 de Setembro contra a América e suas bases militares.

O Valor de Um Filho

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Fui inspirado a escrever este post devido a uma daquelas apresentações em Power Point com mensagens coloridas, paisagens e músicas de fundo. Geralmente não dou muita atenção para estas coisas, mas como falava dos benefícios em ser pai, resolvi dar uma olhada e eis o que tenho a dizer.

Recentemente, o programa de telejornalismo "global" de variedades chamado "Fantástico" levou ao ar uma reportagem onde enfatisava o quanto custa caro criar um filho até os 23 anos. Embora não tenha visto o programa, ele acabou repercutindo em discussões no ambiente de trabalho, na sala de jantar, em outros meios sociais.

Um resumo da reportagem pode ser lida clicando aqui.

A reportagem, basicamente, divide a sociedade em quatro níveis, por renda familiar, e tenta elencar quais os custos gerados com filhos em cada uma das classes:
Grupo "1" > renda de R$ 1 mil por mês > o filho custa R$ 68,1 mil em 23 anos > equilave a dois carros populares
Grupo "2" > renda mensal de R$ 2 mil até R$ 5 mil > gasto com filhos: R$ 407.140 > um apartamento de três quartos, mais quatro carros.
Grupo "3" > renda mensal partir de R$ 6 mil > gasto de R$ 883,3 mil > dois apartamentos, oito carros e ainda 21 passagens para a Europa.
Grupo "4"> renda superior a R$ 25 mil por mês > gasto de R$ 1,609 milhão > equivale a quatro apartamentos, 16 carros, e 22 viagens para a Europa.

Pude observar diversos jovens, enaltecidos, se gabarem de quão inteligentes são por terem "optado" por não terem filhos, pois "dá para fazer um montão de coisas com todo este dinheiro". De certo, eles não estão errados em pensar desta forma, porém, qual é real valor de um filho?

Como pai, diria que 200 mil reais (valor sugerido pela reportagem como mais do que ideal para se criar bem um filho) é muito pouco! Irei explicar o porquê.

R$ 200.000,00 parcelados em 23 anos = R$ 8.695,65 por ano = R$ 725,00 por mês = R$ 24,16 por dia = R$ 1,00 por hora.

Por míseros R$ 1,00 por hora, o quê você terá direito?
- Beijos e abraços diários;
- Sorrisos constantes;
- Curso de paciência com certificado garantido;
- Aprender a não ter medo do escuro;
- Brincar com brinquedos, quando bem entender;
- Ser visto como Super-Herói por fazer coisas pequenas;
- Levar um "amiguinho(a)" para o estádio de futebol;
- Tomar banho de mangueira, no seu quintal, nos dias quentes;
- Montar lego e quebra-cabeças;
- Assistir desenhos animados;
- Gravar o seu nome para além de sua existência;

Nossa! Quanto coisa legal! Por R$ 1,00 por hora! Eu pago esta merreca e tenho direito à todas estas coisas por quanto tempo? É para todo o resto de sua vida, caro amigo. Para cada instante, cada segundo, cada suspiro. Vai estar tudo lá, disponível para você aproveitar! Não perca mais tempo, se você já tem tudo isto, aproveite bem o que tem, se você ainda não tem, não fique sistematizando o homem e não subestime a capacidade e experiência de um pai ou de uma mãe, pois a experiência de ter filhos faz parte do processo de construção dos estágios da vida humana, enfim, você só concluirá o processo de se tornar homem ou mulher, quando passar por todos os estágios. E esta é uma etapa maravilhosa que não deve ser pulada.

Afinal você pode ter um carro importado, uma casa legal, mas isto, nem de longe, se equipara ao prazer alcançado com nossas pequenas criaturas, ademais, agradeça os teus pais por não pensarem como você - que pensa que filhos não são bem-vindos - pois ao invés de você existir, o que haveria seria um apartamento no Leblon ou VW/Passat. Você pode ter um carro importado, mas não deixe de ser pai. O investimento é muito pequeno e os benefícios são para toda vida.

O Estrangeiro: Uma Reflexão

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Neste belo período, onde atendo todos os meus desejos culturais, não poderia deixar de comentar a respeito de um livro que eu já queria ler há muito tempo, porém só pude apreciá-lo nesta ultima semana: se trata de O Estrangeiro de Albert Camus. Se trata de um daqueles livros infinitos, com infinitas possibilidades de análise, de rara profundidade e que traça um retrato do homem e de suas relações. É, se assim posso dizer, como a Metamorfose de Franz Kafka, quanto à sua beleza, porém diferente quanta a sua narrativa.

Para situar melhor a obra de Camus, é necessário traçar uma pequena biografia (recomendo insistentemente que você leia o verbete completo no wikipedia. Para isto, clique aqui): Nasceu em 07/09/13 na Argélia numa familia muito pobre e humilde. Camus foi constituido em torno da guerra, da fome e da miséria. Praticamente não conheceu o seu pai (ele morreu na Batalha de Marne no ano seguinte ao nascimento de Camus). Sua familia tinha enormes problemas financeiros, sua mãe lavava roupa para fora e quase que ele abandona o colégio por causa destas dificuldades.

Por fim, ele finalmente consegue se tornar doutor em filosofia com uma tese sobre Santo Agostinho, porém antes de se tornar professor, uma grave crise de tuberculose o afasta do meio acadêmico. A possibilidade real de morte, no seu dia-a-dia, acabou por influenciar toda a sua obra, que retrata as angústias de seu tempo, basicamente o absurdo de existir.

Em 1942, estabelece uma relação estreita de amizade com o filósofo Jean-Paul Sartre, cujo corrente existencialista estará presente em seus textos, embora Camus negue e prefere apenas dizer que suas obras tratam apenas do absurdo. Em 1957 ganha o Prêmio Nobel da Literatura.

Morre em 1960 num acidente de automóvel, onde ele não deveria estar, visto que viajaria de trem. A respeito da morte do filho, sua mãe diz "Jovem demais" e morre no mesmo ano.

Em "O Estrangeiro", Meursault é o narrador de sua própria história. Homem simples, alienado, é assaltado pela morte de sua mãe, cujo aviso se dá através de um telegrama do asilo a qual ela vivia. Ao comparecer no enterro, o protagonista está totalmente desprovido de sentimentos. A morte de sua mãe, aparentemente, é um acontecimento como outro qualquer, e não lhe abala em nenhuma proporção.

No dia seguinte conhece Maria, a qual inicia um caso onde o sexo prevalece, pois Meursault deixa claro, a certa altura da história, que ela não a ama. Também conhece Raimundo, um dos seus vizinhos, e posteriormente irá livrá-lo de uma confusão iniciada com uma de suas amantes arábes: Raimundo espancou a mulher e precisava de um álibe para reforçar que a briga não ocorreu sem razão. O protagonista aceita testemunhar a seu favor e Raimundo acaba livre.

No decorrer da história, Raimundo e Meursault se encontram com o irmão da mulher espancada, eles acabam por brigar e Raimundo sai ferido. Na sequência, Meursault retorna ao local e reencontra o árabe, quando ele surta devido ao forte sol que fazia e acaba por assassinar com um tiro a queima-roupa, e depois mais quatro com o corpo caído no chão, o pobre árabe.

Na segunda parte do livro, Meursault é preso e seguirá um julgamento para estabelecer a sua pena. Os acontecimentos que seguem são focados, não no crime cometido - este o protagonista já havia confessado - mas na relação que ele tinha com a sua mãe. Juízes, advogados, promotores, jurí e imprensa não estavam interessados na morte do árabe, mas sim em como um ser humano não conseguia chorar no funeral da própria mãe. Percebam que para este público, a gravidade em não ter piedade da mãe era maior do que ter assassinado o homem, como se isto figurasse num crime infiançável. Em determinado momento do julgamento, ele é questionado se amava a sua mãe "Sim, como todas as outras pessoas que amam as suas mães". "Mas você não chorou em seu enterro?", "Não, não chorei".

No fim, a sentença: condenado à morte por não ter tido sentimentos em relação à morte de sua mãe.

Durante os dias que ele espera que execultem a sua sentença, o capelão insiste veementemente para que ele se volte para Deus, na busca de apaziguar a sua aflição, porém Meursault se revolta e fica extremamente irritado com o capelão, pois não acredita em Deus. Antes de ser execultado, Meursault reconhece a "terna indiferença do mundo" em relação ao humanidade.

"Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos expectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio."

Ao término da leitura, um turbilhão de coisas surge em minha mente. Podemos iniciar com a indiferença neutra em relação à morte de sua mãe. Obviamente, a morte da mãe não é a morte de qualquer pessoa. Camus não teria tido o mesmo efeito se fosse o irmão, a esposa ou o cachorro que tivesse morrido. A mãe, do ponto-de-vista global, é uma divindade terrestre intocável que está logo abaixo de Deus na escala hierarquica de adoração. Ou seja, a indiferença de um filho em relação à morte de sua própria mãe seria uma forma de demonstrar o extremo da frieza em uma pessoa.

Porém, aí se encontra os primeiros questionamentos: seria este tipo de comportamento, necessariamente, um mal? Isto poderia definir a espécie de pessoa que ali se encontra? Chorar na morte do ente querido relaciona-se ao bem enquanto o contrário relaciona-se ao mal?

Não, isto não poderia ser uma verdade. O que observamos é que existe toda uma tradição simbólica responsável pela geração de padrões. Padronizar é deixar as coisas semelhantes. Neste caso, a tradição diz que o normal é que se chore na perca da pessoa querida, tudo o que estiver fora disto é considerado anormal, fora do padrão, fora do mundo. Uma pessoa que não tem um comportamento fora da normalidade, não é bem-vindo para conviver em um sistema de pessoas normais, por isto são visto com maus olhos.

Quando Camus insere um assassinato para motivar um julgamento, onde apenas a frieza quanto à morte de sua mãe é análisada, o autor propõe um novo extremo: nem o fato de uma pessoa ter morrido tem grande relevância quanto a anormalidade de um sentimento que nem mesmo pode ser comprovado. Sim, a morte é possível analisar, medir a sensibilidade não. Ainda assim, esta ultima é que a que interessa ao público em geral.

Num dado momento, Maria é chamada para testemunhar. Ela diz que Meursault é um homem carinhoso, funcionário exemplar, enfim, um homem de bem. Porém a promotoria questiona se é verdade que ela começou a se relacionar com o protagonista um dia após a morte de sua mãe, ela, tristemente, responde que sim. Então o promotor faz um pequeno discurso inflável ao público: "Como pode, caros senhores, que um senhor que acaba de perder seu ente mais querido consiga ter com outra mulher no dia seguinte ao enterro? Todos sabem que uma pessoa normal não teria cabeça para estas coisas, com a mente tomada pelo pesar".

Percebam que este argumento é inválido por não tratar do crime, porém o promotor diz algo como: "O que esperar de uma pessoa como esta? Como ela poderá viver em sociedade? Nem mesmo um animal reagiria desta forma!". No fim, a sentença é a morte.

Durante a espera da execução, um capelão tenta, gentilmente, aproximar o condenado de Deus. O protagonista nega suas visitas, porém, em determinado momento, ele invade a cela e utiliza o seguinte argumento: "Você tem fé em Deus", "Não, eu não acredito", "Mas, meu filho, na hora final, nenhum homem até hoje conseguiu suportar este fardo sem o perdão de Deus", "Mas eu não quero", "Então não há salvação para você".

Enfim, não há salvação se você não acredita, não interessa o que você fez em vida, quem você foi e qual é a sua história, você não chorou e você não tem fé, então você não é nada. A vida é um absurdo, segundo a filosofia do Camus quem cria um sentido para vida é você mesmo. A vida, em si mesma, é desprovida de sentido.

Basicamente, a existência se reduz à um grande absurdo e sem o menor significado.

O Deus-Dinheiro e a Dona Morte

Era só o que faltava: a máquina acaba de assinar um tratado com a Dona Morte, onde através do seu emissário, o Deus-Dinheiro, promete acabar com a dor daqueles que subitamente perderam um ente querido.

Ao menos é o que ficou evidente num acontecimento bastante recente em meu próprio meio: uma colega muito querida em nosso ambiente de trabalho perdeu o pai em um acidente trágico. Nós, que ficamos sem entender muito bem o que havia acontecido, fomos comunicados horas depois com maiores detalhes a respeito do fato.

Nas conversas paralelas provenientes deste assunto, o que mais pesa, evidentemente, é a tristeza que sentimos por nossa colega, que perdeu um ente de maneira tão inesperada e injusta. Sem refletir acerca do tema morte, as pessoas mais próximas desta colega se sentiam incomodadas e queriam fazer alguma coisa que pudessem conforta-la, o que é humano e natural: são raros os casos em que as pessoas reagem com indiferença. Entretanto, muitas vezes, apenas o silêncio basta para respeitar a dor dos que ficaram e a memória da vítima, outras vezes bastará apenas escutar, ou então um abraço caloroso. Palavras, ao meu ver, nunca são bem-vindas nas situações que envolvem os sentimentos mais íntimos e particulares, até porque palavras de quem não tem conhecimento de causa não podem dizer muitas coisas.

Enfim, nada de anormal até este momento. Porém, hoje pela manhã, recebo o seguinte e-mail:

"(...)é um momento difícil e não existem muitas palavras a serem ditas para o conforto, mas sabemos que o apoio dos amigos nesta hora é muito importante.
Pensamos em uma forma de tentar colaborar e aliviar o desgaste deste momento, então se possível, quem puder colaborar para as despesas de nossa amiga, abaixo o número de sua Conta Corrente: Ag xxxx e cc yyyyy-y"

Sim, meus caros, não há muito o que dizer, vocês mesmos podem concluir o que bem entender. A máquina, disfarçada de boa samaritana, resolveu dar um fim a dor através do dinheiro! Isto jamais poderá ser um ato de generosidade, muito pelo contrário, é um ato de covardia! Tantas coisas que poderiam ser feitas, inclusive se manter em silêncio em sinal de respeito, e as pessoas, incomodadas, preferem aliviar as suas angústias fazendo um pequeno depósito.

Dinheiro algum irá aliviar a dor da pobre coitada que está a chorar pelo seu ente! Ao menos eu quero acreditar nisto, pois prefiro morrer do que ver chegar o dia em que a máquina substitua as lágrimas da morte pela compensação financeira!

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Aí de todos se a internet pudesse escutar a minha revolta! Haveriam terremotos em todos os portais, web mails seriam demolidos e monitores explodiriam! Minhas palavras ecoariam em cada sala de bate-papo!

O que acontece, neste caso, é muito simples: a pessoa, aflita pelo sofrimento de sua amiga, precisando se livrar deste sentimento negativo, vai rapidamente até o banco e faz um depósito. Ufa! Que alívio! Fiz a minha parte! Por quê está pessoa não se voluntaria para carregar o caixão? Para cavar a cova? Para servir o café no funeral? Para cuidar de todos os pormenores? Porque a máquina ilude, coloca o capital acima de tudo, e por estar acima de tudo, não é logicamente coerente que a pessoa dê dinheiro para aliviar a dor? Cadê o humanismo, minha gente! Cadê as relações próximas que nos fazem humanos? Será que nos tornamos, realmente, humandróides? Tudo se revolve com a troca de objetos? Com mesquinharias? Será que o dinheiro comprou a amizade, o perdão e o amor?

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Que desçam os anjos do apocalypse e dêem um fim em tudo, que negociem o valor de nossa alma com a Dona Morte pelo preço mais barato possível, afinal seremos arrebatados por atacado. A máquina deve estar dando risada: como tudo parece tão rídiculo e tão verdadeiro.

Ondskan - Evil: Raízes do Mal

terça-feira, 20 de maio de 2008


Há alguns meses, fiz um comentário e uma análise a respeito de um filme intitulado Klass, que refazia o percurso do episódio conhecido o "Massacre de Columbine" e que justificava, do ponto-de-vista dos assassinos, que para atos extremos, atitudes extremas precisavam ser tomadas. Ao término do filme, uma sensação de angústia e perturbação toma conta de nosso ser, e nos leva à uma profunda reflexão.

No final-de-semana passado, tive a oportunidade de assistir um outro longa-metragem que segue uma linha semelhante, com uma temática bastante polêmica. Se trata do dinarmaquês Ondskan (que saiu no Brasil com o título "Evil - Raízes do Mal").

A trama básica trata da história de um garoto problemático, que é expulso dos últimos colégios a qual foi aluno, e vai parar numa instituição de ensino tradicional (a única que o aceita, devido ao alto valor que custa o ingresso na mesma) onde somente os filhos de pessoas ricas e influentes estudam. Ele promete a sua mãe que irá terminar os seus estudos sem arrumar mais confusões, porém se defronta com diversas situações de injustiças e humilhações por parte dos alunos-monitores, que possuem o seu próprio código de regras (acima, até mesmo, das regras da instituição), onde ultrapassam os limites da ética e do bom-senso. Desta forma, o protagonista fica entre uma encruzilhada: cumprir a promessa que fez a sua mãe ou revidar os maus tratos?

Enfim, se trata de mais uma obra cinematográfica perturbadora e inquietante. É impossível não se sensibilizar com as atitudes extremas que são mostradas na película. O que mais incomoda é a forma que um colégio aparentemente correto e de tradição pode se mostrar indiferente ao vandalismo praticado por uma classe que podemos denominar como marginais de elite. Em parte, isto não é somente um filme, pois retrata fielmente como os filhos de homens poderosos passam invisíveis aos olhos da justiça, sendo que "os intocáveis" são a matéria-prima para palavras como "impunidade" poderem ser ditas e explicadas.

Temos inúmeros exemplos de como a lei não se aplica para as pessoas de imagem pública, empresários, políticos e influentes, basta que se procure no Google. Nos casos mais chocantes, eles acabam presos (em celas especiais) por pressão da mídia, e tão logo não se fale mais no assunto, eles voltam novamente para as ruas. É necessário a mídia investigue o paradeiro destes jovens, que teoricamente estão presos, o que eu duvido, como no caso dos assassinos do indío pataxó Galdino, que em 1997 foi incendiado por um grupo de jovens que hoje estão soltos e já foram flagrados bebendo em bares e se divertindo à noite, afinal um deles (Max Rogério Alves) é filho de um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral - o TSE - o outro (Antônio Novelly Villanova) é filho de um juiz federal e por aí segue a roda da impunidade.

E o caso mais recente da empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, aquela que enquanto esperava o ônibus de casa foi brutalmente espancada por um grupo de jovens que alegaram que só fizeram isto "porque achavam que era uma prostituta" - ou seja, se ela realmente fosse então estaria tudo justificado! Um terceiro exemplo é aquele do caso do estudante, Caio Meneghetti Fleury, atropelou um frentista num posto de gasolina em Ribeirão Preto, e depois tentou fugir. Na época a "justiça" (sic) negou o pedido de prisão solicitado pela polícia cívil.

Enfim, estes são apenas alguns casos para aproximar melhor o enredo do filme com a nossa realidade, sendo que na prática a ficção se converge em mais um capítulo de nosso universo como ele é, com seus animais soltos numa selva urbana, onde a emoção e a insanidade falam mais alto do que a razão e a coerência.

Ondskan é um bom filme: chocante, pertubador, com uma série de elementos que nos fazem pensar por horas e ainda assim, com muita tristeza por dizer isto, não tem nada de novo. Obscuramente, é mais do mesmo por se tratar de coisas que acontecem por aí, num beco sem saída ou na luz do dia, onde, no fim, todos são vítimas de uma sociedade desestruturada que já não sabe mais conter os nossos impulsos e punir os verdadeiros criminosos.

Mesmo assim eu recomendo para não esquecer que, no fundo, todos somos animais selvagens. Como diria Nieztche "A diferença entre o homem e a égua é que a égua é mais feliz por não ficar pensando no passado e no futuro", ou seja, de resto não há tantas diferenças assim. Salve Nieztche!

Baudrillard - Vida

domingo, 18 de maio de 2008

Em minha primeira contribuição para o estudo que pretendo realizar sobre este filósofo, segue a tradução da vida de Baudrillard (originalmente publicado no Wikipedia em inglês; em português o verbete ainda está fraco, mas irei traduzir todo o texto e acrescentar informações, conforme o andamento do estudo).

Para ler outros artigos de Jean Baudrillard, clique aqui ou acesse diretamente o blog criado especificamente para comentar a obra do filósofo.

Jean Baudrillard (29 de Julho de 1929 - 06 de Março de 2007) foi um teórico cultural, sociólogo, filósofo, comentarista político e fotógrafo francês. Sua obra é frequentemente associada com o pós-modernismo e o pós-estruturalismo.

Jean Baudrillard nasceu em uma familia de camponeses em Reims, no norte da França, no dia 29 de Julho de 1929. Ele foi o primeiro de sua familia a frequentar a faculdade quando descidiu ingressar para a Universidade de Sorbonne em Paris. Lá ele estudou alemão, o que, no período de 1958 até 1966, lhe possibilitou a lecionar aulas da língua alemã em um colégio da província. Durante este período, Baudrillard começou a publica resenhas de literatura, além de traduzir trabalhos de diversos autores, como Peter Weiss, Bertolt Brecht e Wilhelm Muhlmann.

Em seus ultimos meses como professor de alemão, Baudrillard começou a ingressar para o ramo da Sociologia, eventualmente concluindo sua tese de doutorado "Le Système des objets" (O Sistema dos Objetos) sobre a orientação de Henri Lefebvre. Consequentemente, ele começou a lecionar sobre este assunto na Université de Paris-X Nanterre, na época uma instituição politicamente radical, a qual estaria profundamente envolvida nos acontecimentos de Maio de 1968. Em Nanterre, ele conquistou a posição de Maître Assistant (Professor Assistente), e logo Maître de Conférences (Professor Associado), eventualmente se tornou um professor depois de completar a sua habilitação, entitulada "L'Autre par luimême" (O Outro, por ele mesmo).

Em 1986, ele se transferiu para o IRIS ("Institut de Recherche et d'Information Socio-Économique") da Université de Paris-IX Dauphine, onde ele passou a maior parte de sua carreira como professor. Durante este tempo, ele começou a deixar a Sociologia como uma disciplina (particularmente em sua forma "clássica") e, posteriormente, também parou de lecionar em período integral, no entanto ele se manteve ligado ao mundo acadêmico. Durante 1980 e 1990 seus livros começaram a ganhar uma larga audiência, e em seus ultimos anos ele seu tornou uma celebridade intelectual, sendo publicado frequentemente em diversas publicações em francês e inglês. Ainda assim, ele continuou apoiando o Institut de Recherche sur l'Innovation Sociale no Centre National de la Recherche Scientifique e era Sátrapa no Collège de Pataphysique. Ele também colaborou com o canadense periódico de filosofia Ctheory, onde ele era abundantemente citado. Ele morreu de tifóide em 06 de Março de 2007, aos 77 anos.

Enfim, Jean Baudrillard!

Há muito tempo que eu pensava em escrever uma série de artigos à respeito da obra do filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard. Maior expoente da filosofia contemporânea, Baudrillard foi um observador perspicaz e crítico ferrenho de nossa sociedade, construída através de modelos de simulação (os chamados simulacros). Principal desenvolvedor de conceitos como hiper-realidade e transpolítica. Sua obra é frequentemente associada com a corrente denominada pós-modernismo e pós-estruturalismo.

Este pensador influenciou toda a minha visão à respeito do mundo. Contemporâneo (faleceu em 2007), Baudrillard estava sempre antenado aos ultimos acontecimentos. Desmascarava todas as farsas expostas pela mídia e adequava estes fatos para o seu sistema filosófico. Sangue francês, alma alemã, Baudrillard se envolveu em grande polêmica ao publicar um texto chamado "Esquecendo Foucault", principal nome da filosofia pop contemporânea francesa. FOrtemente influenciado por pensadores alemãos, como Karl Marx, Friedrich Nietzche, Sigmund Freud e Adorno, entre outros, Baudrillard desenvolveu uma linha de pensamento que condiz perfeitamente com os dias atuais, onde observamos, cada vez com mais ênfase, uma sociedade baseada em modelos de consumo e escravizada pelos pelos sedutores objetos.

Este projeto é uma realização pessoal. Através da análise dos textos, pretendo vislumbrar novas possibilidades, direcionar um outro olhar para a obra, indagar o filósofo, ampliar horizontes e reconstruir os problemas que foram pensados por Baudrillard, e, posteriormente, me distanciar do autor para construir os meus próprios conceitos baseados em minha visão. Pois eu acredito na hiper-realidade, acredito em sistemas baseados em simulacros, e me sinto perturbado quando, enfim, parece que tudo o que eu vejo é falso.

Sei que Jean Baudrillard jamais aceitaria que ele fosse discutido através da internet, que é uma espécie de necessidade produzida, não uma evolução, ao contrário, uma tentativa de substituir fatalmente tudo o que ainda resta de real, porém eu me sinto tentado em levar o seu pensamento adiante e para o maior número de pessoas possíveis.

Enfim, hoje se inicia a minha investigação filosófica e análise das obras de Jean Baudrillard.

Prepare-se para enxergar para além de sua visão!

Criei um outro blog apenas para tratar sobre Jean Baudrillard, porém todos os posts que serão publicados lá, eu faço questão de replicar aqui, sendo que o outro espaço serve apenas para quem deseja se aventurar unicamente no mundo de Jean Baudrillard: um universo enorme de infinitas possibilidades. O endereço do blog é http://jbaudrillard.blogspot.com.

Clique aqui para ler tudo o que já foi publicado neste blog sobre Jean Baudrillard.

O Empirismo / Positivismo Lógico

sábado, 17 de maio de 2008

O Positivismo Lógico, conhecido também como Empirismo Lógico, é um movimento filosófico instaurado pelo chamado Circulo de Viena" e que influenciou uma série de pensadores na maneira de resolver problemas relacionados à lógica.

O Positivismo Lógico reduz a filosofia à apenas uma tarefa, que é a análise da linguagem, sendo que duas tendências são ramificadas: A análise da linguagem normal e comum (ou aquela que utilizamos no dia-a-dia) e a análise da linguagem científica.

Uma das características mais marcantes no positivismo é negar qualquer enunciado metafísico. Isto porque a metafísica não pode ser verificada, e sendo assim, é totalmente desprovida de sentido. Como já dissemos antes, o Positivismo Lógico é uma corrente empirista, onde as coisas se dão na experiência, ou seja, é coerente que se faça restrições ao uso da metafísica.

Vamos encontrar, no Positivismo Lógico, dois tipos de enunciados válidos.
O primeiro se trata do enunciado factual, ou seja, o que são analisados são os fatos. Afinal, fatos podem ser verificados, e por isto é possível extrair um significado. Esta questão foi abordada pela primeira vez no Tractatus Lógicus-Philosophicus de Wittgenstein (Você pode acompanhar um estudo que eu estou realizando nesta obra clicando aqui).

O segundo diz respeito à enunciados não verificáveis, porém verdadeiros nos termos que os compõem.

Ambos enunciados são tautologias, pois não afirmam nada acerca da realidade e das coisas.

Sobre as tendências do Positivismo Lógico, podemos destacar os seguintes pensadores: na análise da linguagem ciêntifica, temos Rudolf Carnap (em âmbito de Matemática e Física) e Hans Reichenbach (na metodologia da ciência). Nesta tendência, os positivistas seguiam acentuadamente o formalismo de Hilbert, que propunha as deduções científicas a partir de axiomas (postulados) pré-definidos que não seriam jamais questionados. Estes seriam o ponto-de-partida para fazer a análise.

Quanto a tendência de analisar a linguagem comum, temos na figura de Wittgenstein um dos seus principais representantes. Isto ocorreu após Wittgenstein se reunir com o Círculo de Viena e assumir os erros de sua primeira obra, o Tractatus. Nestas reuniões com o Círculo de Viena surge o seu segundo trabalho, intitulado "Investigações Filosóficas", e que antes de ser publicado círcula pela Inglaterra e inspira uma série de filósofos. Nesta trabalho diz que a linguagem é uma espécie de jogo que segue determinadas regras, portanto, todos os jogos linguísticos têm o mesmo valor. A única regra que existe para interpretarmos estes jogos é o uso que se faz dele. Assim cabe a filosofia, que analisa a linguagem, esclarecer as expressões linguísticas.

Gilbert Ryle, em seu livro "Conceito do Espiríto", diz que para entender e esclarecer as expressões de linguagem comum, não há necessidade de afirmar a realidade substancial da alma, nem mesmo admitir que a consciência tenha acesso à alma. Através da análise da linguagem é que poderíamos esclarecer as situações mais comuns e recorrentes do homem. É na experiência que poderíamos identificar o mundo dos significados próprios.

Mas nem todos concordavam com esta corrente iniciada pelo Positivismo Lógico. Bertrand Russel, que foi um dos primeiros a investigar o uso da linguagem, que este tipo de prática torna a filosofia inútil. Ele afirma que a filosofia não deve investigar somente a linguagem, mas toda a realidade, e se fundir no saber positivo dado pela ciência.

Carta Para Os Invisíveis

Caros senhores invisíveis, almas gêmeas da minha, compatriotas de um reino esquecido! Saio de minha caverna, com muita indignação mas com a cabeça erguida, para lembrar-vos da responsabilidade que temos diante do mundo. Não desanimem! Sei que as vezes o caminho é árduo e é com muita dor no peito que vivemos os dias. Sei que há confusão em nossos espirítos e dos problemas que temos em aceitar certos fatos, mas não desanimem, a nossa missão é sacra e os nossos olhos enxergam adiante. As pessoas não têm culpa se não conseguem vislumbrar esta luz que nos guia, e por isto se perdem na escuridão, pois eis que ninguém escolheu nascer com a retina ofuscada. Eles são assim, e pronto! Por isto, senhores invisíveis, cessem o derramamento de lágrimas de sangue! Avante, meus heróis de outrora! É preciso que brilhemos para que tornemos-nos visíveis aos olhos de quem não vê! Vamos pegar os instrumentos que deixamos cair para compor uma nova canção! Não se entristeçam por caminhar entre veredas sem que notem vossa presença, é preciso aprender a perdoar os erros, aceitar a derrota e comemorar a vitória, pois sois todos guerreiros, e batalhas são formas de aprimoramento. Portanto, não chorem, é tempo de recomeçar! É preciso viver cada dia de uma vez, não como se fosse o ultimo, mas como se fosse o primeiro. Vamos esquecer o que ficou para trás, e vamos viver daqui para frente! Caros senhores invisíveis, deixemos as mágoas para trás, aceitemos que aquilo que é, é porque deve ser, pois é certo que não somos cirurgiões da mente e certas coisas não podemos consertar. Então não se iludam, pois vocês irão cair, mas não fiquem cabisbaixos, pois é preciso levantar! Pois na vida, tudo foi e tudo será, pois o homem é finito, mas suas idéias são ilimitadas. A vontade humana equivale a vontade divina, e se estende para além de nossa própria compreensão! Então, avante, meus irmãos e heróis! Vamos rejer a harmonia e conquistar nosso espaço na órbita dos fortalecidos!

Sobre Hades, Demônios, Maldições e Palavras

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Preciso falar! Desesperadamente eu preciso falar! Não preciso que ninguém me diga o que fazer, preciso apenas falar! E como falar de coisas que você quer falar para todos, mas não quer que ninguém saiba? Seria trocando os nomes? Será que se eu expressar com variáveis, substituir nomenclaturas, ficará mais fácil? Se eu negar minha própria autobiografia será como escrever um romance?

Enfim, quero apenas falar! Quero quebrar o silêncio, espantar meus demônios, esmurrar a parede e fazer os surdos ouvirem o que tenho para dizer! Quero rebentar a alma e destroçar os livros! Proferir ofensas e amaldiçoar os santos!

Quero soltar os leões das jaulas e causar uma tempestade de serpentes, transbordar o veneno por entre os rios, para contaminar toda este planeta com minha ira. Quero que o fim-do-mundo aconteceça e duelar com o diabo no inferno de Hades.

Quero, entretanto, depois de explodir as paredes, que alguém possa vir e me confortar, não com palavras - pois as palavras são minhas -, mas apenas se sentando ao meu lado.

Quero falar! Quero falar! Não quero sexo, nem ler poemas de amor! Não quero ouvir como você saiu desta, ou de como as coisas irão melhorar! Não quero ouvir nem mesmo um suspiro! Não quero que me digam que eu sou maior do que a minha angústia, quero apenas vomitar todos os meus temores!

Estou com medo e preciso falar!

Clarisse e a Hora Negra

quarta-feira, 7 de maio de 2008

18:30h
São Paulo - Vila do Desassossego

Antes mesmo que a cabeça de Clarisse se direciona-se ao céu para pedir perdão pelas coisas ruins que andava fazendo ultimamente, as estrelas olhavam para ela tristemente e brilhavam melancólicas entre si. Não resistiam e acabavam chorando. Então chovia. Chovia com enorme agressividade em grande escala e com pingos em forma de barra invertida. Havia grandes lampejos e os raios atacavam ferozes, ofuscando os olhos mais sensíveis.

Era chegada a hora negra. Não havia como escapar.

Clarisse estava em seu apartamento localizado no suburbio da zona sul paulista. Um bom apartamento, nada muito exagerado, e ainda assim um bom apartamento.

Havia um confortável sofá, uma grande televisão.

Tudo aquilo que a fazia esquecer de sua condição de ser errante e pecador era extremamente necessário. A dor era muito grande para suportar com a solidão. Porém era chegada a hora negra.

Clarisse se levantou do sofá e foi até o banheiro.

Ligou sua ducha e se esfregava com o sabonete.

Enquanto isto milhões de pensamentos passavam por sua cabeça. E ela chorava lentamente. As lágrimas deslizando como ácido por sua face.

E, enfim, as lembranças. Ela começava a se esfregar com cada vez mais força a cada nota de pensamento.

Ela não era compreendida e não conseguia compreender.

Saindo do banho, começou a se vestir cuidadosamente. Clarisse era uma garota jovem, de 19 anos, e muito bonita por sinal. Tinha um corpo atraente e ela sempre soube que chamava a atenção.

Tinha uma profissão: era uma triste e bem sucedida meretriz.

Vida Autêntica (ainda que por uns dias)

domingo, 4 de maio de 2008

Este post está sendo redigido em um lugar maravilhoso, num ambiente utópico e promissor. De certa maneira, é a realização momentânea de um projeto que considero muito próximo daquilo que chamo de "viver o real".

Este lugar fica à 750 quilômetros de São Paulo capital, no estado de Minas Gerais. O nome da cidade: Presidente Bernardes (como referência, fica próxima de Conselheiro Lafaiete). Bem aventurados são os moradores desta pacata cidade!

Uma breve descrição da cidade: verde para todo lado! Casas separadas por, no mínimo, 2 quilômetros de distância uma das outras! Residências enormes e simples! Platanções de café e feijão, nos quintais, pés de mamão, laranja e limão. Pequenos lagos e algumas cachoeiras. Canto dos passaros e das cigarras. Vacas e cavalos passeando como se fossem homens. Montanhas esverdeadas para onde você direcionar o seu olhar. Não há cobertura de telefone celular e nem de fixo. Muitos lugares - não é este o meu caso - não tem ao menos energia elétrica. Enfim, o cenário ideal para nos redescubrirmos e que favorece uma nova aprendizagem, uma nova forma de explicar as coisas.

É impossível não gostar de si mesmo neste ambiente, visto que sua principal companhia será você mesmo: ou seja, o autoconhecimento adquirido por estes moradores é impressionante. Eles conhecem os seus limites, o que pode ser dito e o que não pode dito, reconstroem os seus valores internos, conservam uma ética exemplar e a simplicidade de quem, sabendo que é humano, reconhece os seus limites e que é necessário respeitar o outro.

Quando era mais jovem, distraído pelas vitrines das lojas, pela telemídia, pelas luzes da cidade, pelo trabalho e habituado à rotina, simplesmente não conseguia suportar este estilo de vida. Afinal, não conseguia ficar em silêncio comigo mesmo. Ia para os campos levando uma gama de CDs, diversas revistas e, se houvesse energia elétrica, uma televisão portátil e alguns vídeos. Tudo para me manter distraído! E assim voltava de férias dizendo à todos que passei dias maravilhosos nas florestas! Mas quão estranho é esta cena! Olhando para trás, percebo que apenas desloquei de sala e cama, mas nada havia mudado. Qual a diferença entre assistir televisão nos campos e nas cidades?

Agora, finalmente, posso perceber a grandiosidade da vida no campo, e, depois de tantos anos, posso, pela primeira vez,me dar ao luxo de descansar de toda esta loucura presente nas grandes cidades. Posso, derradeiramente, conversar comigo mesmo, me renovar, me energizar e refletir acerca das coisas. Pessoalmente, considero este momento propício para repensar o que passou e planejar o que farei pela frente. Serve como momento de transição, como um ponto zero. Começa agora uma nova partida.

Talvez o que vem por aí seja somente mais do mesmo, porém este meu refúgio serve para apenas me desligar um pouco, me dar um merecido descanso - que todos precisam tanto - e digerir todo o alimento que ficou mal mastigado nestes ultimos e desgastantes anos.

Estou aqui para aprender a viver! Através da observação da vida simples e humilde e com a conexão direta com a natureza, que tão bem me recebeu, tomar lições que possam tornar as coisas mais fáceis!

Como diria Henry D. Thoreau: "Fui à floresta porque queria viver profundamente / E sugar toda essência da vida / Eliminar tudo o que não é vida / e não, ao morrer, descobrir que não vivi".

Preciso ir agora, o almoço está servido: feijão, arroz e ovo cozido! Tudo direto da fonte e preparado num fogão à lenha que fica do lado externo da casa onde estou hospedado.

Rápidas: Tese Verificacionista

A teste verificacionista diz, à grosso modo, que só é possível afirmar o sentido de determinada coisa através de seu método de verificação, sendo que o mesmo deve estar fixado em um conjunto de relações ligados diretamente na experiência para possibilitar a dedução de seu significado. A tese verificacionista é motivada por destituir a metafísica como sem significado e a explorar a confirmação das coisas.

Porém Karl Popper irá propor uma substituição a esta tese através do conceito de falseabilidade, onde todas as teorias são colocadas à prova inversa, ou seja, ao invés de provarmos a existência de algo, provamos aquilo que este algo não é, e vamos falseando estas teses, infinitamente, até que elas sejam refutadas. O exemplo mais clássico é a sentença “este cisne é branco”, que não serve como enunciado universal apenas porque “o outro cisne também é branco” de tal forma que poderíamos generalizar para a sentença “todos os cisnes são brancos”. Para a lógica isto não é válido, visto que há a possibilidade de existir um cisne de outra cor, dado alguma conseqüência ou acidente não observado.

Kuhn: A Invisibilidade das Revoluções

Este artigo é um singelo comentário do 10° capítulo, intitulado "A Invisibilidade das Revoluções", do livro "A Estrutura das Revoluções Científicas" da autoria de Thomas S. Kuhn. Caso você deseje ler outros artigos sobre Thomas Khun clique aqui.

Neste capítulo, Thomas Kuhn está preocupado em demonstrar com clareza a existência das revoluções científicas para o leitor. Isto se dá justamente porque a revolução quase nunca é percebida pelos leigos, visto que há interesses em manter a revolução invisível à percepção das pessoas: A impressão que fica é que a ciência está em constante processo de evolução, e que todo o seu histórico é válido em âmbito de ter contribuido com a ciência da contemporaneidade.

Para Kuhn, os principais responsáveis pela divulgação destas impressões são os manuais científicos, os textos de divulgação e as obras filosóficas desenvolvidas para afirmar o que está sendo divulgado, sendo que cada uma destas três atinge niveis diferentes de público: do técnico para o mais popular. O problema é que nenhuma das três tem a obrigação de mostrar, essencialmente, o modo pelo qual as suas bases foram reconhecidas.

Como sabemos, o conhecimento ciêntifico, assim como em outras áreas, é adquirido através da utilização dos manuais que contém teorias e descobertas de sua contemporaneidade. Após uma revolução ciêntifica, o ideal seria que que todos os manuais fossem reescritos e redistribuidos apenas contendo os descobrimentos da ultima revolução e anulando inteiramente todas as descobertas anteriores. Como isto não é possível, visto que alguém conheceu ou vivenciou a revolução anterior, surge um problema que precisa ser resolvido para que se aceite a revolução corrente: enquadrar todo o conhecimento anterior dentro do conhecimento corrente (e daí surge esta impressão de que a ciência evolui).

Isto acontece porque a ciência não pode simplesmente negar tudo o que foi descoberto até então. Isto seria colocar em dúvida até mesmo a descoberta mais recente, por mais consistente que fosse, pois, afinal, quanto tempo iria durar até que ela fosse totalmente anulada por um novo descobrimento? Seria impossível acreditar em qualquer afirmação da ciência, e daí o seu interesse em demonstrar que ela é evolutiva.

Para validar o seu argumento, Thomas Kuhn irá se valer de alguns exemplos e irá ilustrar certos caminhos que podem ser observados num papel de historiador. Primeiramente ele afirma que todos os manuais científicos fazem questão de ressaltar apenas as descobertas que se encaixam na revolução científica mais recente, se atendo apenas naquilo que pode contribuir para construir uma historiedade que condiza com os interesses atuais. Para isto vale de tudo: desde alterar o enunciado dos problemas resolvidos na ultima revolução - de tal modo que seja possível fazer uma aproximação das soluções anteriores com a solução mais recente - até alterar o enunciado dos problemas das revoluções anteriores - nesta caso, é o passado que passa a relacionar com o presente científico.

Um dos exemplos citados é o que segue:
"Newton escreveu que Galileu descobrira que a força constante da gravidade produz um movimento proporcional ao quadrado do tempo[...] Mas Galileu não afirmou nada deste gênero[...] Sua discussão não alude a uma força gravitacional uniforme que causasse a queda dos corpos."¹

Nesta caso, o que Newton faz é justamente isto: disfarçar uma revolução científica através de uma alteração na intepretação de um conceito, que até poderia se enquadrar nos conceitos dinâmicos de Newton, de Galileu para transmitir esta revolução apenas como uma evolução.

De fato, não há uma evolução gradativa do conhecimento científico. A ciência criada ao longo da história resolvia os problemas de uma determinada época. Hoje, a nossa ciência resolve os problemas de nosso tempo. Na tradição revolucionária anterior, a relação entre o homem e natureza, que era obtida através do conhecimento, não é a mesma relação que tem a contemporaneidade. Porém, o que se percebe é que através desta forma pedagógica que não aponta uma revolução, e que adapta a história ao tempo atual, é que determina a nossa imagem a respeito da ciência como algo que está sempre em constante evolução.


1. T. S. KUHN, "A Estrutura das Revoluções Científicas", Ed. Perspectiva, São Paulo, 2007, p. 149